quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A ORIGEM DA VIOLÊNCIA

COLEÇÃO COMPORTAMENTO HUMANO




A ORIGEM DA VIOLÊNCIA
Uma contribuição ao estudo do comportamento violento



1ª EDIÇÃO


Luiz Gonzaga de Freitas Filho







NOME – E D I T O R A





Biografia do autor: (orelha do livro)

Luiz Gonzaga de Freitas Filho é médico formado pela Universidade Federal do Pará (1970); com curso de formação didática em Psicanálise pelo Grupo Brasileiro de Psicoterapia Analítica de Belo Horizonte/MG (1979/1983). Médico chefe da Unidade Sanitária de Maués e assistente na Unidade Hospitalar de Parintins - FSESP/AM (1971/1973) coordenou e executou programas de saúde pública. Dirigiu a Divisão de Saúde e Higiene da Secretaria de Saúde do então Território Federal de Roraima (1973/1974) e participou como assistente no Curso de Administração em Saúde Pública promovido pela SESPA/OPS/OMS. Em 1974 chefiou o serviço de socorros de urgência do mesmo Território Federal de Roraima. Em 1976 dirigiu o Hospital da Paranapanema S/A durante o período de abertura de um trecho da rodovia Perimetral Norte. Participou como médico na Unidade de Saúde Eletronorte durante o início de implantação da usina hidroelétrica de Tucuruí/PA na execução de trabalhos de Clínica e Assistência Materno Infantil. Foi, de 1976 a 1985, psiquiatra da antiga Escola FEBEM “Monsenhor Messias” em Sete Lagoas/MG, assessorando e executando trabalhos de reabilitação em comunidade terapêutica para menores Infratores. Durante o período em que viveu na Amazônia fez várias incursões em aldeias indígenas, coletando informações e estudando os trabalhos etnográficos de Pierre Clastres, Bronislaw Malinowski, Protázio Frikel, entre outros etnólogos e antropólogos, que produziram trabalhos de campo. Atualmente desenvolve e aplica em consultório metodologia própria para uso em psicoterapia analítica e medicina psicossomática, criando alternativas de profilaxia em saúde mental com seus Grupos de Apoio Familiar.

É autor dos trabalhos:

F"Viver eu quero, conviver é preciso!" (texto).
FRelação de Qualidade (treinamento de pais e educadores para prevenir comportamentos reativos em crianças e adolescentes (slides eletrônicos do Power Point)).
FA Origem da Violência: Uma contribuição ao estudo do comportamento violento.
FMemórias de um hospital psiquiátrico

Em parceria:
FManual da Comunidade-Escola: uma experiência bem sucedida em comunidade de menores infratores (texto).
FAprendendo a Ensinar: uma experiência com alfabetização de adolescentes marginalizados (texto).
FAmadeu, um caso especial: uma experiência com menor considerado infrator de “alta periculosidade” (texto).

Em fase de elaboração:
FA prevenção da violência - Uma contribuição ao estudo do comportamento violento (texto).




A ORIGEM DA VIOLÊNCIA
Uma contribuição ao estudo do comportamento violento





NOME – E D I T O R A


Capa: do autor
Copidesque:
Revisão:


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ()
()


Filho, Luiz Gonzaga de Freitas.
A Origem da Violência: Uma contribuição ao estudo do comportamento violento/ Luiz Gonzaga de Freitas Filho – Sete Lagoas, MG E d i t o r a, 1999. - (Coleção Comportamento Humano)

Bibliografia.
ISBN 00 000 0000 0

1. Comportamento 2. Violência 1. Título. II. Série.

00 - 0000 CDD 000.00



Índices para catálogo sistemático:

1. Cultura e Comportamento : Sociologia 000.00
2. Comportamento: Aspectos sociais 000.00
3. Comportamento e cultura: Sociologia 000.00


1ª edição
1999

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COLEÇÃO COMPORTAMENTO HUMANO



Comportamento é ação de pessoas, é um fenômeno que envolve, antes de tudo, gente. É um ramo que abrange várias ciências concomitantemente e não pertence ao campo das ciências exatas. Transcende a esfera das meras relações econômicas.

A tendência da humanidade é a de se concentrar nas grandes cidades, o que torna esses núcleos humanos muitas vezes fonte de violência e neurose urbanas.

Dado esse quadro, vemos atualmente deteriorar-se cada vez mais as relações humanas, proporcionando ao indivíduo a experiência da violência nessas relações, que o distanciam da convivência harmoniosa e produz alterações no seu psiquismo e no seu meio ambiente, tornando-o cada vez mais hostil e inadequado para o bem estar em comum.

Esta coleção pretende ser uma ferramenta de reflexão para todos os que se interessam pelo fenômeno da violência e pelos fatores que determinam sua existência e expansão, assim como para os profissionais atuantes no estudo dessa área, atendendo à demanda por bibliografia nacional e por novas visões da dinâmica social que possam unir vários interesses acadêmicos no grande desafio de fazer com que, no futuro, a vida em sociedade e sua compreensão não seja mais um privilégio de minorias, mas um direito de todo cidadão.

Coordenador




Este livro é dedicado aos indígenas brasileiros e ás pessoas que ainda convivem ou conviveram entre eles. Minha utopia é resgatar, para a nossa civilização, a sabedoria que essas comunidades possuem.




AGRADECIMENTOS

A todos que, de forma direta ou indireta, tornaram possível esta obra. Á minha família, que por longo tempo suportou meu afastamento relativo da vida em comum para me dedicar à confecção deste trabalho.





SUMÁRIO

A ORIGEM DA VIOLÊNCIA (uma contribuição ao estudo do comportamento violento) 1

Apresentação e objetivos 17
CAPÍTULO I 21
A Natureza e seus mecanismos 21
Interação, Integração e Função 21
Natureza e diversidade 22
Tropismo e Entropia 23
Interação, comportamento e desvios 25
A origem da destrutividade 26
CAPÍTULO II 29
O Comportamento violento 29
O Cérebro humano 30
Percepção e convenção 32
Comportamento Humano - Ativo e Reativo 34
Comportamento: organização e desvios 37
CAPÍTULO III 40
Bando, agrupamento e Cultura 40
O Bando 41
A Cultura 41
Modelo Cultural, Etnocentrismo e Racismo 43
O AGRUPAMENTO 44
Associação e dissociação (POLARIDADE VITAL) 46
Civilização e origem do conceito de Estado 49
Propriedade territorial 50
Poder Econômico - Riqueza 51
Instituição e violência 52
CAPÍTULO IV 54
Comportamento e representação 54
Fama e exibicionismo 54
Sociedade e comunidade 55
(política, governo e lei) 55
Fatos ocorridos em aldeias indígenas * 57
(RELATOS E SIGNIFICADOS DE COMPORTAMENTOS ATIVOS) 57
CAPÍTULO V 70
Exemplos históricos de comportamentos reativos 70
Reatividade nas sociedades antigas 70
REATIVIDADE NAS SOCIEDADES ATUAIS 102
CAPÍTULO VI 130
Trabalho e violência 161
Violência na família 165
CAPÍTULO VII 167
Psicose e sanidade 167
(mecanismos de intermediação) 167
Mecanismos estabilizadores e desestabilizadores 169
Diagnóstico e natureza causal 173
Esquizofrenia nas sociedades naturais (?) 176
Esquizofrenia nas sociedades civilizadas 178
CAPÍTULO VIII 180
Problemas civilizados da atualidade 180
Marketing: um conceito controverso 184
higidez e cura 185
Machismo e feminismo 186
Aprendendo a conviver numa sociedade civilizada 187
Aprendizagem subliminar 195
O FUTURO 196
SUGESTÕES DE LEITURA 159P





Apresentação e objetivos

Este texto perpassa um longo trecho da minha vida, desde quando não compreendia bem a existência próxima na convivência, entre as pessoas chamadas de ricas e de pobres naquela época; no tempo em que também via entrarem na minha casa e no consultório do meu pai, pessoas estranhas á minha imaginação infantil – os índios. Um longo período onde, na juventude, se adicionaram outras dúvidas advindas dos cursos de psicologia médica e psiquiatria na universidade.

Outras interrogações vieram nos tempos que passei num hospital psiquiátrico como acadêmico residente, lidando com pessoas que, além de pobres, eram chamadas de loucas. Foi, porém, do curso dos anos e das insistentes questões que fiz a mim mesmo – costume herdado dos pais – e do auxílio dos livros e de tantas outras pessoas, que resultou este trabalho. Determinantes foram as observações feitas desde 1971 até 1983, quando andei pelas aldeias indígenas em busca de explicações para um tipo de vida estranho e desconhecido e quando convivi com menores infratores durante nove anos numa comunidade-fazenda.

Sentia necessidade de compreender e sistematizar a compreensão do comportamento das pessoas nesses dois mundos tão diferentes – o da sociedade branca e o das comunidades indígenas - e, ao mesmo tempo, tão próximos. Tudo o que consegui com essa aventura foi descobrir um material inesgotável de mais dúvidas, produzidas pelo desconhecimento quase total nessa busca de comparar e compreender duas sociedades que atuam com sinais contrários e opostos na forma de conceber a Vida e de lidar com ela. Muitos trabalhos feitos por pesquisadores brasilei¬ros e estrangeiros, que têm como eixo comum a preocupação com as sociedades antigas e contemporâneas e seus comportamentos violentos, nunca conseguirão, como este trabalho, esgotar o tema.

Seguindo esse eixo, o presente texto tenta discutir conceitos referentes às sociedades pré-letradas e pós industriais, priorizando o enfoque das organizações dessas sociedades – e dos comportamentos individuais – como fatores facilitadores ou inibidores das formas de violência que conhecemos atualmente.

No decorrer das análises, procurei não me prender a uma abordagem acadêmica e a uma linguagem hermeticamente científica para permitir maior clareza e torná-lo accessível. Tentei contestar e ampliar conceitos médicos usados em psiquiatria, sugerir uma classificação das alterações do comportamento que se torne mais próxima da realidade do que as que estão sendo utilizadas atualmente e que se orientam por parâmetros semelhantes aos utilizados para as doenças físicas. Acredito ter aberto caminho no sentido de ampliar o uso das psicoterapias para a direção da profilaxia e da educação.

Na verdade o que posso ter feito foi dar um primeiro passo alternativo para pesquisas mais profundas na área da compreensão do comportamento humano e da sua aplicação prática. Os estudantes e profissionais de diferentes áreas, através do conteúdo desse texto, terão farto material para crítica e reflexão. É necessário que as pessoas saiam, de vez em quando, do horizonte civilizado e conheçam outras realidades; que troquem de ângulo visual e se disponham a viver no mundo sem as lentes estreitas do dogmatismo e do puro conservadorismo.

Este texto é apenas uma contribuição no sentido de levar a discussão sobre o comportamento humano para o cotidiano, para as rodas dos que se interessam pela convivência. Comportamento humano não é assunto para ficar preso aos domínios dos acadêmicos ou dos profissionais da área. Tampouco pode ser encarado como conversa fácil, passível de ser resolvida sem maiores mergulhos intelectuais, pelo senso comum das esquinas e mesas de bar.

Escrever é como ter uma relação privilegiada com os outros. Quando o interlocutor não está presente, a imaginação é livre, a idéia torna-se verdade e lei. É como encontrar um espaço de liberdade na solidão. Uma liberdade relativa, pois sabendo que os outros irão ler o que escrevemos, tomamos cuidado e nos tornamos, ás vezes, rígidos censores da nossa imaginação.

Viver em sociedade é uma coisa muito parecida. Desejamos criar nossas próprias idéias e verdades, mas sabemos que elas perderão o sentido se não forem comunicadas e partilhadas com os outros. A convivência influencia nossas idéias e, elas, o nosso comportamento, mas o comportamento e as idéias dos outros enriquecem as nossas experiências. Escrever é uma forma virtual de conviver, com relação e sem presença física, pois os outros, embora ausentes, estão sempre presentes na imaginação de quem escreve. Não existe solidão absoluta, existem sim, duas formas de conviver: uma real e outra virtual.

Talvez tenham sido essas reflexões que impulsionaram este trabalho: saber que vivemos em dois planos simultâneos de convivência, um virtual (mental) e outro real (social). Perceber que o elemento intermediário entre esses planos é o comportamento, que pode expressar como nos sentimos na convivência, que pode reforçar ou enfraquecer mais ainda essa vontade de escrever, de viver e de conviver. É preciso admitir que o objetivo maior não é apenas chegar à conclusão que o comportamento expressa o resultado dessas relações, mas que ele é o único meio que possuímos, na relação social, para manifestar nosso bem estar ou mal estar. A curiosidade em saber porque os indivíduos e as sociedades entram em crise e se comportam reativamente é privilégio de um pequeno grupo de pessoas, mas, quem sabe se a maioria delas também se interessa por esse assunto?

O desejo de saber para que serve a Vida e se o seu maior objetivo está mesmo voltado para a convivência, pode nos transportar para um campo onde atuam os intrincados mecanismos de interação e regulação mental e social. Nos anos setenta havia uma grande curiosidade da classe média, no Brasil e em outros países, sobre hábitos e crenças orientais (orientalismo). Era a época dos gurus, da macrobiótica, do naturalismo e do misticismo oriental. Se quisermos arriscar uma interpretação desses comportamentos da época, poderíamos pensar que:

• Muitos se sentiam saturados pelo cotidiano ocidental da produção e do consumo massacrantes
• Esses rituais formavam grupos afins com objetivos voltados para a valorização da figura humana
• Rituais voltados para o místico e para a natureza podiam atuar como um bálsamo para a Vida

O resultado, observado em pouco tempo, foi o florescimento da “indústria oriental”, com a produção e comercialização de diferentes tipos de produtos e seitas, onde os adeptos pudessem gastar o seu dinheiro e aliviar sua alma e seu bolso.

Acabamos tendo que concluir que o materialismo, impregnado no imaginário dos ocidentais, pode ser considerado uma doença, um impulso obsessivo e insaciável, que impede as relações pessoais de se organizarem fora dessa estreita concepção de vida. Foi nesses mesmos anos setenta que surgiram as primeiras e mais demoradas incursões no mundo da verdadeira “cultura brasileira” – o universo indígena. Foram essas experiências, muito difíceis de compreender no início, que me fizeram pensar com liberdade, melhorar o senso crítico, para poder refletir e contestar os fundamentos sobre os quais jazem os sentimentos, princípios e valores da vida civilizada. Foi um golpe mortal no meu etnocentrismo branco. Como bem disse o líder indígena Marcos Terena: “a civilização de vocês é o exemplo de uma cultura que não deu certo!”.

Esse certamente deve ter sido o principal objetivo de escrever - aprender sobre experiências obtidas em dois universos diferentes: o universo virtual do mundo civilizado, construído sobre sonhos intelectuais de grandeza, e o mundo da realidade natural, assentado nas possibilidades existentes da Natureza.

Alguns pensadores e filósofos tratam os “universais” como se fossem objetos descartáveis de uso pessoal. Já li muitos debates, sobre diferentes assuntos, entre doutores e pesquisadores. Com certeza todos deram - ou tiveram intenção de dar - alguma contribuição esclarecedora. Por ser este um tema amplo e complexo e pelo fato de não estar suficientemente pesquisado com a profundidade que exige, este trabalho serve também como uma contribuição motivadora para futuros estudos em área de Neurociências e em outros campos como a Etologia, Psicoantropologia e Antropologia Cultural. Sem a intenção de ser profeta diria mais: num futuro próximo acredito que as relações entre comportamento e relação social passarão a ser objeto de um novo ramo de pesquisa científica. Talvez esses estudos possam estar dirigidos para uma área próxima a da teoria computacional da mente, da lógica imprecisa e dos processos elaborativos que fazem com que o cérebro “dê respostas” para situações onde estejam envolvidos, simultaneamente, os interesses do indivíduo, do seu grupo e do ambiente.

O que conhecemos como sabedoria (conhecimento profundo) parece ser uma estratégia usada pelo sábio para divulgar conhecimento. Uma capacidade de armazenar suas verdades ou as verdades da sua cultura sob a forma de “verdades provisórias”, antes de falar ou escrever sobre elas. Como grande parte das verdades não resiste ao tempo, o sábio usa o silêncio excessivamente e fala moderadamente para manter-se sábio.

Minha utopia é resgatar, para a nossa civilização, a sabedoria que as sociedades naturais possuem. Quem sabe se um dia poderemos nos tornar também povos desenvolvidos?

Não sou um especialista em filosofia ou em dialética, mas aceito as críticas sérias. Não dou muita importância a títulos universitários. Penso que “a melhor qualificação para um bom profissional é estar construído sobre a base de um excelente cidadão”. O título mais importante que um indivíduo pode alcançar é o de Cidadão. O único título que possuímos, mesmo antes de nascer, quando somos esperados por nossos pais. É um título homologado pelo nascimento, gratuito e sem necessidade de qualquer esforço pessoal ou registro em cartório; porém, talvez seja o mais difícil de manter pelo resto da vida; uma honraria que precisa ser preservada com simplicidade, pois todos os outros indivíduos também são possuidores do mesmo título e todos eles são outorgados pela mesma Univers(al)idade. Quando morremos só levamos conosco duas coisas: o conhecimento que adquirimos e a convivência que tivemos. O resto fica!






CAPÍTULO I
A Natureza e seus mecanismos
Interação, Integração e Função



O eixo dinâmico dos mecanismos da Natureza é a Interação! A Interação é constante e geral, provoca as mudanças, promove a diversidade de formas, cores, situações e fatos. Até os elementos inanimados sofrem a ação desse eixo universal. Um exemplo visível está na força gravitacional, aquela força que mantém os corpos celestes em equilíbrio. Tudo está em movimento e se relaciona para resultar em alguma coisa. Tanto a Biosfera quanto o nosso corpo - que estão em contínuo processo de mudanças – necessitam interagir para manter a vida em movimento.

Poderíamos dizer que a Interação é a principal razão da Vida, ou que a Vida é Interação. A partir dessa premissa podemos entender a Natureza como um processo interativo entre elementos naturais animados e inanimados. Esse tipo de fenômeno quando ocorre nos seres humanos, de forma integrada, não só mantém o equilíbrio do corpo (fisiologia e anatomia) e do psiquismo (equilíbrio psicológico ou emocional) como patrocina e coordena a estrutura social (modelo sociocultural). Integra o ser como unidade individual e como parte do grupo social e do todo universal.

Um papel significativo da Interação1 é permitir a Integração2 entre as partes, para cumprir o objetivo da Função (função construtiva e reprodutiva3) que resulta na produção da Vida. Visto esquematicamente poderia ser assim:


                               INTERAÇÃO    INTEGRAÇÃO         FUNÇÃO            VIDA



Interação pode significar Ativação ou Animação4, isto é, estado integrado e animado (com alma, com união, harmônica, estímulo ativo) entre as partes, resultando em produto ativo – a convivência, a Vida; mas também pode significar Reação5 (sem união, conflitivo, estímulo reativo) entre as partes, resultando em produto reativo – o conflito, a destruição, a morte. Visto esquematicamente poderia ser assim:



Natureza e diversidade

Chamamos de Natureza a um conjunto de leis organizadoras da interação, integração e função entre unidades animadas ou inanimadas que coexistem num espaço e tempo determinado, com direções alternativas. Essa associação natural permite a reprodução e evolução dessas unidades, resultando numa diferenciação muito grande do conjunto – a Diversidade. Essa disposição interativa também é múltipla, dependendo do grau, da natureza, das propriedades e da qualidade de cada uma e da relação interativa entre elas. Por exemplo, o simples balançar dos galhos de uma árvore pelo vento é considerada uma interação mecânica (natureza de interação); se possuir intensidade forte, pode partir esse galho (grau de interação); pode, se for frio, fazer cair as folhas (propriedade de interação), etc. Nesse caso essa interação está ocorrendo entre uma unidade não-viva (vento) e uma unidade viva (árvore). O melhor exemplo interativo entre duas unidades vivas, sexualmente diferentes e da mesma espécie é a reprodução (interação reprodutiva).


1 Interação significa: “relação entre” as partes de um todo.
2 Integração significa: “ação solidária entre” as partes de um todo.
3 Função significa: “ação específica” para desempenhar um papel em benefício do todo.
4 Ativação ou Animação significa: “ação construtiva, reprodutiva e sintônica para unir as partes beneficiando o todo”, permitindo a sobrevivência.
5 Reação significa: “ação reativa, contrária, dissociada entre as partes” de um todo, conflito.


Se utilizarmos a Teoria dos Sistemas podemos pensar a Natureza como um grande sistema (Universo), compondo um conjunto de sistemas (galáxias) constituído de sub-sistemas (corpos celestes) que compõem outro sistema (Terra) composto por outro conjunto (Biosfera) que possui mais sub-sistemas (grupos humanos), constituídos de indivíduos que, para terem suas partes funcionando, necessitam de outros sub-sistemas (aparelhos) formados de outros, (órgãos) com funções específicas e que também são constituídos por células diferenciadas (tecidos) que atuam de forma especializada, produzindo substâncias, etc. Se procurarmos, desde o macrocosmo até o microcosmo, o encadeamento desses mecanismos, iremos encontrar os mesmos fatores (interação-integração-função) em qualquer uma das partes dessa extensão. O que chamamos de Ciclo Vital é um complexo conjunto de fenômenos renováveis que possui, para cada parte funcional, um eixo organizador para manter o equilíbrio de todo o sistema.

Essa disposição natural pode ser fruto de uma fonte (ou mais de uma) sobre a qual ignoramos a origem e os objetivos. Admite-se que qualquer modificação antinatural nessa disposição poderá provocar desvios e alterações com resultados perturbadores para o conjunto, ou passíveis de reordenação. Quanto maior o grau de integração entre as partes componentes que um conjunto comporte (diversidade) e quanto menor a ocorrência de desvios entre essas partes, maior será sua estabilidade.

Tropismo e Entropia


O conceito de tropismo6 é um bom exemplo para compreendermos a orientação dada pela Natureza para organizar a interação entre seus elementos constituintes. Dizemos que uma planta possui tropismo positivo para a luz ou para a Terra, quando ela se volta para um ou para outro, no caso de alteramos sua posição inicial. A flor do girassol, por exemplo, está sempre voltada para receber os raios solares da melhor forma possível; se alterarmos a posição da planta, ela naturalmente voltará á posição anterior (heliotropismo). Se colocarmos um vaso com o girassol deitado, paralelamente ao nível do solo, suas raízes farão uma curva para se posicionarem em direção ao centro da Terra (geotropismo).

Este fato nos mostra que, para cumprir uma função, as partes que interagem (flor/luz do sol, raízes/Terra) necessitam funcionar integradas e sintônicas para alcançarem a lógica da sobrevivência e da reprodução. São leis que organizam os mecanismos naturais da Vida.

O termo entropia7 é um exemplo, em contrário, para compreendermos a mesma orientação dada pela Natureza para mostrar que a interação entre seus elementos constituintes necessita de integração e sintonia para cumprir uma função vital. Se o mecanismo natural sofre mudanças consideráveis para pior, dizemos que “o sistema se tornou negativamente entrópico”, ou seja, que fatalmente se desorganizará e caminhará para a falência. Visto esquematicamente poderia ser assim:



                                    SISTEMA NATURAL                     SISTEMA ANTINATURAL

                                       (entropia positiva)                           (entropia negativa)





Se retirarmos os ponteiros de um relógio, não mais poderemos marcar o tempo por ele; seu mecanismo continuará funcionando, porém a integração entre o mecanismo e os ponteiros - que empresta a função de visualizar as horas - se perderá. Se cortarmos o tendão de um dedo polegar, certamente perderemos a função de apreender objetos, porque sabemos que o tendão cumpre a função de intermediar o movimento dos dedos. Analogamente, para viver de modo ativo e em harmonia, as pessoas necessitam obedecer às regras sociais e ecológicas determinadas pelo seu grupo cultural de acordo com as leis da Natureza. Os modos de associar-se é que determinam “a qualidade”8 do comportamento das pessoas em relação ao seu grupo e ao ambiente em que vivem. Se o comportamento é integrador, sintônico e funcional, o sistema vital no grupo e no indivíduo decorrerá de forma natural (comportamento ativo/ associação equilibrada); se o contrário acontece teremos um sistema entrópico, o que caminha para a extinção (comportamento reativo/ associação desequilibrada).

Associação humana entrópica ou desequilibrada é aquela que perdeu seu Eixo Cultural, isto é, perdeu o conjunto de regras, hábitos e costumes que mantêm a qualidade dos comportamentos, a coesão e harmonia dentro do grupo e fora dele (no ambiente). Nesse tipo de associação as pessoas se tornam reativas (portadoras de comportamento reativo). Visto esquematicamente poderia ser assim:


Individualismo/Isolamento                                     Desintegração Disfunção/Reação/Conflito



6 tropismo em Biologia significa: reação de aproximação ou afastamento de um organismo em relação à fonte de estímulo.
7Entropia significa: Medida do grau de desordem em uma substância ou sistema; Na teoria da informação e em ciência de computador, é uma medida do conteúdo de informação de uma mensagem, avaliada por sua incerteza.
8 “a qualidade” do comportamento significa: se o comportamento é integrador, sintônico e funcional entre seus membros e com o ambiente.
Interação, comportamento e desvios

Chamamos de “interação” a uma forma universal de relação que ocorre entre as partes componentes de um sistema e que segue as leis naturais. Esse sistema poderá ser o Universo, a Terra, uma sociedade animal ou vegetal ou o nosso próprio corpo ou mente.

Chamamos de “comportamento animado” a uma forma particular de relação que ocorre entre as partes componentes de um sistema e que segue as leis naturais, composto de seres vivos (animais ou vegetais). Essa resposta é geralmente originada pela constituição genético-instintual das partes, frente aos estímulos internos e externos.

Chamamos de “comportamento humano” a uma forma especializada de relação que ocorre entre os seres componentes de um sistema cultural humano e que nem sempre segue as leis naturais (sociedade humana). Essa forma especializada determina uma ampla diversidade de culturas e comportamentos. Isso ocorre devido à “natureza avançada” dessas relações, onde atributos como: sentimentos, princípios e valores estão agregados às relações com o grupo e com o ambiente. Esses atributos podem modificar individualmente a resposta a um mesmo estímulo. O livre-arbítrio, aprendizagens diferenciadas e os estados reativos (comportamentos reativos) podem alterar as respostas. Visto esquematicamente poderia ser assim:



Os desvios no comportamento humano se dão em condições antinaturais, quando sua sobrevivência, seus direitos, seus desejos pessoais (liberdade) e sua necessidade de conviver harmoniosamente em grupo encontram-se limitados ou alterados pela organização social, refletindo-se para a mente e produzindo comportamentos alterados. A esses desvios de comportamento chamamos de Comportamento Reativo.

Costumamos confundir “comportamento normal” e “comportamento violento”. Chamamos de “feras” aos animais que matam outros animais para sobreviver. O ataque de uma onça à sua presa, por exemplo, vemos como ato violento e injusto. O instinto predador dos carnívoros protege sua sobrevivência e é movido por seus instintos. Na verdade, esse ato é perfeitamente natural e serve a diferentes funções do equilíbrio natural entre animais. O espaço vital necessita de “desbastes” periódicos das populações animais e vegetais para que a Vida possa circular sem problemas. Os seres vivos nascem para viver e reproduzir, mas não podem ocupar o espaço vital indefinidamente. Morrem para ceder espaço a outros que nascem!

Podemos pensar a violência como uma anomalia na interação humana; como subproduto das relações instáveis entre pessoas e entre grupos de pessoas. Indivíduos portadores de comportamentos reativos podem produzir violência, assim como o desequilíbrio das relações sociais num grupo pode originar comportamentos reativos nos indivíduos.

Os comportamentos podem sofrer desvios quando os mecanismos naturais são alterados por circunstâncias ambientais (enchentes, superpopulação e catástrofes naturais) ou provocados artificialmente pelos homens (guerras, poluição, alterações da organização social). Todo animal quando experimenta situações com as quais não está adaptado, atua reativamente na tentativa de readaptar-se ou mudar a situação alterada. Nesses períodos sua agressividade altera-se em qualidade e intensidade, podendo produzir o que conhecemos como destrutividade. Essa alteração poderá retornar a normalidade desde que cessem os fatores que a iniciaram, fazendo com que os distúrbios transmitidos para o sistema também se atenuem ou desapareçam.

A origem da destrutividade


Pode parecer incrível, mas os primeiros registros cerebrais, no plano relacional, que os homens (e os outros animais) possuem são destrutivos. A destrutividade é a matriz da sobrevivência; a agressividade natural é sua expressão, na interação entre os indivíduos. Na verdade a agressividade natural é uma função de todo ser vivo dirigida para a sobrevivência no convívio entre as espécies. Um homem ou animal que não usa sua agressividade natural tende a enfraquecer e morrer.

A destrutividade é como se fosse um treinamento primitivo e grosseiro da agressividade, que tenta buscar equilíbrio adaptativo. Todo animal é naturalmente destrutivo, mas nem sempre é agressivo. O que intermedia esse processo nos animais são seus instintos. Enquanto alguns cuidam dos filhotes arriscando a própria vida (instinto maternal ou paternal), outros os devoram (canibalismo). Alguns tipos de cobras devoram seus filhotes logo após o nascimento. A capacidade de fugirem imediatamente para um abrigo salva suas vidas. Entre os humanos a destrutividade também ocorre em situações especiais (desvio instintual), sobretudo quando o indivíduo está submetido a uma forte condição reativa (forte tensão). Quando a mãe mata o filho em estado de eclampsia, a destrutividade se sobrepõe ao instinto maternal. Quando acometido por uma crise de automatismo epiléptico qualquer indivíduo pode matar quem estiver próximo (estado alterado da consciência). Quando um pai mata o filho para defender sua própria vida, entra em ação a parte destrutiva da sua agressividade natural (autodefesa). Esquematicamente poderia ser assim:



A destrutividade é a matriz bruta; a agressividade natural é o resultado de um ato processado pelo cérebro através da aprendizagem social (socialização). O que intermedia as duas coisas no animal são os instintos. No caso do homem os instintos também podem produzir atos violentos, dependendo do seu estado de consciência. Na maioria das vezes o homem usa recursos especiais para intermediar seus impulsos agressivos. Os sentimentos, os princípios, os valores, a religiosidade, o discernimento, entre outros tantos, são utilizados para processar os estímulos e resultar na ação (comportamento). A socialização dos impulsos agressivos é condição essencial para a vida em grupo. Vários sentimentos podem originar impulsos agressivos (ódio, raiva, irritação, humilhação, etc.) dependendo de como são processados pelos centros superiores cerebrais e da sua carga reprimida. Essa carga (reatividade) pode ser reprimida, atenuada, deslocada ou sublimada. Dependendo da direção que tome, sempre haverá um resultado final. Vejamos alguns exemplos:

Reatividade reprimida – alternativas:
• Acumula tensão, aumentando a reatividade existente.
• Ao atingir certo limite, explode num ato destrutivo Ex. homicídio, suicídio, acidente vascular cerebral (AVC)
Reatividade atenuada – alternativas:
• Expressa-se através de comportamentos agressivos leves. Ex. agressão verbal (debate acalorado)
• Expressa-se através de comportamentos agressivos médios. Ex. agressão física (luta)
Reatividade deslocada - alternativas:
• Expressa-se através de comportamentos substitutos. Ex. chutar um gato, ao invés de agredir o chefe.
Reatividade sublimada - alternativas:
• Expressa-se através de comportamentos sublimados. Ex. o cirurgião corta os tecidos ao invés de esfaquear.

É necessário praticar a destrutividade para podermos passar para a fase seguinte - a construtividade. Essa passagem se dá na fase infantil quando se inicia a socialização dos instintos. É comum o bebê morder o seio da mãe durante a amamentação. Crianças pequenas costumam morder ou bater nos menores, quebrar brinquedos ou objetos. Brigas entre crianças são aprendizagens que ajudam a desenvolver a autodefesa e a socialização, se forem compreendidas pelos adultos como matéria-prima de aprendizagem social.




CAPÍTULO II
O Comportamento violento

O verdadeiro comportamento violento só ocorre em seres humanos que convivem de forma desequilibrada ou em animais sob indução ou adestramento.

Um aparente comportamento violento entre os animais se dá em circunstancias antinaturais ou sob situações em que o instinto determina uma exacerbação do comportamento. Citemos alguns desses casos:
• Animais famintos, feridos ou presos durante longo tempo (condições estressantes).
• Animais afetados por doenças (hidrofobia) ou sob efeito de substâncias neurotóxicas (intoxicação)
• Animais com prole em desenvolvimento (fêmea protegendo os filhotes)
• Animais acuados sob forte ameaça física (autodefesa)

Nessas mesmas condições os seres humanos podem reagir instintivamente, pois ainda estão preservadas suas respostas instintuais primárias. Para que um comportamento seja considerado verdadeiramente violento são necessárias, entre outras, algumas condições:
• Capacidade de planejar e calcular conscientemente (racionalidade)
• Capacidade de avaliar as conseqüências (discernimento)
• Capacidade de julgar eticamente o resultado (consciência ética)
• Capacidade de associar idéias (associação)
• Capacidade de memorização para fatos antigos (memória retrógrada, experiência).
• Capacidade de compreender situações sutis (inteligência, capacidade de abstração).

Essas, entre outras, habilidades especiais de pensar e agir são atributos existentes apenas nos seres humanos, que podem gerar violência sem a utilização de respostas instintuais primárias. Essa condição confere ao homem a possibilidade de uso de comportamentos alterados (reativos). Como exemplo teríamos: sadismo, crueldade, perversão, maquiavelismo, etc. O comportamento violento nos seres humanos só ocorre em situações em que o cérebro encontra-se saturado e a mente torna-se perigosamente reativa. Para compreendermos melhor isso torna-se necessário saber como o cérebro funciona.

O Cérebro humano

Se for entendido como um sistema computacional, o cérebro pode ser visto estruturalmente como uma complexa central de processadores, interligados através de centros especiais de processamento de dados (informações), com capacidade de responder a diferentes tipos de estímulos, gerar estímulos (sinais) e induzir a resultados.

Todo sistema que produz trabalho é movido por energia e produz energia; o cérebro também é mobilizado por energia e, após processá-la, induz a trabalho físico e energético (programas). Sabemos também que energia e massa (matéria) são passíveis de conversão recíproca sob certas condições. Nessas condições o cérebro distribui energia (a partir da matéria) em forma de descargas (pulsos eletroquímicos), correspondentes às necessidades do trabalho e de suas características (função). Esse trabalho tanto pode expressar-se de uma forma real (coordenação motora, locomoção) como pode assumir forma virtual (imaginação, pensamento lógico).

Podemos admitir o psiquismo como função do cérebro, atuando como um possante sistema operacional que abriga um conjunto de programas inteligentes (afetividade, sexualidade, sociabilidade, habilidades, etc.) interligados por um circuito neuronal integrado, com possibilidade de desenvolver-se e de alternar e alterar essas ligações. Com uma configuração administrada pelas aprendizagens pessoais, familiares e culturais. Possui razoável capacidade de moldar essas configurações de acordo com diferentes situações novas (adaptação), operando numa velocidade incrivelmente fantástica (pensamento, reflexos).

As funções cerebrais estão dirigidas para duas direções fundamentais: uma interna e outra externa. A interna está orientada para duas outras, uma que cuida da integração do corpo (vida vegetativa) e uma auto-reguladora do próprio cérebro (auto-regulação psíquica) que funciona como “controle e manutenção” do equilíbrio mental. A externa está dedicada às situações que acontecem no meio ambiente (vida de relação). Essas funções se refletem mutuamente, permitindo a comunicação interfaces e proporcionando uma sensação global (estado consciente).

O cérebro parece possuir um mecanismo de defesa semelhante ao do corpo (sistema imunológico). Ele seria o responsável em manter, mesmo em estados graves, um registro de segurança (“backup”) da configuração mental sadia. Uma espécie de arquivo anterior ao processo de instabilidade mental, que o faz reconhecer de novo a condição de equilíbrio antes existente. Como nos “softwares”, onde é possível recuperar arquivos após uma instabilidade no sistema, a mente também se reabilita de situações traumáticas. Falaremos mais sobre isso no capítulo “Psicose e sanidade”.

A mente é capaz de guardar registros cerebrais complexos (engramas) de experiências agradáveis ou desagradáveis, carregadas de energia. O engrama é um arquivo multimídia complexo composto de informações de várias naturezas (imagem, som, sabor, odor, textura, etc.) captado pelos órgãos dos sentidos ou imaginado pela criatividade e armazenado na memória. Após serem processados por centros superiores, esses blocos de informações, relacionados entre si, servem como suporte para novas experiências. Esta capacidade possibilita o armazenamento das informações no cérebro como se ele funcionasse como um banco de dados relacional avançado, permitindo o uso variado e estratégico dessas informações através de mecanismos de busca (memória) ou dedutivo-associativos (raciocínio, inteligência). Essas experiências geralmente estão impregnadas de cargas diferentes de energia especial (emoções) que lhe conferem qualidade e força.

Quando as experiências são agradáveis, se associam a emoções de alta qualidade, como solidariedade e altruísmo, provocando o surgimento de “impulsos ativos” (sinais ativos) que se acumulam no plano inconsciente do psiquismo determinando um caráter construtivo do comportamento individual, que conhecemos com o nome de Comportamento Ativo. Quando as experiências são desagradáveis, se associam a emoções de baixa qualidade, como ressentimento e vingança, provocando o surgimento de “impulsos reativos” (sinais reativos). Os impulsos reativos são impulsos represados que se acumulam no plano inconsciente do psiquismo determinando um caráter destrutivo do comportamento individual, que determina uma agressividade facilmente aflorável, e que conhecemos como: “nervosismo”, temperamento agressivo, neurastenia ou recalque. O represamento ocorre porque um “grupo de informações especiais” (bom senso) indica que a liberação desses impulsos pode causar instabilidade no sistema (psiquismo – culpa) e na rede (família, cultura – conflito).

O psiquismo é capaz de manter represados esses sinais reativos (tensão, “stress”) até determinado limite. Ultrapassado esse limite começam a surgir alterações no organismo (físicas e/ou psíquicas) que se manifestam de diferentes formas. Os mecanismos que controlam as direções que essas energias tensionais tomam, para livrar-se do acúmulo, evitando transtornos mais graves, ainda não são suficientemente conhecidos. Os resultados podem aparecer sob forma de:

• Manifestações físicas ou somatismos (diarréia, queda de cabelos, úlcera, espasmos musculares, etc).
• Manifestações funcionais ou disfunções (dor de cabeça, mal estar, taquicardia, dispnéia, insônia, etc).
• Manifestações psíquicas ou emocionais (ansiedade, depressão, angústia, idéias de suicídio, etc).
• Manifestações alteradas do comportamento ou comportamentos reativos (isolamento, agressões, sado-masoquismo, homossexualismo, transgressões).

No início da formação reativa essas manifestações dificilmente são percebidas, produzindo apenas sensações de mal estar. Quando passam para o corpo determinam o aparecimento de sintomas ou sinais e, quando aumentam, podem produzir lesões físicas, de difícil diagnóstico, pois geralmente não estão associadas a agentes específicos (bactérias, vírus, substâncias tóxicas, etc.) causadores de doenças comuns; ou podem alterar a estabilidade psíquica, produzindo alterações do comportamento, leves ou graves; quando graves, são conhecidas como doenças mentais (comportamento reativo grave). Esses mecanismos determinam a origem daquilo que chamamos de doenças psicossomáticas e psicoses.

Os comportamentos reativos (represamento de tensão, “stress”) também extravasam através de expressões do comportamento, como as condutas ansiosas, comumente observadas no dia-a-dia em pessoas:
• Que falam excessivamente (verborragia)
• Que comem excessivamente (bulimia)
• Que mentem excessivamente (mitomania)
• Que roubam compulsivamente (cleptomania), etc.

Todo excesso de energia tensional armazenada (nódulos reativos) possui uma tendência de se descarregar em qualquer direção (para o comportamento ou para dentro do corpo) com a finalidade de reequilibrar o organismo. Essa direção da descarga reativa se dá pela capacidade, maior ou menor, de cada indivíduo em conter (reprimir) ou expressar (descarregar) essas tensões. Podemos concluir então que o modo de vida de uma pessoa em seu grupo social é determinado pela cultura do grupo, que forma os hábitos e costumes circulantes (sentimentos, princípios e valores), que moldam os comportamentos, que originam a qualidade da convivência, que promovem o bem-estar ou mal-estar, que facilitam o equilíbrio ou o desequilíbrio psíquico e orgânico de cada um, e que promove a união (harmonia) ou reatividade (conflito) entre os membros no grupo.

Percepção e convenção

Nós formamos uma consciência do mundo através das percepções e das convenções advindas das informações e aprendizagens que a Cultura nos fornece. Cada Cultura denomina e cria conceitos os mais diversos para diferentes objetos, fatos e situações da realidade. Classificamos e conceituamos a maioria das coisas para facilitar nossa compreensão e permitir as ações. Percebemos e convencionamos para compreender e agir. Vivemos no mundo das representações mentais (engramas) às quais adicionamos emoção para formar registro (percepção) e armazenamento (memorização). A realidade, para nós, varia segundo nosso modo de interpretar o mundo segundo a emoção e sentimento que ocorre naquele momento.

Um fato curioso de observar é que o cérebro parece não armazenar informações de pouca importância, para não ocupar espaço desnecessariamente. É possível que exista um processo de “emotização” (informação impregnada de emoção) que organizaria as informações em blocos seqüenciais de relevância gradativa, com variações de intensidade emocional, ou seja, aquilo que nos parecesse mais importante formaria registros permanentes. As informações mais usadas seriam reforçadas também pelo uso freqüente. O armazenamento poderia ser feito por um mecanismo onde essas informações permaneceriam compactadas até serem solicitadas pela memória, quando se expandiriam para facilitar a lembrança. A percepção, assim como a formação dos mecanismos de compreensão, parece funcionar com incrível rapidez, passando por complexos filtros de avaliação.

Um exemplo simples de entender é o de uma criança de três anos que vê o rosto de sua mãe e pergunta: - Por que você está triste? (ela está triste por ter brigado com o marido). Ficamos admirados com a percepção da criança que conseguiu detectar o sentimento sem que a mãe tivesse dito qualquer palavra. Na verdade essa criança já viu sua mãe em diferentes circunstâncias que se expressam pelo rosto. E guardou (arquivou) essas imagens visuais na memória de forma seqüencial como os fotogramas de um vídeo. Cada fotograma é um conjunto de dados que identifica um grau de sentimento, que vai do mais leve até o choro. Comparando os diferentes fotogramas essa criança saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo:




Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.) transmitem informações específicas, de cada órgão dos sentidos, para centros superiores no cérebro que as decodificam. Elas, após processadas, se associam e formam um bloco (engrama) que possui significado lógico (ou impreciso, dúvida) e que nos transmite propriedade qualitativa (bom/ruim, quente/frio, prazer/dor, certo/errado, etc.). Direcionamos nossas respostas (atos) guiados por módulos mentais, fortemente influenciados pelos hábitos e costumes do grupo ao qual pertencemos.

Esse processamento é na maioria das vezes automático, pois já aprendemos, individualmente e com o grupo, qual o molde que deve formar o resultado das respostas. Mesmo assim, criamos novas respostas e testamos a aceitação do grupo em relação a elas. Ás vezes transgredimos as normas para testar a reação do grupo ou porque nos tornamos reativos e precisamos descarregar tensões acumuladas.

As leis ou regras grupais são testadas freqüentemente pelos indivíduos para obter “feed-back” sobre a direção a ser seguida ou mudança a ser efetuada. Nossas insatisfações pessoais, manifestadas para o grupo com excessiva freqüência e de forma explosiva, podem causar distúrbios no equilíbrio geral, mudar radicalmente a direção das normas grupais ou o modo de nos comportarmos.

Quando o número de indivíduos do grupo cresce exageradamente, surge a tendência da formação de subgrupos dentro do grupo. Esses subgrupos, pela proximidade de seus membros e pela afinidade entre eles, tende a criar autonomia e pode formar um universo próprio, com conceitos, interesses e comportamentos divergentes do grupo maior. Essa diferenciação pode resultar em áreas de atrito com o grupo maior, que pode ocasionar uma cisão e resultar na formação de um novo grupo independente ou divergente. Isso nos mostra que os grupos possuem um limite de crescimento e complexidade, podendo dividir-se em vários grupos. Esse é um fenômeno natural na dinâmica da formação e interação de grupos.


Comportamento Humano - Ativo e Reativo


Chamamos de modelo cultural de um grupo ao conjunto de sentimentos, princípios e valores priorizados pelos membros do grupo social. Esse conjunto, na convivência, resulta na formação de hábitos e costumes que, pelo uso continuado, cria as normas e regras de convívio tradicional do grupo.

O homem, por ser um animal social, depende do seu grupo. A família, como grupo social original, cumpre a função de modelar o indivíduo para a sua futura inserção no grupo social maior (sociedade) e, ao mesmo tempo, é influenciada pelo grupo social maior. Essa modelagem, sendo função natural e construtiva - permite a sobrevivência do grupo e do indivíduo – interage por meio de comportamentos ativos (convivência ativa). Pode também ser reativa e funcionar em sentido oposto, através de comportamentos reativos (convivência reativa)

Dizemos que uma sociedade é antropocêntrica quando situa a figura humana (e sua convivência) no centro dos interesses do grupo. O resultado desse tipo de organização é a formação das sociedades naturais, onde a solidariedade e o respeito pelas normas fortalecem a coesão do grupo. Da mesma forma chamamos de ergocêntrica a uma sociedade que situa o trabalho (e os bens produzidos por ele) no centro dos interesses do grupo, onde a competição excessiva entre seus membros e o desrespeito pelas normas enfraquece a coesão do grupo. No primeiro caso é valorizado o coletivismo, isto é, o bem-estar dos membros do grupo; no segundo, é valorizado o individualismo, isto é, o bem-estar individual dentro do grupo. O resultado desse último tipo de organização é a formação das sociedades de classes e da competição destrutiva entre seus membros.

A violência, alguns tipos de doenças, conflitos, desvios de caráter e de comportamento e mal-estar geral numa sociedade em desequilíbrio geram e, ao mesmo tempo, são o resultado de comportamentos reativos de seus membros que convivem reativamente, determinando mais comportamentos violentos. Denominamos essas sociedades de “sociedades civilizadas”. Uma das características das sociedades civilizadas é a valorização excessivamente materialista de conceitos como:
• Produção e produtividade
• Propriedade individual
• Desenvolvimento científico e tecnológico
• Poder (pessoal, político, econômico).

Organizadas dessa forma, as sociedades civilizadas valorizam as aquisições individuais em detrimento das aquisições coletivas, isto é, posicionam a figura humana num grau de importância abaixo das aquisições materiais, espirituais e ecológicas. O resultado da estratificação dessas sociedades, onde as classes que a compõe são medidas por sua capacidade em adquirir bens produzidos (poder aquisitivo), possuir propriedades (territorialismo), conhecimento científico e tecnológico (cientificismo, apropriação pelas patentes) e deter controle político (controle das decisões centralizado em pequenos grupos) promove e estimula a competitividade. A importância de um indivíduo nessas sociedades depende da sua capacidade de competir com outros indivíduos (pragmatismo materialista) e do quanto consegue reter de bens, poder e riquezas. A não distribuição proporcional - dos bens produzidos pelo grupo e das oportunidades de ocupar um papel social (identidade social) - resulta no que chamamos de anomalias da interação social. A ocorrência desses fenômenos gera desequilíbrios na sociedade civilizada, onde os indivíduos podem se situar em pontos extremos de importância social, dando origem a comportamentos reativos.




Vimos que uma sociedade antropocêntrica gera naturalmente comportamentos ativos nos indivíduos, enquanto uma sociedade ergocêntrica produz comportamentos reativos. Vamos agora definir esses dois conceitos com base em comportamentos que se refletem em atividades humanas:

Comportamento Ativo: é todo comportamento humano positivo e construtivo, que produz apenas harmonia e equilíbrio interno (no psiquismo) e externo (na família e no ambiente) e que contém altos níveis de sentimentos, princípios e valores saudáveis nas pessoa que o expressam. Ex. A invenção da vacina contra a paralisia infantil por Albert Sabin e sua equipe de pesquisas.
Comportamento Reativo: é todo comportamento humano negativo e destrutivo, que produz apenas desarmonia e desequilíbrio interno (no psiquismo) e externo (no ambiente e na família) e que contém baixos níveis de sentimentos, princípios e valores nas pessoa que o expressam. Ex. O tráfico de drogas.

Enquanto os comportamentos ativos estimulam a solidariedade promovendo a coesão do grupo e o bem-estar individual (atividade), os comportamentos reativos atuam no sentido contrário produzindo mal-estar (reatividade). Não é demais ressaltar que entre os membros que trabalham na pesquisa de uma vacina (bem coletivo), a ocorrência de conflitos e atos destrutivos é bem menor do que nos que atuam numa atividade de tráfico de drogas (lucro individual) dentro da mesma sociedade. A diferença está nos agentes mobilizadores (sentimentos, princípios e valores) dos membros de cada grupo e na natureza construtiva ou destrutiva da atividade.

O comportamento reativo humano pode levar a diferentes graus de intensidade na alteração do estado de consciência. O grau de alteração torna-se diretamente proporcional ao acúmulo de impulsos agressivos represados (carga reativa). O comportamento reativo é, portanto, o elemento gerador das violências e desvios que conhecemos no dia-a-dia (guerras, doenças psico-sócio-somáticas, autoritarismo, assaltos, seqüestros, etc.). É provável que sejam produzidos pelas diferenças desproporcionais, na capacidade de sobreviver e de expressar-se, entre os membros da sociedade que chamamos de “civilizada”. Visto numa tabela seria assim:


     Comportamento Reativo                               Psiquismo                                      Resultado



Leve alterações leves Pequenos distúrbios do comportamento, dificuldades de aprendizagem, agressividade aumentada, períodos de isolamento, etc.
Médio alterações aumentadas Uso de drogas, doenças psicossomáticas, depressões, furtos, fugas de casa, dificuldades de relacionamento.
Grave sinais de desorganização psíquica Delitos contra a vida e contra o patrimônio, tentativas de homicídio e suicídio, neuroses graves e crises psicóticas.
Instalado distúrbios graves do psiquismo Psicoses, homicídios, suicídios, crimes hediondos.

Existe uma tendência muita arraigada, sobretudo entre médicos, de procurar a causa das doenças apenas através de fatores físicos, químicos e biológicos. Os mecanismos que integram o psiquismo ao corpo também são capazes de produzir disfunções e lesões físicas. Além disso, simulam, através de sinais e sintomas, doenças que são produzidas por fatores que normalmente produzem alterações físicas. Os mecanismos produtores de doenças físicas tanto podem ser originados por agentes naturais (vírus, bactéria, exposição excessiva a raios ultravioletas, etc.) como também por tensões reativas internas, geradas no psiquismo e dirigidas para o corpo (somatismos). Essas tensões reativas podem interferir nos sistemas reguladores do organismo (termoregulação, ritmo cardíaco, ritmo respiratório, secreções glandulares, etc.), produzir lesões (tumorações, úlceras) e simular condições fisiológicas naturais (cefaléia, vômitos, diarréia, gravidez psicológica, etc).

Não é correto avaliar separadamente os mecanismos fisiológicos dos psicológicos, porque ambos se manifestam no corpo e na mente; nem, tampouco, os comportamentos das doenças, nos indivíduos dentro de uma cultura. Os sistemas dinâmicos de um organismo e de uma sociedade estão irremediavelmente interligados. A perda de um parente, por exemplo, pode ocasionar sérios distúrbios emocionais e fisiológicos nos membros do grupo. Cada vez ficam mais claras suas funções interagentes. Ambos possuem a função essencial de zelar pela integração entre as partes (fisiológicas e psicológicas) representadas pelo corpo e pela mente, refletindo os desvios (sinais e sintomas) ora para o corpo, ora para o comportamento, na busca do equilíbrio natural do corpo (saúde) e da sociedade (convivência). As alterações no corpo ou na mente de um indivíduo, muitas vezes, podem estar espelhando as insatisfações, o mal estar e a inadaptação às condições hostis do meio familiar e social. Os exemplos mais dramáticos estão representados pelo homicídio e suicídio, ambos ocasionados por fortes tensões produzidas na convivência e refletidas para o ambiente sociofamiliar, e daí para o indivíduo que as manifesta em condutas reativas, fechando o ciclo.

Comportamento: organização e desvios


Mecanismos naturais e reativos

Para compreendermos a existência de comportamentos observados nas sociedades civilizadas, torna-se necessário compará-los com comportamentos existentes nas comunidades naturais, ou seja, comparar comportamentos entre duas sociedades humanas organizadas sob parâmetros políticos, econômicos, sociais e religiosos diferentes. Partimos da premissa de que “estímulos diferentes podem gerar comportamentos diferentes”. Já vimos que os principais fatores mobilizadores do comportamento geral são: sentimentos, princípios e valores; que ao circularem com freqüência num grupo, acabam determinado seus hábitos e costumes. Que hábitos e costumes são modos de viver e conviver que mobilizam um grupo cultural.

Esquematicamente poderia ser assim:

                      Individual                                                                                       convivência social



Vimos também que sentimentos, princípios e valores possuem qualidades tão diferentes que podem originar comportamentos construtivos ou destrutivos, variando com o bem estar ou mal estar individual na relação, dentro do grupo, entre grupos, e com o ambiente físico (natureza). O cérebro é capaz de guardar registros cerebrais complexos (engramas) de experiências agradáveis ou desagradáveis, carregadas de energia (pulsos eletroquímicos). Essa capacidade possibilita o armazenamento das informações no cérebro como se ele funcionasse como um banco de dados relacional avançado, permitindo o uso estratégico dessas informações. Essas experiências impregnadas de cargas diferentes de energia especial (emoções) lhe conferem qualidade e força. Quando as experiências são agradáveis, se associam a emoções de alta qualidade (+), como solidariedade e altruísmo, provocando o surgimento de “impulsos ativos”.



^ +^ + ^+^ +^+^+^  = Comportamento Ativo


Quando as experiências são desagradáveis, se associam a emoções de baixa qualidade (-), como ressentimento e vingança, provocando o surgimento de “impulsos reativos” (nódulos reativos), impulsos represados que se acumulam no plano inconsciente do psiquismo determinando um caráter destrutivo do comportamento individual.


# -# - # - # - # - # - # - # = Comportamento Reativo



O represamento ocorre porque um “grupo de informações especiais” na mente (bom senso), indica que a liberação desses impulsos pode causar instabilidade no sistema (psiquismo – culpa) e na rede (família, cultura – conflito).



O cérebro é capaz de represar, até determinado limite, os pulsos eletroquímicos não descarregados, armazenando “cargas de energia condensadas” (nódulos reativos) ocasionando tensão, “stress”. Ultrapassado esse limite essas cargas começam a provocar instabilidade geral e podem surgir alterações físicas e/ou psíquicas que se manifestam de diferentes formas. Os mecanismos que controlam as direções que essas energias tensionais tomam para livrar-se do acúmulo, evitando transtornos mais graves, ainda não são suficientemente conhecidos. Todo excesso de energia tensional (nódulos reativos) possui uma tendência de se descarregar em qualquer direção (para fora ou para dentro do corpo) com a finalidade de reequilibrar o organismo. Essa direção da descarga reativa se dá pela capacidade, maior ou menor, de cada indivíduo em conter (reprimir) ou expressar (descarregar) essas tensões.


Podemos concluir então que o modo de vida de uma pessoa em seu grupo social é determinado pela cultura do grupo, que forma os hábitos e costumes circulantes (sentimentos, princípios e valores), que determinam os comportamentos, que originam a qualidade da convivência, que promovem o bem-estar ou mal-estar, que facilitam o equilíbrio ou o desequilíbrio psíquico e orgânico de cada um, e que podem colaborar para a união (harmonia) ou reatividade (conflito) entre os membros no grupo.





CAPÍTULO III
Bando, agrupamento e Cultura


Sobrevivência e convivência


Todo ser vivo, para se compor de forma estável, necessita de três dimensões que o integrem no plano vital. São eles:
• Continente (ambiente)
• A associação (bando, agrupamento, grupo cultural)
• Indivíduo (constituição física, neural, mental)

Assim como o cérebro precisa funcionar como um sistema integrado e estável para não acumular tensões excessivas e não gerar comportamentos reativos, as associações humanas, para funcionarem de modo adequado, necessitam organizar-se também como um sistema estável. Um sistema social pode ser compreendido como um conjunto, cujas partes (sub-sistemas) se orientam para funções específicas essenciais à manutenção do equilíbrio do convívio. As características físicas, psicológicas, econômicas, religiosas e políticas são sub-sistemas que configuram o sistema (modelo) cultural de cada grupo humano.

O modelo cultural só se mantém em equilíbrio quando consegue suprir as necessidades básicas de todos os indivíduos que a ele pertencem, integrando-os no sistema. Por essa razão, a existência de normas ou regras de comportamento dos indivíduos é essencial. A liberdade individual é um direito natural de cada membro, porém seu limite se inicia onde começam os direitos e interesses dos outros membros do conjunto grupal. Em outras palavras, dizemos que o discernimento de cada membro necessita perceber tanto a existência dos seus direitos como a exigência dos seus deveres em relação ao conjunto. Esse bom senso facilita a vida em grupo.

As insatisfações e, conseqüentemente, os comportamentos reativos tendem a aumentar, quando essa distribuição de direitos e oportunidades torna-se desproporcional entre os indivíduos.

O Bando


O sistema de agrupamento mais arcaico que se conhece é o bando. Alguns animais sempre formaram bandos, tipo de associação que facilita a segurança, a alimentação, a reprodução e outras necessidades essenciais dos membros. O bando facilita a vida da espécie, mas é um sistema rudimentar que não consegue viabilizar funções mais especializadas entre os indivíduos, como as manifestações artísticas e religiosas; portanto esse tipo de associação não comporta o surgimento de Modelos Culturais. Essa forma de associar-se é determinada pelo instinto (gregário), gerenciado por uma camada mais arcaica do cérebro (paleoencéfalo), dirigido para funções de sobrevivência e reprodução. Para sobreviver em grupo são necessárias algumas condições fundamentais:

• Ser da mesma espécie (compatibilidade genética)
• Espaço vital (território)
• Alimento (subsistência)
• Regras mínimas de convivência (modos de organização social e política)

Os primeiros primatas que originaram os Hominídeos (formas evolutivas do homem) viviam em bandos. É provável que essas formas de associação tenham evoluído, na medida em que cresciam as exigências dos indivíduos no grupo, e ao mesmo tempo em que ocorria uma especialização cerebral. Dessa especialização decorreu um desenvolvimento técnico primitivo com o uso do fogo, da escrita e da confecção de ferramentas rudimentares que facilitaram as estratégias de sobrevivência.

A organização dos bandos parece possuir estrutura simplificada e é fundamentalmente instintual, voltada para dois objetivos principais: a sobrevivência e a reprodução. Sabemos, porém, que primatas mais evoluídos, como gorilas e chimpanzés também possuem cultura rudimentar, onde, através de sons e gestos, são compreendidas as regras de organização do grupo.

A Cultura


O sistema de associação animal mais avançado que se conhece é a Cultura. Cada Cultura constrói um modelo próprio e diferente em alguns aspectos, que é o que determina uma Identidade de grupo (Modelo cultural). Enquanto os animais formam bandos os homens formam grupos culturais que também facilitam a segurança, a alimentação, a reprodução e outras necessidades essenciais dos indivíduos. O grupo cultural facilita a vida da espécie e é um sistema avançado que consegue viabilizar funções mais especializadas entre os indivíduos, como as manifestações tecnológicas, artísticas e religiosas; portanto esse tipo de associação comporta o surgimento de Modelos Culturais. Essa forma de associar-se é determinada não só pelos instintos, mas resulta de processamento especializado, gerenciado por uma camada mais alta do cérebro (neoencéfalo, córtex), dirigida para uma função de interação complexa – Vida social ou Convivência humana.

Dissemos antes que o eixo dinâmico dos mecanismos da Natureza é a Interação! Dissemos também que o eixo central dos mecanismos interativos dentro de um grupo humano é o comportamento social. Se aceitarmos essas hipóteses, teremos de aceitar que, o que chamamos de Convivência, é o conjunto de comportamentos consensualmente aceitos dentro de um grupo humano. Quando admitimos que a organização dos bandos possui estrutura simplificada e é fundamentalmente instintual, voltada para os objetivos da sobrevivência e da reprodução, estamos querendo dizer que os estímulos motivadores dos comportamentos dos membros do bando possuem objetivos determinados: comer e reproduzir.

Em contrapartida, os objetivos determinados pelas culturas são tão diversos que seria difícil identificar todos. Afirmamos no início que o Eixo Cultural é o conjunto de regras, hábitos e costumes que mantém a qualidade dos comportamentos, a coesão e harmonia no grupo e no ambiente, isto é, sua estabilidade. Ora, se a organização dos bandos possui estrutura simplificada e, se o estímulo motivador das atividades dos membros do bando, possui objetivos determinados (comer e reproduzir), quais serão os estímulos motivadores em uma Cultura?

Vamos começar lembrando que uma cultura humana resulta da complexa interação entre diferentes comportamentos individuais. Que cada indivíduo é um “sistema pensante” único e que não visa apenas a sobrevivência e a reprodução. Todo indivíduo possui seus próprios interesses individuais, mas não perde a consciência de pertencer ao grupo. A associação em grupos determina não só a defesa dos próprios interesses, porque esses interesses podem coincidir ou divergir dos interesses dos outros membros do grupo.

Podemos usar termos como: “espírito de grupo”, “vontade grupal”, “inconsciente coletivo”, e tantos outros, para denominar uma direção, crença, ideologia, vontade ou desejo de grande parte dos membros de um grupo. Um indivíduo não vive sem esses atributos particularmente humanos. Todos vivemos de projetos, sonhos, crenças e desejos. O mundo mental é virtual. A imaginação cria, e a vontade ou impulso (inconsciente) executa a maior parte dos nossos comportamentos. Temos que nos associar para conseguir alcançar o que não conseguiríamos atingir nunca, sozinhos. Essas características humanas criam uma dinâmica muito complexa dentro dos grupos.

Os estímulos motivadores dos comportamentos dentro de uma Cultura são inúmeros, porém o Eixo Cultural poderia ser compreendido como uma fusão de consensos dos membros de um grupo, algo que poderíamos chamar de Normas do Grupo ou Tradição Grupal. Essa tradição estaria representando a síntese de tudo àquilo que esse grupo acredita; sua alma, sua doutrina de vida, sua própria “identidade em grupo”. Estaríamos diante daquilo que resultaria num Modelo Cultural. Apenas as sociedades que conseguem conviver em equilíbrio (entre seus membros e com a Natureza) possuem Modelo Cultural. Não existe cultura civilizada, cultura brasileira, cultura alemã ou outra qualquer abstração que não funcione no “aqui e agora” da realidade. Um modelo cultural não se representa apenas como unidade lingüística, econômica, religiosa ou política. Deve, antes de tudo, possuir características de integração e estabilidade entre os membros e com seu suporte físico (ambiente). Acervo cultural sem eixo cultural integrado não é Cultura, é agrupamento. Reatividade individual e desequilíbrio social são fenômenos interligados que compõe um só quadro.

Lembrar sempre que o Homem não é criador e nem organizador da Natureza (Biosfera), e que é apenas uma pequena parte constituinte dela, pode se tornar útil para sobreviver no mundo real.

Modelo Cultural, Etnocentrismo e Racismo


Um dos estímulos motivadores do comportamento dentro de um grupo humano é conhecido como etnocentrismo. Esse estímulo interno possui função integradora no grupo, uma espécie de auto-estima grupal, uma forma de identificar cada indivíduo como parte do todo; uma força que imprime no cérebro e que diz a esse indivíduo que o seu grupo é o melhor grupo entre todos os outros. O etnocentrismo cria no indivíduo uma tendência de sentir e pensar sua cultura como referencial absoluto para todas as outras culturas. Essa tendência sustenta uma “verdade cultural” aceita em consenso. Enquanto ocorre em culturas não-reativas, funciona como cimento social entre indivíduos e destes com o território (a terra como berço dos ancestrais). É impressionante, porém, a diferenciação existente nas culturas naturais, que aceita o princípio da diversidade apenas parcialmente, isto é, para elementos não-humanos do ambiente extra grupal (floresta, animais, território) e o modifica para grupos humanos dessemelhantes de sua cultura mantendo, porém, um certo grau de aceitabilidade, uma espécie de relação não confiável.

Nas sociedades reativas (civilizadas) o etnocentrismo pode produzir desvios de comportamento social, quando assume formas exacerbadas (nacionalismo, fanatismo, racismo). As insatisfações de toda ordem (reatividade) existentes nos indivíduo dessas sociedades transfiguram esse fenômeno natural, produzindo uma etnofobia, que pode originar movimentos como anti-semitismo, terrorismo, nazi-fascismo, etc.

O conceito de Modelo Cultural (cultura humana) não está obrigatoriamente associado a idéias como: quantidade de pessoas, tecnologia avançada e conhecimento científico. É mais sensato pensar que se associe a: equilíbrio social, identidade de grupo e qualidade de convivência, fatores esses que determinam o futuro da existência de um grupo e o seu grau de satisfação. Para que um grupo humano consiga manter-se em equilíbrio e manter sua evolução, são necessárias algumas condições:

• Possuir Modelo Cultural (inclui sintonia com o ambiente)
• Ser numericamente reduzido (possibilidade de interação entre todos os membros)
• Possuir território suficiente para sobreviver
• Possibilidade de intercâmbio com outros grupos humanos culturalmente equilibrados
• Não incorporar costumes e hábitos estranhos ao grupo
• Não permitir estratificação de classes desproporcionalmente desiguais (classes sociais polarizadas)
• Não permitir formação de poder político excessivamente centralizado (instituições políticas coercivas)
• Não permitir formação de instituições religiosas estranhas aos costumes do grupo (religiosidade alienante)
• Não permitir formação de privilégios econômicos (sobrevivência)
• Formação de instituição familiar articulada ao grupo (família extensa e clã)
• Posicionamento da figura humana como “centro” na organização grupal (humanização da ideologia grupal)
• Evitar qualquer mecanismo que promova diferenças excessivas entre os membros (identidade social)
• Manter a Tradição (eixo cultural)

Em outras palavras, uma cultura é um organismo que tem vida própria. Grupos humanos que não conseguem equilíbrio interno (mental) nem externo (social) não são culturas, nem possuem modelo cultural. Chamamos a essas tentativas de organização humana de “agrupamentos”, bem representados pelas sociedades civilizadas. Mas fica a pergunta: o que determinou o desequilíbrio de muitos grupos humanos, enquanto outros conseguiram manter-se estáveis, continuar existindo e evoluindo como entidades culturalmente autônomas?

O AGRUPAMENTO


O agrupamento é uma forma de associação humana que enfraqueceu ou perdeu sua identidade cultural, suas tradições (hábitos e costumes) e substituiu o consenso grupal por formas de organização social não-integradas e estimuladas pela competição entre seus membros.
O agrupamento humano, forma de associação sem modelo cultural, surgiu com o advento da Civilização, e tem provocado sensíveis alterações na convivência. A forma organizacional dessas associações desestruturou as relações humanas de grupo coletivo, criando aspirações individuais de conteúdo materialista. Vejamos algumas características dessa forma de associação:




• A proliferação excessiva de subgrupos (impossibilidade de interação entre todos os membros)
• Interesses e funções desarticuladas nos subgrupos (individualismo)
• Estratificação por importância social no agrupamento (formação de classes sociais)
• Território mal distribuído entre os membros para garantir a sobrevivência (propriedade individual/empresarial)
• Aversão e exploração no intercâmbio com outros grupos humanos culturalmente equilibrados (etnofobia)
• Incorporação de hábitos e costumes estranhos ao grupo com objetivo de lucro (moda, propaganda).
• Presença de mecanismos que permitem diferenças excessivas entre os membros (privilégios econômicos, sociais).
• Posicionamento da produção como “centro” na organização grupal (objetificação da ideologia grupal)
• Formação de poder político centralizador (instituições políticas desarticuladas do agrupamento)
• Formação em número excessivo de instituições religiosas (religiosidade polimorfa e comercial)
• Formação de família nuclear substituindo a família extensa e o clã (família desarticulada do agrupamento)
• Ausência de tradição de grupo (desmanche do eixo cultural)
• Ausência de Modelo Cultural (despersonalização da identidade grupal e perda da sintonia com o ambiente)

É preciso destacar as grandes diferenças entre bando, agrupamento e cultura, utilizando conceitos já vistos de Interação, integração e função. Veremos no quadro abaixo algumas dessas diferenças:



Associação Interação Integração Atributos Função (meta) Resultado
Bando existente existente mobilização instintual sobrevivência/reprodução equilíbrio entre membros
Agrupamento existente precária mobilização reativa concorrência/reatividade desequilíbrio entre membros
Cultura existente existente mobilização ativa sobrevivência/convívio equilíbrio entre membros











Associação e dissociação (POLARIDADE VITAL)






Polaridade vital é apenas uma expressão convencional que nos ajuda a compreender a flexibilidade e direcionalidade das relações na Vida. O bem e o mal, o preto e o branco, a estabilidade e a instabilidade são expressões dos pólos (extremos) em que fenômenos ocorrem. É também uma forma de dizer que o resultado depende da organização, qualidade e intensidade dos fatores (“a ordem dos fatores pode alterar o produto”).

Dissemos anteriormente que existem fatores associativos e dissociativos, isto é, que integram ou desintegram as relações vitais. Dissemos também que a capacidade que um grupo possui para manter a coesão intragrupal e ambiental (integração) é determinada pelo nível de satisfação dos membros do grupo, ou seja, na possibilidade de convivência expressiva e capacidade de sobreviver. A interpolação de uma condição para a outra pode determinar resultados diferentes:
INSTABILIDADE
ESTABILIDADE INSATISFAÇÃO SATISFAÇÃO

Significa dizer que a alternância dos fatores (mudanças) altera as condições em que se dá uma interação, ou seja, produz desvio no produto final.


A vida humana pode ser pensada, na interação, como se fosse constituída por três instâncias interligadas: o corpo (bio), a mente (psico) e o grupo (social). Podemos imaginar que cada parte se orienta para seus objetivos (funções), mas possuem meta comum.

Instância Função Vida individual e social





Se admitirmos também que cada instância possui certa autonomia de organização e características próprias, compreenderemos a importância dessa diversificação. Admitindo interpolar cada componente teríamos como resultados:



Se admitirmos o que foi exposto até agora teremos que admitir também que cada instância possui a propriedade de integrar-se com os outros componentes e formar um organismo (indivíduo) e uma organização de indivíduos (modelo cultural).
Esses desvios podem ser percebidos através de resultados conhecidos em diferentes áreas. Por exemplo:

Medicina: desvio de fatores reguladores da glicemia = diabetes
Psiquiatria: desvio de fatores reguladores do psiquismo = comportamento reativo dissociativo (esquizofrenia)
Antropologia: desvio de fatores reguladores do grupo = racismo



Como vimos, corpo, mente e social são planos qualitativamente distintos. Corpo é estrutura física; mente é organização virtual; social é dimensão onde corpo e mente podem se expressar. Comportamento é veículo que permite a interação no continente social. Anomalias da interação social (desvios) podem produzir no corpo: disfunções e doenças; no psiquismo: alterações do comportamento (comportamentos reativos); no social: alterações da convivência.

Cada plano pode manifestar resultados que são percebidos sob diferentes formas. Se pudéssemos representar cada plano com processos e resultados correspondentes á sua natureza, poderíamos imaginar suas relações como na tabela abaixo:

Plano Natureza do desvio Processo regulador Função (meta) Resultado do desvio
Corpo física, físico-química regulação fisiológica saúde física disfunção, doença
Mente programática, virtual regulação psíquica saúde mental comportamento alterado
Social relacional regulação cultural harmonia social convivência alterada





Por analogia, os mecanismos reguladores no plano inconsciente da mente (id, ego, superego) precisariam funcionar harmoniosamente para resultar em equilíbrio mental e gerar comportamentos ativos (socializados). Desvios nesse funcionamento, por conseqüência, estariam gerando comportamentos reativos. Como no modelo sugerido por Freud, o “id” estaria vinculado aos instintos; o “ego” ao individual; o “superego” ao plano social. No social cada indivíduo não deveria reprimir demasiadamente os instintos e nem liberá-los totalmente.

Representando dessa forma as relações entre corpo, mente e social, o que chamamos de Esquizofrenia não seria doença; seria uma desorganização da integração mental, uma manifestação comportamental das alterações ocorridas nos processos de integração da mente. Seria um comportamento reativo dissociativo, reversível, desde que o meio sociofamiliar facilitasse essa reversão e desde que ficasse comprovada a ausência de fatores genéticos atuando na sua etiologia. De origem preponderantemente relacional (faltam provas convincentes de determinantes genéticos), essa dissociação mental provisória, necessitaria de estímulos do ambiente (familiar e social) para readaptar-se e voltar a funcionar sob os parâmetros da realidade. Mesmo admitindo a existência de fatores predisponentes de natureza genética, a dissociação mental não se manifestaria em meio sociofamiliar harmônico, pois uma convivência amena provavelmente impediria essa manifestação. Essa tese, já comprovada em consultório e em comunidades terapêuticas bem estruturadas, mostra que mudanças qualitativamente significativas no ambiente relacional, podem reduzir ou suprimir as manifestações dissociativas da mente.


Civilização e origem do conceito de Estado









Existem versões sobre a história da humanidade que se transformam em verdadeiros mitos, sobretudo quando são endossados por veículos de informação muito poderosos ou quando transmitidos, em escolas e universidades, como verdades científicas inquestionáveis. Nem sempre correspondem à verdade, porque a verdade é conceito humano, mutável pelas ideologias.

Todo grupo cultural naturalmente constituído, quando atinge determinado tamanho, se divide em dois grupos que se tornarão distintos e com características diferentes. O crescimento numérico, a diferenciação nas descobertas de utensílios e ferramentas, a migração, o conhecimento da produção de vegetais (agricultura), a domesticação de animais (atividades pastoris), a atividade comercial, e muitos outros fatores forçaram a expansão dos grupos e a especialização das atividades dentro de cada grupo. As atividades iniciais de caça e coleta – forma de subsistência dos pequenos grupos – foram substituídas pelas atividades agro-pastoris, aumentando a produção e estimulando as primeiras trocas comerciais. O homem deixou de ser nômade e passou a habitar em pequenas localidades fixas (aldeias), que se transformaram em cidades; a divisão do trabalho se tornou mais complexa e as primeiras experiências de civilização começaram a surgir há aproximadamente quarenta mil anos antes de Cristo.

O homem civilizado sempre achou que poderia organizar artificialmente grandes populações, por meio de estruturas centralizadoras, para defender certos interesses de classes. O resultado dessas idéias, sem qualquer fundamento lógico, sempre se mostrou falido diante das experiências históricas mal sucedidas de muitos povos antigos. Foram os gerzeanos, povo que habitava no Egito Infe¬rior, que alcançaram um grau elevado de perfeição técnica na época. Conheciam o cobre, o chumbo e a prata. Cultivavam oliveiras e cereais. Utilizavam uma escrita rudimentar, jogavam um jogo parecido com o de damas e inventaram uma espécie de calendário para auxili¬ar na agricultura. Foi entre eles que surgiu, na historia do homem, o primeiro Rei.

Após á cultura gerzeana, nota-se um firme de¬senvolvimento da civilização: crescendo demais, as aldeias se fizeram cidades autônomas, com os seus próprios funcionários; o uso do cobre e de outros metais se tornou mais freqüente; descobriu-se o torno do oleiro e, com o uso regular da escrita, a Historia da Civilização começou. Com a sucessão do desenvolvimento tecnológico e para defender interesses de enormes agrupamentos humanos foi engendrado o novo conceito de associação humana - a Civilização - e uma nova forma de coordená-la – o Estado. No início dessa evolução a organização do Estado Nacional passou por estágios intermediários.

A idéia de Estado pressupõe três condições:
• Um território delimitado
• Um agrupamento humano com hábitos e costumes semelhantes
• Um governo central com fortes poderes coercivos

O Estado é uma concepção abstrata criada pelo homem. É representado pelo conjunto das Instituições que tentam ordenar a vida política, econômica, legislativa e religiosa de um agrupamento humano. Na verdade é constituído por uma casta de pessoas (funcionários do Estado) que detém o poder do agrupamento (povo), através de procedimentos normativos (Instituições). Observando essa forma de organizar o poder, percebemos profundas anomalias estruturais e funcionais:

• Centralização das decisões nas mãos de um reduzido número de pessoas (poder minoritário)
• Superpoderes de poucos sobre a complexidade social (conhecimento precário sobre a realidade do agrupamento)
• Impossibilidade na prática, do conjunto social fiscalizar e inibir abusos de poder (impunidade).
• Desvios das agremiações políticas (partidos), quanto aos objetivos e necessidades do agrupamento (corrupção, fisiologismo).
• Remuneração privilegiada para funcionários do Estado e remuneração simbólica para a maioria do agrupamento (desproporcionalidade salarial)
• Processo lento de decidir, quase sempre desvinculado da verdade e da realidade do agrupamento (burocracia)

Não é nossa intenção desfiar todas as anomalias desse tipo de organização humana, porém temos certeza que esses comportamentos, partindo de exemplos das esferas mais altas, se disseminam por todo o corpo social, provocando alterações de conduta (comportamentos reativos) em todos os segmentos e classes sociais. Ora, nessas condições de interação social é impossível haver integração do todo social. Disso resulta o mais apavorante temor que um ser humano pode experimentar – a incerteza de garantir a sobrevivência, a liberdade e a expressividade nas relações.

Propriedade territorial

As transformações surgidas no decorrer dos tempos provocaram fortes desvios na interação, integração e função dos grupos humanos naturais.

Assim como acontece com a maioria dos animais, o homem também possui a noção de espaço vital (territorialidade) e tenta preservar o maior espaço possível para a sua sobrevivência. O conceito de propriedade territorial de um grupo humano é anterior ao surgimento da Civilização e ainda gera muitos atritos entre os homens civilizados. A agressividade normal (instinto agressivo) usado anteriormente para caçar e defender a prole também passou a ser utilizado para defender o território, preservando a existência dos grupos.

Os grupo naturais possuem unidade grupal (tradição de grupo) sustentado por seu eixo cultural de integração, ou seja, pelo seu reconhecimento entre os membros como “um todo com identidade”, com hábitos e costumes aprovados pelo senso comum e pelo objetivo comum direcionado para a vida coletiva. Essas características são importantes para se entender um grupo como “organismo social integrado” e como uma “unidade com personalidade e identidade própria” dentro do universo social. Nesse caso a defesa do território é feita pelo grupo que o entende como bem coletivo.

Quando um grupo perde essas características identificadoras (modelo cultural), perde sua capacidade como grupo e passa a pertencer a outro plano diferente – o consórcio ou agrupamento humano. Nesse caso o território não pertence mais ao grupo e deixa de ser um bem coletivo, passando para o campo do bem individual ou bem do agrupamento humano (empresas ou consórcios), onde o senso de coletivismo, ou não existe ou está fortemente enfraquecido pela competição e reatividade entre os membros. É comum esses consórcios possuírem (ou dizerem possuir) afinidade econômica, política, ideológica ou religiosa para protegerem seus interesses. Na verdade o que testa essas intenções de coesão é o seu funcionamento na prática. Eles se dissolvem e deixam de existir quando os interesses individuais entram em choque e desarticulam essa unidade, cujos objetivos se assentam em bases materiais. Essa ocorrência torna-se comum, quando um dos membros do agrupamento resolve se apoderar e usufruir individualmente dos bens e do poder acumulados pelos outros sócios.

Poder Econômico - Riqueza

No início, a produção abundante de alimentos e de bens de consumo deu origem a necessidade de comercialização da produção excedente. Surgiram os primeiros papéis de câmbio e as primeiras moedas que facilitaram as trocas comerciais. As disputas que antes estavam restritas a ocupação de territórios de subsistência passaram a ocorrer também em outras áreas. Reter maior volume de moedas possibilitava maior poder de compra (poder aquisitivo). Pertencer a uma classe dominante (com privilégios) como a dos nobres, militares e sacerdotes emprestava maior poder e influência ao indivíduo. Estar sempre em evidencia monopolizando a atenção de todos causava uma sensação de grandeza pessoal, um diferencial importante em relação aos outros. Essa corrida para o individualismo ocasionou uma enorme brecha na estrutura e coesão dos agrupamentos.

Os conceitos atuais dos agrupamentos civilizados se baseiam em três expectativas de valor social:

• A expectativa pelo poder econômico (ser rico, ter lucro, capaci¬dade de consumir).
• A expectativa pelo poder pessoal (fama, glória, competência, ser conhecido por todos, ser diferente dos outros).
• A expectativa pelo poder político (ser o líder, ter influência, dirigir e controlar os outros).

Somando-se essas três expectativas, concluiremos que nos agrupamentos civilizados os indivíduos aspiram e exercitam suas funções num plano de fantasia egocêntrica (“quero a segurança e po¬der para mim” ou “quero ser alguém na vida”). Com esse perfil psicológico, o indivíduo da sociedade civilizada, desempenha um papel neurótico de "controle", que deter¬mina o conteúdo de qualidade das relações com os outros indivíduos, com os outros animais, com o meio ambiente, com o território, com o dinheiro, etc. Nessa situação os membros de um agrupamento passam da condição de interagentes para a de concorrentes, enfraquecendo a solidariedade e estimulando a reatividade competitiva.

Instituição e violência

Um dos fenômenos marcantes desse crescimento das populações ocorreu simultaneamente com a emergência das instituições e das classes dominantes. Surgiram grupos de pessoas (castas) que monopolizaram as decisões (políticos), a religiosidade (sacerdotes) e a defesa (militares) dos agrupamentos. Engendrou-se também o conceito de hierarquia (verticalização do poder nas instituições).

Já vimos que o instinto de sobrevivência está fortemente vinculado à agressividade natural que, em condições antinaturais, pode gerar impulsos agressivos levando a destrutividade. Seres inteligentes não podem ser organizados como o são os objetos numa prateleira, nem divididos em classes de maior ou menor importância social. Sempre existiu uma correlação íntima e indissociável entre a atividade cerebral e a atividade grupal. É dessa dinâmica natural que se origina o fenômeno do comportamento individual vinculado ao grupo e da sua resultante – o equilíbrio grupal. Tentativas de separar essas duas partes interligadas, fatalmente resultará no aparecimento de insatisfações e de comportamentos reativos entre indivíduos. É esse o centro gerador das violências e das alterações de comportamento que conhecemos, desde a Antigüidade até os dias atuais.

Quando os sentimentos, princípios e valores circulantes na sociedade e na família, em qualquer época, estimulam a mente para lutar por objetivos dissociados do bem estar do grupo, o indivíduo passa a associar individualismo com sobrevivência e a incorporar a competição como meio de alcançar seus objetivos a qualquer custo. A riqueza é uma dessas fantasias: o poder material a serviço do indivíduo! Nesse caso o grupo é sentido como “meio”, onde o indivíduo, usando das mais diferentes estratégias, deposita a esperança de “subir na vida”. Uma escada onde os degraus podem ser pessoas ou oportunidades de burlar as regras sociais.

As instituições podem representar o lugar onde se encontram as oportunidades, e a riqueza pode advir da capacidade de utilizá-la em proveito próprio, mesmo sabendo que é essa instituição um patrimônio do grupo e está a serviço dele. Isso pouco importa, pois os estímulos estão voltados para o bem estar pessoal, como é aprendido na Família e fora dela.











CAPÍTULO IV
Comportamento e representação


Um indivíduo ou se comporta ou “representa” um comportamento. Os pesquisadores da atualidade dão um significado mais amplo ao termo comportamento, incluindo nele tanto as reações globais do organismo como as maneiras de agir que têm uma significação. A representação pode ser entendida como uma forma de comportamento consciente ou instintivo em busca de uma finalidade planejada ou uma função natural. A diferença entre comportamento e representação se situa na razão direta dos estímulos que os originam. Por exemplo, se um animal aprende sobre a melhor forma de conseguir alimentação, ele seguirá os passos necessários para atingir esse objetivo. Quando uma mulher planeja ser desejada pelo parceiro ela engendrará, através de papéis sedutores, esse objetivo. Comportamento e representação fazem parte dos mecanismos utilizados na convivência grupal.

Fama e exibicionismo


Nas sociedades civilizadas os indivíduos são impelidos a se tornarem concorrentes para atingir seus objetivos. Uma das características da condição humana é a necessidade de exibir-se, de mostra-se aos outros, naquilo que considere importante (exibicionismo natural), para alcançar determinados fins ou por simples prazer.

Entre muitas espécies de animais existe uma forma de exibicionismo voltada para o ato reprodutivo. Nesses momentos o macho (ou fêmea) executa uma dança particular onde, cores, ruídos e movimentos, estimulam o parceiro para o acasalamento. Na espécie humana esse ritual de impressionar o parceiro ou a parceira se reveste de diferentes formas de representação exibicionista. Porém essa representação pode estender-se para o grupo social, onde o indivíduo pode conquistar uma posição social que o destaque dos outros indivíduos. Quando seus atributos pessoais agradam muito, sua presença pode ser muito solicitada, gerando sentimentos agradáveis que estimulam o “ego” e que criam oportunidades de obter vantagens ou ganhar dinheiro.

O exibicionismo natural não é em si um comportamento reativo e sim uma forma diferenciada de relação, com funções diversas. Pode, porém, em determinadas circunstâncias, produzir anomalias de comportamento. Quando uma sociedade tende a exacerbar sua reatividade geral, o exibicionismo pode alcançar níveis alarmantes, enfraquecendo ou anulando o senso crítico, modificando as relações sociofamiliares do indivíduo, levando-o a comportamentos destrutivos em relação a si mesmo e à sociedade. Basta ver de que são capazes as pessoas que, sonhando em entrar para a vida artística, se prostituem, se drogam ou investem pesado, pagando altas somas para aparecerem na mídia. Sempre são encontrados componentes fortemente exibicionistas, e com controles de regulação alterados, nos maníacos e sociopatas, que tentam se sobressair mesmo sob a forma de ações criminosas.

Atributos humanos como emoção, desejo, imaginação e fantasia, são regulados por cargas de energia (pulsos eletroquímicos), do psiquismo seguindo parâmetros que funcionam dentro de uma faixa reguladora estável, variável individualmente, num certo período de tempo adaptativo. Quando essas “doses energéticas” se tornam excessivas, dentro de um curto espaço de tempo, o indivíduo pode apresentar disfunções do psiquismo, que se manifestam através de comportamentos reativos. É comum ouvir-se frases como: “a fama subiu-lhe à cabeça”, “o dinheiro confundiu-lhe os miolos” ou “o poder fundiu sua cuca”. Essas frases confirmam as mudanças de comportamento que ocorrem em muitos desses casos e que são melhor percebidas pelos outros indivíduos.

O cérebro humano é um órgão processador de informações, de complexidade ainda pouco conhecida, enquanto o comportamento é uma janela através da qual percebemos os resultados. Numa sociedade com fortes desvios de organização política, econômica, social e religiosa, esses fenômenos reativos passam a ocorrer com maior freqüência.

O exibicionismo é como o sal: em fracas doses torna a comida insípida, em doses excessivas, torna-a insuportável. Em algumas ocasiões pode despertar nos outros indivíduos forte sentimento de inveja, sentimento dotado de intenso potencial destrutivo.

Sociedade e comunidade (política, governo e lei)


Nas sociedades civilizadas o conceito de política é mais amplo que o de governo, e este é teoricamente menor que o de Direito (lei). Portanto, o processo político possui teoricamente as mesmas funções que são atribuídas para o Direito:

• A determinação das normas comportamentais de conduta acei¬tável
• A atribuição de força e autoridade
• A arbitragem nas disputas
• A renovação das normas de conduta.

Os termos sociedade e comunidade podem, entretanto, conter características diferentes. Poderiam ser vistos num esquema assim:

Sociedade Comunidade




Os significados poderiam ser interpretados assim:
Sociedade (civilizada) - consórcio ou competição pela sobrevivência entre subgrupos de indivíduos que vivem em sociedade e que nem sempre possuem um objetivo comum, não possuem modelo cultural (agrupamento) e convivem de forma reativa. Os objetivos dessa associação estariam voltados para interesses produtivos.
Comunidade (natural) - associação pela sobrevivência entre indivíduos que possuem um objetivo comum, possuem modelo cultural (identidade cultural) e convivem de forma cooperativa. Os objetivos dessa associação estariam voltados para interesses do grupo na convivência. A interpretação etimológica do termo “comunidade” poderia ser entendida como: associação dirigida para o bem comum.

A organização política nas comunidades naturais, e, especialmente, o tipo de governo existente é muito diversificado, mas como padrão, nunca está sujeito a instituições e nem a formas centralizadas de poder. Pode, entretanto, ter um líder que tem como atribuições:
• Organizar os esfor¬ços do grupo para trabalhos coletivos como caçadas, pescarias, etc.
• Organizar o cultivo das roças
• Organizar eventos tradicionais e religiosos
• Organizar a cons¬trução de habitações
• Pode ter representante responsável pelo ritual e cerimonial da religiosidade e do mundo sobrenatural
• Pode responsabilizar-se pela defesa do território e declarar guerra contra as sociedades inimigas
• Pode ser o porta-voz da lei, que reside na Tradição.
• Pode cuidar das diferenças individuais, evitando atritos.

É provável que a representação da liderança natural seja o resultado das normas estabelecidas pelo bom senso do grupo sem pressões coercivas institucionais ou pelo líder. O líder não dá ordens. A lei pode existir sem governo na forma de lei consensual. Muitas atividades (da representação das lideranças) não se expressam como lei. Entretanto, a própria existência da Lei-Tradição é em si mesma uma expressão de organização política, porque a legitimidade dos atos de um líder é uma expressão de interesse grupal e de consenso grupal. A organização política é mais do que governo, e não é sinônimo de Estado porque o Estado é um fenômeno social especializado, enquanto que a organização política é generalizada e pode ser representada por pessoas, mas pode não ser governada por elas.

Se os membros de uma comunidade vivem juntos, subordinados a uma cultura comum, é porque, até certo ponto eles compartilham seus padrões de vida e de idéias em comum. Comunidade significa vida em comum, na qual existe a diversidade, mas prevalece a unidade. Comunidade significa que o sentimento da unidade um senso de organismo, um espírito de corpo - se estende a toda a comunidade. Significa que a cultura possui valores que orientam o comportamento na direção dos interesses comuns. Os interesses comuns são o que constitui os interesses políticos. A comunidade é a nação. A organização política numa comunidade natural, portanto, é aquela parte de cultura que funciona, explicitamente, através de representantes da Tradição, para conduzir as atividades dos membros da sociedade na direção das metas da comunidade.

Nas comunidades naturais o poder emana da Lei-Tradição (ancestralidade, mitologia) e é evocada pelo líder, com freqüência, para ser aprendida pelo grupo, tornando-se consensual. Se o líder não possui poder de mando é porque a comunidade não cria instituições que lhe outorguem essa função de poder. O grupo concede ao líder (chefe) o “prestígio de representação” e lhe nega a “função de poder” para evitar o “abuso de poder” e o aparecimento da violência. Esse é o princípio da liberdade comunitária: tornar o poder impessoal (tradição) para não lidar com a vontade pessoal (coerção). Uma sociedade que se organiza sem o Estado.

Nessas condições admite-se que os conteúdos psíquicos dos indivíduos dentro de uma sociedade natural sejam fracamente reativos, ou seja, desprovidas de tensões excessivamente acumuladas, propiciando a expressão de comportamentos ativos (construtivos). A utilização generalizada de sentimentos, princípios e valores de caráter comum (solidariedade, generosidade, ética grupal), poderia explicar esse conteúdo construtivo da conduta e da personalidade dos indivíduos nessas comunidades.

Estaríamos, então, diante de uma questão fundamental: qual o grau de importância da qualidade da organização cultural na determinação da origem dos comportamentos reativos (neuroses, psicoses, violências e desvios de comportamento)?

Outro modo de formular a mesma pergunta: as violências, as alterações psíquicas, os desajustes intrafamiliares e os conflitos sociais podem ser combatidos eficazmente através de remédios, de melhorias nos sistemas de saúde, através de novas leis ou pelas atuais e futuras descobertas científicas, sem a reformulação dos princípios vigentes nas sociedades civilizadas?

Fatos ocorridos em aldeias indígenas *
(RELATOS E SIGNIFICADOS DE COMPORTAMENTOS ATIVOS)


Dissemos que o comportamento ativo é todo comportamento humano positivo e construtivo, que produz apenas harmonia e equilíbrio interno (no psiquismo) e externo (na família e no ambiente) e que contém altos níveis de sentimentos, princípios e valores saudáveis nas pessoa que o expressam. A lógica desse comportamento reside simultaneamente na sensação de bem estar do indivíduo e do grupo. Quando uma dessas instâncias sofre alterações e é atingida por mudanças não aceitas pelo bom senso e pelo consenso, iniciam-se processos reativos nos indivíduos que os transmitem para o plano da convivência, gerando conflitos e produzindo uma desorganização nas normas de conduta vigentes até então. Concluindo, poderíamos dizer que “regras justas e aceitáveis de convivência determinam o equilíbrio físico e mental”. Nas comunidades naturais a compreensão dessas regras é tão clara que determina um comportamento quase automático, inscrito fortemente na consciência de cada membro, produzindo os costumes (Tradição) e determinando a estabilidade da vida social (Eixo Cultural). Vejamos como isso acontece através de fatos reais:


Destrutividade

Um fato ocorrido em uma sociedade natural (aldeia indígena) nos mostra claramente como esse grupo lida com a destrutividade humana. Vamos ao relato:

Quebrando Panelas
“Uma índia fazia panelas de barro à porta de sua oca. Eram enfeitadas de um lado com cabeça e bico de pássaro e de outro lado com um rabinho. Seu filho de três anos assistia esse trabalho e, logo que sua mãe terminava uma panela, ele imediatamente quebrava a cabeça e o rabinho. Ao terminar outra panela ela repetia o mesmo gesto e seu filho tornava a quebrar a cabeça e o rabinho. Isso já tinha se repetido tantas vezes que o missionário branco resolveu perguntar: - Por quê você não faz só o corpo da panela e deixa para colocar a cabeça e o rabinho quando ele não estiver presente? Ela respondeu calmamente: - Porque ele gosta de quebrar panelas com as cabeças e rabinhos!

Comentário:
Todo ser humano nasce com potencial destrutivo. Toda criança é naturalmente destrutiva: morde, bate, quebra. Só aprende a construir a partir de experiências primitivamente destrutivas. Depois que atua destruindo, passa para uma outra fase de socialização, da agressão: aprende a reparar e construir. É possível que a índia já soubesse intuitivamente sobre essa evolução natural dos instintos humanos e deixasse o filho completar naturalmente essa primeira fase. Como sua cultura valoriza pouco o objeto material, ela poderia estar valorizando o desenvolvimento normal do filho, mesmo sem saber dessas questões da psicologia. Nessas sociedades é comum ver-se crianças de cinco a dez anos ajudando suas mães a enfeitar suas panelas, a tecer cestos, fazer tarefas domésticas, sem serem solicitadas.

Gratidão

Neste relato podemos observar o grau de profundidade a que pode chegar o sentimento de gratidão e o simbolismo contido nos presentes ofertados a alguém.

O Ovo de Pato
Na Unidade Sanitária estava chegando o sexto índio contaminado pela tuberculose. Resolvemos visitá-los num fim de semana para examinar os mais de oitenta índios da aldeia Nazaré na cabeceira do rio Marau, afluente do rio Maués no Estado do Amazonas. Eram semi-aculturados, em contato com missionários na aldeia a alguns anos.
Descemos da canoa e já encontramos tudo organizado para começar a trabalhar. Auscultamos todos, e os que não sabiam falar português respondiam para um missionário ou para o chefe que traduzia para nós. No dia seguinte o trabalho continuou e só a tarde foi concluído.

Um missionário nos avisou que o tuxaua Paulo (nome do líder da aldeia) queria que fossemos conhecer sua família e agradecer pelos serviços que prestamos à sua gente. Pediu que tirássemos fotografias da sua família e no final, num gesto cerimonial, nos deu de presente um bonito ovo de pato selvagem que havia coletado há alguns dias. A principio não entendemos nada. O que tinha a ver um ovo de pato com os serviços que fizemos? Procuramos o missionário e pedimos que explicasse aquilo. Ele arregalou os olhos e nos perguntou: - Ele deu este presente? – Sim! – respondemos. Os seus olhos azuis brilharam e ele falou: - Mas essa é a maior honraria que um branco é capaz de ganhar dessa gente. Todo mundo vai ficar sabendo disso.

Comentário:
O missionário falou que naquela época do ano as chuvas diminuíam de intensidade e, por conseqüência, os rios diminuíam os seus volumes d’água. Os peixes desciam para rios mais volumosos e a caça procurava outros lugares para se abastecer de água e comida. Tudo ficava mais difícil para caçar e pescar e os esforços para conseguir comida aumentavam. O costume tradicional era coletar e armazenar ovos de aves e répteis (que se conservavam por muitos dias) para preservar a reserva alimentar da tribo. Havia um código ético de que as crianças não podiam ficar com fome nesses tempos de escassez. Bom, coletar ovos seria uma forma de garantir comida às crianças, pelo menos. Reserva alimentar de proteínas para as crianças, naquela tribo, era uma questão de honra. Ora, tirar da reserva alimentar dos filhos para oferecer presentes, principalmente para brancos, poderia ser no mínimo um grande privilégio.

Ficamos emocionados quando compreendemos isso, mas mesmo assim, não conseguimos perceber totalmente o profundo gesto daquela tribo. Depois de algum tempo entendemos que fôramos agraciados com um ato de profunda gratidão. Nunca alguém propiciou tamanha felicidade por um trabalho que fazíamos mecanicamente. Na nossa civilização ninguém valoriza esses gestos. Tivemos o cuidado de levar esse ovo prá casa e comê-lo com grande satisfação. Se o tivéssemos esquecido na aldeia teríamos cometido uma grande ofensa para com aquele povo tão generoso.

Há algum tempo atrás ficou provada a extrema necessidade que as crianças possuem pela aquisição de proteínas nessa fase de crescimento. Essa necessidade está voltada para a construção das estruturas do corpo e do cérebro.


Ritual de gratidão


Esse relato nos mostra a importância que é dada a um indivíduo no grupo, e como se expressa o sentimento de gratidão manifestado pelo grupo como um organismo inteiro (identidade grupal).

O Presente dos Colares

Desses tratamentos que fizemos em índios, o caso mais agudo foi o de uma índia de quinze anos. Chegou na Unidade Sanitária um caco quase sem vida. Estava esquelética. Pesava menos do que a maca que a conduzia. Era um caso grave e a internamos na própria Unidade, coisa que não era permitida pelo regulamento. Clinicamente era um caso de tuberculose, mas, dos três exames de escarro feitos, todos foram negativos. Lembramos da aula de um grande professor que nos ensinou que existem casos de “tuberculose fechada”, aquelas que não mostram positividade nos exames de escarro. Acreditamos no diagnóstico e, quebrando as regras da FSESP (Fundação Serviços de Saúde Pública) iniciamos o tratamento. Tudo indicava que o raciocínio estava certo.

Três meses depois a índia tinha cinco quilos a mais de peso e recuperou seu peso normal aos seis meses. Respondia até mais do que o esperado em termos de recuperação. Estávamos felizes e a visitávamos duas vezes por semana na casa do pastor Ronald, onde ela estava hospedada. Ela foi liberada para continuar o tratamento por mais seis meses na sua tribo sob coordenação do mesmo pastor que a hospedara. Ficamos tranqüilos e continuamos o trabalho na Unidade como de rotina. Meses depois ela voltava para novos exames e, já tendo completado o tratamento, recebeu alta por cura completa.

Certa tarde a auxiliar de enfermagem nos informou, já no final do expediente, que havia uma comitiva que queria conversar conosco. Estávamos cansados, mas pedimos que entrassem. Eram quinze pessoas: a índia, seu pai, um irmão, um tio, uma tia, o chefe da tribo, o pajé, outros parentes e o pastor Ronald e seus familiares. Ficamos surpresos. O pastor Ronald falou algumas palavras na língua deles e as traduziu, em seguida falou o pai, depois o pajé e por último o tuxaua. De olhos arregalados ouvíamos tudo e em seguida cantaram e falaram palavras que só foram traduzidas depois. O pai, o chefe e o pajé colocaram, cada um por sua vez, no nosso pescoço, três colares feitos pela índia que havia sido tratada. Cumprimentos de todos e o ritual se encerrou.

Comentário:
Fomos homenageados pela índia, seus parentes e pela tribo com colares que significavam mais ou menos: “cidadão do povo”, algo parecido com “persona grata” ou “guerreiro de confiança”, tradução do pastor. Para nós, até hoje, nenhuma quantia em dinheiro tem mais valor do que essa honraria. Compreendemos que nesses grupos humanos o valor de uma pessoa é tão grande que pode mobilizar todo o grupo, seja para a guerra, seja para um gesto de gratidão.


Coletivismo e assertividade

Neste relato podemos observar dois costumes comuns entre grupos indígenas: o senso coletivo e o sentimento de sinceridade expressiva (sintonia, assertividade).
A Farra de Café

Costumávamos caçar e pescar naquela época. Um dos companheiros de caçada era um civilizado da cidade de Boa Vista-RR. Trabalhava numa borracharia e era um “mateiro” (conhecedor da mata) muito experiente. Conhecia muito bem o lugar para onde estávamos indo. Tinha o hábito de levar café e açúcar para um grupo indígena que conhecia há alguns anos e que ficava a meio caminho do local da caçada. Falava um pouco a língua deles e os respeitava muito.

Contou-me que ao receber o presente, seu amigo índio o entregara para sua mulher que imediatamente convidou todos os outros índios para uma verdadeira festa. Como se tratava de um quilo de café e dois de açúcar, eles ficavam bebendo até que todo o café e açúcar acabasse. Poderiam entrar pela madrugada adentro bebendo café e conversando. Nunca guardavam e sempre repartiam. O presente dado a um, era o presente para o grupo todo. Uma questão de costume.

Certa vez convidou um rapaz da cidade para uma caçada e entraram na aldeia para entregar o café e cumprimentar o amigo índio. O rapaz afastou-se um pouco e começou a fazer gracinhas com índias que o rodearam para vê-lo de perto, pois era um desconhecido para o grupo. Despediram-se e continuaram a caminhada. Na volta o rapaz pediu para que entrassem de novo na aldeia, pois ele queria receber arcos e flechas de presente. O mateiro falou para o índio que o rapaz queria arcos e flechas. O índio se retirou e logo voltou com dois arcos e seis flechas muito bonitos e enfeitados com penas de pássaros. Falou para o mateiro: - Isso é seu ! Para ele não daremos presentes e nem queremos receber. Ele não é amigo do nosso povo. Ele é gente ruim...!

Comentário:
Os índios percebem com facilidade as intenções dos brancos que visitam as aldeias. Guardam na memória os gestos e as palavras que conseguem entender. Cultivam a amizade, mas não gostam de ser humilhados. Quando repelem uma amizade dificilmente mudam de idéia depois. São simples e sinceros e falam o que sentem na frente das pessoas. Não possuem o hábito de mentir ou falsear seus pensamentos e sentimentos.


Força do modelo cultural

Neste curto relato podemos observar a importância da qualidade de convivência em uma cultura integrada.

A Volta

Há algum tempo atrás lemos a reportagem sobre um antropólogo americano que casou-se com uma índia ianomâmi. A índia aceitou sair da aldeia e morar com ele nos EUA. Após alguns anos de convivência com a civilização resolveu voltar para sua tribo. Deixou dois filhos com o pai e retornou aos seus velhos costumes. Não se adaptou.

Comentário:
Não é fácil trocar um grupo humano integrado e solidário por uma “civilização” cheia de problemas, onde as pessoas são tratadas de forma desumana.


Organização e hierarquia na distribuição do alimento


Neste relato podemos observar como os hábitos e costumes gerados pela tradição funcionam na convivência em uma cultura integrada.
A Distribuição da Comida

Já estava começando a anoitecer. Estávamos sentados sobre um tronco em frente a palhoça onde o missionário morava. Bem em frente, há uns trinta metros, havia um barracão coberto de palha e sem paredes. Nele uma índia mantinha a fogueira acesa e de vez em quando a alimentava com pedaços de galhos secos. O missionário dizia que ela estava esperando seus parentes, homens, que tinham saído para caçar. Pediu para prestarmos atenção sobre o modo de distribuição da comida naquela tribo. Segundo ele, havia um ritual bem disciplinado sobre a hierarquia no ato de servir-se do alimento.

Já estava quase escuro quando um grupo de quatro índios entrou na área da aldeia com duas grandes pacas penduradas nas mãos. Foram seguidos por crianças e jovens curiosos que falavam e riam o tempo todo. Deixaram as pacas sobre uma esteira no barracão e se retiraram. Mais duas mulheres se aproximaram e começaram a preparar as pacas para assar. Quando tudo estava pronto as crianças se aproximaram e começaram a tirar pedaços do assado para comer com beijú (espécie de pão feito de mandioca). Depois vieram os velhos seguidos das mulheres. Por último chegaram os homens e comeram o que restava da caça. Não sobrou nada.

Comentário:
O missionário explicou que, naquele grupo, as crianças tinham prioridade para servir-se, em segundo lugar vinham os velhos, depois as mulheres e por último os homens. Comer coletivamente obedecia a costumes muito antigos ensinados pelos mitos e pela tradição. Todos conheciam esses critérios e não avançavam desordenadamente para comer.


Poligamia e monogamia


Neste relato podemos observar como hábitos e costumes tradicionais geram valores que regulam a força dos instintos no grupo.

Uma ou mais Mulheres?
Em certos grupos indígenas qualquer homem pode ter mais de uma mulher, desde que haja mulheres suficientes no grupo. Porém nem todos usam desse direito tradicional, muitos recusam a possibilidade e preferem ter apenas uma companheira. Muitos civilizados devem achar esse comportamento bastante estranho. Mas é assim que acontece em algumas tribos.

Foi perguntado a um índio adulto se ele não queria ter duas ou três mulheres. Sua resposta foi simples: - Tem gente que gosta de ter mais de uma. Eu só gosto de ter uma.

Comentário:
Nesses grupos a maior humilhação que um guerreiro (homem adulto) pode sofrer se baseia na sua incapacidade de conseguir alimento suficiente para sua família. Deixar filhos e mulher com fome é muitas vezes pior do que ser chamado de homossexual, ladrão ou covarde. Como em determinadas épocas do ano a caça e a pesca se tornam bem escassas, fica muito difícil alimentar muitas bocas. Cair no ridículo perante todos do grupo seria o resultado final dessa incompetência demonstrada pelo guerreiro.
Vamos raciocinar: Um guerreiro com sua mulher e dois filhos teria que alimentar quatro bocas; se tivesse mais uma mulher e dois filhos, teria que alimentar sete bocas; se esse número aumentasse o guerreiro não teria tempo para fazer mais nada e sua vida estaria restrita a caçar e pescar grande parte de seu tempo. Não poderia mais conversar e divertir-se. Prover com alimento suficiente sua família é uma questão de honra que um guerreiro deseja manter sempre.

Acordo “de verdade”


Neste relato podemos compreender como a verdade e o acordo são valores de grande importância em sociedades que não utilizam a fraude e a mentira como mediadores das relações no grupo.

A lanterna quebrada

Numa aldeia, ás margens do rio Catrimân, nas florestas da serra Parima em Roraima residia um grupo de índios Ianomâmi. Era um grupo recentemente contatado, andavam nus e mantinham grande parte de sua cultura tradicional. Eram aproximadamente noventa índios. Lá tinha sido instalada uma missão católica (Missão Catrimani) há pouco tempo. Os padres João e Carlos moravam numa casa de madeira a cem metros da maloca. Entramos com uma equipe de pesquisas para coletar sangue e material da garganta dos índios com o objetivo de descobrir que tipo de vírus estava matando os índios de pneumonia em outros locais da região.

Descemos do pequeno avião num campo de pouso todo de terra, a poucos metros da casa dos padres. Logo ao descermos vieram algumas crianças para ver o avião e olhar curiosamente para nós.

Um índio de aproximadamente trinta anos aproximou-se do padre João, que viajara conosco, e falava insistentemente no seu dialeto mostrando uma lanterna velha sem pilha e sem a tampa de trás. Não entendíamos nada, mas notamos um ar de preocupação no rosto do padre.

Mais tarde nos contou: o índio havia trocado aquela lanterna velha com um homem branco (peão de construtora de estradas) que estava caçando por aquelas bandas. Ele havia dado em troca um porco-do-mato inteiro e mais alguns arcos e flechas. Disse ele que o branco afirmara que aquele objeto fabricava luz e ele podia enxergar a noite. Depois o branco mandaria as pilhas e a tampa de trás. Nunca cumpriu sua palavra e já tinha passado dois meses. O índio estava querendo entender porque o homem branco não cumprira o que prometeu e estava demorando tanto.

Comentário:
O padre João explicou para nós que naquele grupo eles não conheciam a mentira. No ramo lingüistico deles não havia qualquer palavra referente a enganar, mentir, descumprir. Não conheciam esse hábito civilizado e o padre estava em dúvida se deveria colocá-lo a par da realidade branca, onde uma pessoa pode enganar a outra. Ele aprenderia esse costume novo e o contaria para os outros índios, contaminando assim aquela cultura pura e sem maldades. Mas um dia teria que falar sobre isso, pois a civilização estava se aproximando da aldeia com a abertura da estrada.


Controle populacional

Neste relato podemos compreender como certas comunidades indígenas controlam suas populações, tendo como base condições e fatores naturais atuando na lógica de crescimento do grupo.

Poucos filhos

Um dia perguntamos ao padre João porque uma família indígena tinha sempre uma média baixa de filhos. Eram sempre dois ou três os filhos de um casal. Ele citou as razões ligadas ao número de bocas a alimentar e falou sobre um possível uso de anticoncepcionais naturais pelas mulheres. Mas não tinha certeza dessa utilização de anticoncepcionais. Falou apenas que as mulheres se reuniam periodicamente dentro da mata e parece que faziam chás com uma espécie de batatinha semelhante ao gengibre. Não sabia dizer para que servia, e se aquilo tinha alguma coisa a ver com o controle da natalidade. Nessas reuniões a presença dos homens não era permitida pela tradição.

Comentário:
Atualmente o controle populacional é função dos governos. A forma de distribuição dos bens produzidos determina quem pode e quem não pode comer. Mas a reprodução é um bem individual determinada pelo indivíduo. É possível que as famílias numerosas e a superpopulação sejam reflexos da desorganização social entre brancos, uma espécie de “compensação desviada” para garantir a sobrevivência.


Uso da etiqueta
Neste relato podemos perceber como, em grupos que adotam o princípio da verdade, não são aceitas as convenções falsas utilizadas de forma generalizada e automática pelas sociedades civilizadas.

Os Cumprimentos

Nessa mesma aldeia onde morava o padre João, após descermos do avião, nos dirigimos para a casa dele. No alpendre já havia um pequeno grupo de índios e índias reunidos. Ao entrar cumprimentamos a todos e nenhum gesto de retribuição foi feito. Ninguém respondeu ao cumprimento. Os outros dois médicos também fizeram o mesmo e nada aconteceu. Silêncio total.

O padre João, percebendo o nosso desapontamento, explicou: Eles aqui não conhecem o nosso costume de cumprimentar. Alguns dias atrás falei a eles que iria trazer três amigos que eram “pajés de brancos” (médicos); e que iriam furar o braço de todos para tirar sangue, dar uma água para lavar a garganta e depois cuspir num pote (frasco de coleta). Isso iria servir para que descobrissem a doença que estava matando outros índios. Eles aceitaram porque acreditam em mim.

Entre eles, a palavra “amigo” tem valor real. Amigo é amigo, inimigo é inimigo. Como não se mente, tudo o que é dito é compreendido como verdade inquestionável. Falou que podíamos olhar a vontade para o corpo nu deles, pois, para eles, eles não se sentiam nus. Eles também não se sentiam constrangidos em olhar para nós, chegar bem perto e até nos tocar. Eles não reprimem a sua curiosidade e são muito autênticos.

Comentário:
Supomos que o cumprimento entre os civilizados, na grande maioria das vezes, é feito de forma mecânica e obrigatória. Nós cumprimentamos sem sentirmos essa vontade, e para ver como anda o humor da outra pessoa ou para nos sentirmos educados. Na verdade achamos chato ter que cumprimentar sempre. Estamos sempre desconfiados em saber se somos aceitos pelos outros ou não. Quase sempre cumprimentar é um gesto hipócrita.


Moral e nudez


Neste relato podemos perceber como, em grupos que adotam princípios morais organizados, a nudez e a moral possuem regras diferentes das existentes nas sociedades civilizadas.

O Cipó

O padre Carlos estava há pouco tempo na aldeia. Havia chegado da Itália e fora encaminhado para trabalhar na missão Catrimani, para ajudar o padre João. Quando um ia à cidade resolver questões de rotina, o outro ficava com os índios. Ainda estava aprendendo os costumes do grupo.
Um grupo de índios composto de homens, mulheres e crianças tinha o hábito de descer de tarde para o igarapé (pequeno afluente do rio), para tomar banho. Era uma festa, nadavam, conversavam e se divertiam muito nessas horas. Nessa tarde, ao passarem em frente à casa dos padres, convidaram o padre Carlos para descer com eles. O padre foi vestir seu calção e os acompanhou pelo caminho que levava ao igarapé. No caminho, passando por um índio jovem, o convidou para seguir o grupo. O índio fez um gesto negativo com a cabeça e parecia encabulado. Vestia um calção vermelho e desbotado, produto de troca com um branco da estrada. O padre se aproximou e perguntou por que ele não queria ir. Ele falou: - Estou sem cipó !

Comentário:
Para esses índios a roupa do branco era tratada como simples ornamento, como se fosse um colar ou pulseira. Estar vestido, para um homem da tribo, significava ter seu prepúcio (pele que envolve a cabeça do pênis) amarrado por um cipó fino, levantado para cima e amarrado em volta da cintura. Isso sim era estar vestido. O calção, embora encobrindo seus genitais, não lhe dava a sensação de estar vestido. Seria uma falta de vergonha ir tomar banho junto com o grupo daquele jeito. Ele preferia ficar assistindo os outros se divertirem mas não quebraria a tradição. Estava se sentindo nu sem o cipó.


Humor

Este relato mostra como o ambiente (floresta) fornece substrato para um humor analógico entre homem e animal expondo o homem ao ridículo quando este se comporta de forma semelhante aos animais. Mostra também como a tensão entre os brancos pode produzir tiques e gesticulações exageradas que podem expressar certa conduta ansiosa.

Risos na Canoa

Eram dez horas da manhã e os dois padres tinham de atravessar o rio para pegar mantimentos que estavam do outro lado. Naquele trecho a correnteza era forte, o rio tinha quase cem metros de largura e logo abaixo, a uns duzentos metros, havia uma cachoeira alta e perigosa para quem não a conhecia. Pediram a dois índios fortes que o ajudassem a atravessar.

Cada qual com um remo, ocuparam a proa e a popa da canoa. Durante a travessia os padres começaram a conversar em italiano e o padre Carlos entusiasmado, gesticulava muito. Os índios achavam engraçada aquela conversa e começavam a rir, parando de remar.

A canoa se aproximava perigosamente da cachoeira logo abaixo. Voltavam a remar e logo paravam para rir novamente. O padre João estava ficando preocupado e pediu para o outro padre parar de falar e gesticular. Fizeram o transporte dos mantimentos sem problemas e os índios só pararam de rir quando eles ficaram em silêncio. Durante a volta todos ficaram calados.

Comentário:
A condição psicomotora do branco (excesso de palavras e de gestos) é diferente da dos índios. Enquanto nós falamos e gesticulamos muito (expressão de ansiedade) eles só usam as palavras e gestos suficientes para se comunicar (expressão de pouca ansiedade). Eles comparam os brancos com os macacos ou micos que, segundo eles, tem gestos parecidos com os dos brancos. O padre Carlos sabia disso e pediu para o outro padre se calar e encerrar a gesticulação. Deu tudo certo.


Propriedade individual e coletiva

Uma das coisas que mais impressiona entre os índios é a obediência quase sagrada aos seus costumes tradicionais. Os conceitos de: individual, coletivo, liberdade e verdade são usados de forma tão coerente e flexível que chega a ser de difícil compreensão para nós.

O Arco

Um guerreiro saiu de sua casa e atravessou o terreno central da aldeia. Bem no meio do caminho abaixou-se, deixou seu arco e flechas no chão e se embrenhou na mata. Poucos minutos depois sua mulher fez o mesmo percurso e notou no chão o arco e flechas do marido. Identificou e seguiu, sem parar, para o seu destino. Mais alguns minutos e o guerreiro voltou, retomou suas armas do chão e penetrou na floresta.

Comentário:
A maioria das pessoas não teria notado qualquer importância nisso que acabamos de narrar. Mas perguntamos: o que é que a maioria das mulheres branca faz quando encontram um objeto do marido no chão?

Para certos grupos os objetos pessoais são de propriedade de uma pessoa apenas. Só deixam de ser quando é autorizado, pelo proprietário, outro tipo de uso. Nenhuma outra pessoa deve exercer qualquer tipo de poder sobre ele sem autorização, como por exemplo: trocá-lo de lugar, pegar sem pedir, etc. Cada pessoa é o único detentor do poder sobre seu objeto pessoal e quando essa pessoa morre, seus objetos são enterrados com o corpo, pois nenhum objeto pode sobreviver ao seu dono. Os objetos usados em cerimoniais sagrados só podem ser tocados por certas pessoas do grupo durante os rituais; encerrada a cerimônia ele passa a ser um objeto qualquer que pode ser usado livremente e até servir de brinquedo para as crianças. Em vários grupos o objeto é visto pelo seu valor utilitário (função) e não possui valor comercial. O que uma pessoa faz ou deixa de fazer com seus objetos é de sua inteira responsabilidade, e ninguém se sente com direito de emitir qualquer tipo de comentário. Comentar seria invadir a privacidade e se intrometer na individualidade do proprietário, coisa ridícula para eles.


Crime e tradição


Uma das questões mais difíceis de compreender entre os brancos é a diferença entre crime e costume. Enquanto em certas sociedades naturais o infanticídio é consenso, nas sociedades civilizadas passa a ser crime.

Infanticídio entre os ianomâmi

O missionário, falando sobre os costumes daquele grupo, contou que nos casos de nascimento de gêmeos, o costume tradicional era sacrificar um deles, geralmente o menor e mais fraco (seleção natural). Contou que uma índia grávida estava com a barriga muito volumosa e entre as mulheres corria um comentário que ele não conseguia compreender. Os comentários estavam ligados a um mito relacionado a esse tipo de ocorrência, aliás, bastante raro, nesse grupo. A tradição dizia que a gravidez gemelar era uma interferência de espíritos destrutivos da floresta que tencionavam introduzir no grupo, um espirito que teria como objetivo promover distúrbios dentro da tribo. Como em outros grupos, eles acreditam que as entidades espirituais são seres da floresta que geralmente estão sob forma de animais (zoomorfismo) e que em certas circunstâncias (nos partos, por exemplo) assumem forma humana para desorganizar a vida na tribo, produzindo atritos entre as pessoas. O indivíduo menor e malformado é identificado como um desses seres. Confesso que a minha primeira reação foi de repúdio ao fato. Muito depois consegui compreender que a força da tradição torna-se mais forte para proteger o grupo em detrimento do indivíduo, o que, aliás, é um princípio geral das comunidades naturais.

Comentário:
Um paradoxo visível nas sociedades civilizadas é a forma incompreensível de se indignar com um caso desses, enquanto ficamos passivos diante de espancamento (e abandono) de crianças e das mortes de jovens e adultos, por motivos fúteis, que já não nos sensibilizam tanto hoje em dia. O que é crime, então?


Guerra e diplomacia

Conceitos de guerra e diplomacia entre sociedades naturais e reativas são tão diferentes que chegam a confundir o raciocínio. Enquanto em certas sociedades naturais guerra e diplomacia são sub-etapas de um conjunto de objetivos aceitos em consenso, nas sociedades civilizadas são objetivos separados e decididos pela cúpula (governantes).

O ataque

Numa certa manhã, bem cedo, a aldeia foi atingida por uma saraivada de flechas disparadas por um grupo ianomâmi vizinho. O missionário disse que não conseguia compreender como os agressores, após o ataque, haviam fugido tão rapidamente levando consigo duas mulheres, sem ferir qualquer dos membros do grupo. Comentários sobre o ataque foram o assunto durante todo o dia. A tradição dizia que a dignidade do grupo havia sido atingida e que um contra-ataque deveria vir em seguida, um consenso que teria como objetivo devolver a autoconfiança dentro da tribo. O missionário, falando sobre os costumes daquele grupo, contou que nos casos de conflito, o costume tradicional era responder primeiro ao agravo, para depois fazer as pazes. Como em outras aldeias, eles acreditam que os grupos possuem personalidade forte e que não podem ser desrespeitadas sob quaisquer circunstâncias. Foi formado um conselho que identificou o inimigo pelas características das flechas e marcou um contra-ataque para o dia seguinte. Após efetuarem as pinturas de guerra e o preparo das armas, lançaram-se á ofensiva. Meses depois haviam marcado uma festa de confraternização que resultou em troca de mulheres e objetos fabricados por cada grupo. Conseguimos compreender que a força da tradição torna-se mais forte para proteger o grupo, mas, ao mesmo tempo, valoriza a diplomacia como base de convivência intergrupal, o que, aliás, facilita o comércio e evita a consangüineidade nas comunidades naturais.

Comentário:
O que mobiliza as guerras nas sociedades civilizadas são motivações tão mesquinhas e dissociadas de interesses coletivos que as vítimas muitas vezes morrem sem saber porque (e por quem) estão lutando.


Liberdade e individualidade


Pai, mãe, chefe ou pajé não ousam se intrometer na individualidade das crianças, jovens ou adultos, pois desde pequenos aprendem que são responsáveis, cada um por si, sobre seus atos, palavras e objetos. Sabem reconhecer com precisão os territórios do individual e do coletivo para não serem motivo de risos dos outros. Cultivam a liberdade para se sentirem livres, pois um cidadão ou cidadã adulta sabe escolher e sabe o que fazer; cultivam a verdade para se sentirem autênticos consigo próprios e sintonizados com o grupo. Preservar o individual, o coletivo, a liberdade e a verdade são hábitos tão automáticos que a discussão, entre eles, sobre esses assuntos não teria qualquer sentido lógico.

Entre os grupos humanos naturais, o fator decisivo para a manutenção do equilíbrio cultural pode ter sido: a escolha da figura humana como objeto principal no imaginário do grupo. Os fatores de coesão podem ter sido: os sentimentos de solidariedade e generosidade; os princípios individuais, como verdade e igualdade, os valores como justiça e respeito, podem ter assegurado a evolução da identidade desses povos. A decisão política em não permitir o uso do poder pelo homem, deslocando-o para uma esfera abstrata (tradição), pode os ter livrado da decadência e do desaparecimento. Sabe-se que os ancestrais dos indígenas de hoje chegaram ao território americano a mais de doze mil anos atrás.


* Os relatos acima citados foram baseados em fatos reais, coletados em diferentes grupos indígenas da Amazônia, em tempos e circunstâncias diferentes, através de observação pessoal do autor ou transmitidas por pessoas idôneas que conviveram nesses grupos por longo tempo.





CAPÍTULO V
Exemplos históricos de comportamentos reativos

Pensando sobre fatos históricos que possam ter iniciado o processo reativo nos seres humanos imaginamos, que num primeiro momento, onde a vida grupal estivesse associada à segurança e proteção dos indivíduos, alguns sentimentos, obrigatoriamente, impusessem os seus usos, como por exemplo, a necessidade de usar a solidariedade como forma de compensar a tecnologia ainda rudimentar. No grupo estaria depositada toda a razão de viver em segurança. A solidariedade poderia representar, então, o sentimento de união e força dos grupos.
Nas sociedades competitivas, onde as diferenças sociais são desproporcionalmente acentuadas, onde os valores circulantes entre indivíduos produzem expectativas megalômanas, os indivíduos estão mais sujeitos a desajustes do psiquismo e do comportamento. Essas expectativas individuais possuem um conteúdo de reatividade bastante exagerado, produzindo desejos fantasistas de posse, posição social e poder. Esses desejos possuem caráter compensatório com objetivos de livrar esses indivíduos do que eles imaginam ser condições perigosas e humilhantes. Portanto, a mente – no plano das relações – configura-se para responder aos estímulos e solicitações do meio social, quase sempre priorizando os valores circulantes. Ser pobre, não ser ninguém na vida e estar subjugado por outros, cria um imaginário obsessivo que empurra a maioria das pessoas para aspirações que podem representar a “solução” desejada para essas situações:

• Poder econômico (ser rico, ter lucro, capaci¬dade de consumir).
• Poder pessoal (fama, gloria, competência, ser conhecido por todos, ser diferente dos outros).
• Poder político (ser o líder, ter influência, dirigir e controlar os outros).
Como já foi dito, o homem mobiliza seus comportamentos (ativos e reativos) pelo que seu cérebro processa das aprendizagens geradas pela cultura. Uma forma interessante de testar essa premissa é recorrer a fatos ocorridos durante a história da humanidade. Sociedades cuja organização social desmoronou pela prática de comportamentos destrutivos, povos que alcançaram um apogeu e uma decadência posterior, podem nos mostrar ou nos fazer inferir sobre os elementos causais dessa evolução e decadência. Talvez esses povos estivessem tão ocupados em conquistar, produzir e comerciar que acabaram esquecendo de fortalecer seus vínculos culturais.

Reatividade nas sociedades antigas

Os primeiros povos civilizados que habitaram a Europa (etruscos, sumerianos, fenícios, babilônios, egípcios, etc.) fazem parte daquilo que os arqueólogos chamam de civilizações clássicas. O estudo de algumas dessas civilizações mostram uma tendência de desagregação no decorrer da sua evolução e a existência de comportamentos reativos que podem ter acelerado sua decadência como grupos humanos. É interessante observar que, quase todas as sociedades, moldam suas instituições segundo seus desejos, princípios e valores. Crenças, mitos, fantasias e outros elementos do seu imaginário dão forma e conteúdo ao corpo cultural. Se compararmos certas situações narradas nos textos abaixo, compreenderemos as semelhanças de conteúdo nos comportamentos dos povos antigos com os comportamentos reativos da atualidade. Vejamos alguns exemplos:

A Mesopotâmia sempre foi tida como o berço da civilização. Alguns autores ainda admitem que foi no Oriente Médio que surgiram as primeiras manifestações civilizadoras. A região da Suméria segundo alguns historiadores passou a ser habitada entre 3.500 a 4.000 anos antes de Cristo.


SUMÉRIA


Dedicavam se os sumerianos à astrologia; seus conhecimentos, nesse domínio, eram extraordinariamente precisos. Acredita¬vam certamente na sobrevivência e em outro mundo. Por isso é que a sorte dos servidores dos soberanos, enterrados vivos, ao mesmo tempo que seu senhor, era menos cruel do que se imagina.

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Homens e mulheres carregavam, este um vaso de barro, aquele uma taça de pedra ou de metal e se aproximavam duma cratera de cobre contendo veneno, depositada no centro do jazigo; enchiam as taças e bebiam lhe o conteúdo. Criados aba¬tiam os animais encerrados na tumba e depois se retiravam. Enchia se em seguida o corredor de acesso. Segundo o professor Woolley, as vítimas eram voluntárias; em nenhuma parte foram encontrados traços de violência. Era a morte considerada como uma libertação, como as primícias de uma existência feliz num mundo melhor. Diademas, jóias e objetos estão no seu lugar, dispostos no local fixado e parece mesmo que os músicos tenham continuado a tocar até seu derradeiro suspiro.

Em cada tumba, o quadro é idêntico: cada membro da comi¬tiva real ou principesca tem uma taça de veneno e, no centro da sepultura, encontra se um vaso de cobre. Esse suicídio coletivo era livremente aceito.

Uma coisa é, em todo o caso, certa: esses holocaustos não eram, como o acreditaram certos sábios, sacrifícios de virgens oferecidos aos deuses. Na realidade, as vitimas masculinas são maioria.

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No começo do terceiro milênio, outra cidade Estado, a de Lagash, cidade do deus Ningirsu, situada no local da atual Telo, conheceu um período de grande prosperidade. A des¬peito da relativa insignificância de Lagash, cidade provinciana, as tabuinhas que ali foram exumadas constituem preciosa mina de informações. Seus habitantes falavam o surnério; criadores de gado, pescadores, comerciantes e artífices compunham o grosso da população. Como todas as cidades mesopotâmicas, estava Lagash construída em torno do templo; livres e inde-pendentes, seus habitantes reconheciam a autoridade do deus protetor da cidade e de seu clero, mas somente na medida em que a manutenção das canalizações, dos canais e o bom fun¬cionamento dos serviços públicos implicavam uma disciplina coletiva.

Cerca de 2.500, antes de J. C., a catástrofe se abateu sobre Lagash; invasores apoderaram se da cidade e da Suméria. Um “historiador” da época contou, em tabuinhas, a ocupação da cidade pelos intrusos. Um responsável pelos barcos requisitou as embarcações; os responsáveis pelo gado, os animais domésticos; outro se apoderou das peixarias. O cidadão de Lagash que conduzia uma ovelha para ser tosquiada, diante do palácio, pagava uma taxa de 5 siclos, se a lã era branca. Um divórcio dava a ganhar 6 siclos ao soberano, 1 siclo a seu ministro e as melhores terras que pertenciam ao deus protetor da cidade serviam para cultivar cebolas e pepinos, destinados à mesa do usurpador. A própria morte era tarifada e os padres se esforçavam por extorquir dinheiro aos parentes dos defuntos. Os cobradores de impostos pululavam em toda a Suméria. À medida que se enriquecia, aumentava o soberano o efetivo de seu harém.

Foi nessa época, a mais sombria da história de Lagash, que um príncipe, o célebre Urucagina, assumiu o poder; suprimiu as taxas abusivas e os padres funcionários cujas exações empo¬breciam a população. O clero foi obrigado a retomar suas funções e a consagrar se exclusivamente ao serviço do deus da cidade; o "Ensi" o governador, tornou se de novo o pri¬meiro magistrado da cidade. Urucagina, o reformador, cuidou em assegurar o bem estar de seus súditos e foi, com justiça, que, na sua velhice, se glorificou de ter dado a liberdade a seu povo. Infelizmente, seu reino durou um pouco menos de dez anos.

Partido do Estado vizinho de Umma, o rei sumeriano Lugal¬zamisi caiu sobre Lagash, depôs Urucagina, apoderou se dos bens dos ricos proprietários, mandou assassinar centenas de cidadãos, pilhou os templos e fundou em Uruque, um novo reino. A população aceitou sua sorte com paciência; os deuses tinham querido assim. Quando soou a hora fatídica para os sumerianos?

Foram absorvidos, tais como os tunguses pelos chineses, os etruscos pelos romanos, os vênedos pelos germanos. Ao atin¬girem o apogeu de sua civilização, foram os sumerianos substi¬tuídos pelos semitas, vindos da Arábia, os quais se fixaram no país de Acádia. Sargão I, personagem histórico, tornou se uma figura legendária. Criador do reino de Acádia, fundou Sargão uma dinastia que se manteve de 2.350 a 2.150, antes de J.C. O rei era deificado e seu reino uma teocracia. A dinastia semita contou vários soberanos capazes: Sargão I, seus filhos Rimus e Manistusu e seu neto, Naranisin.

Sargão teve como pai um tal La'ipu e como mãe uma sacer¬dotisa. Segundo a lenda sumeriana, depois de haver colocado o recém nascido num cesto de vime tapado com barro, sua mãe confiou o menino à corrente do Eufrates e voltou ao san¬tuário onde oficiava. Um jardineiro, de nome Akki, encontrou o jovem Sargão, criou o e fez dele o copeiro de Ur Zabatan, rei de Kisch. Um dia, cansado de levar a taça aos lábios do rei seu amo, apoderou se Sargão do trono. Derrotou Lugal¬zaggisi e mandou o expor numa jaula, em Nipur, diante do templo de Enlil. Depois de ter conquistado todo o país da Suméria, ao chegar às margens do Golfo Pérsico, lavou Sargão suas mãos nas águas do mar. Mais tarde, tornado senhor da Anatólia, fundou o primeiro grande império da história.

Um novo povo, o dos Guti, destruiu o império semita de Acádia, que formou daí por diante um mosaico de cidades-¬Estado. Em Lagash, onde reinava uma dinastia sumeriana, o rei Gudéa detinha o poder; estátuas de diorita, que represen¬tam esse soberano, estão conservadas no Louvre e em outros museus.

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O texto conta que o rei Ur Nammu demitiu funcio¬nários prevaricadores, reformou o sistema dos pesos e medidas e preocupou se em melhorar a sorte das viúvas, dos órfãos e dos pobres. “O homem que possui um siclo não deve ser a vítima do homem que possui uma mina (60 siclos). O que corta o pé de outrem expõe se a uma multa de 10 siclos. Que¬brar os ossos de seu próximo custa uma mina de prata. Mas quebrar nariz de outrem só custa dois terços de uma mina." O professor Kraminer tem razão em afirmar que essa coleção de leis está baseada em um código anterior.

O célebre código de Hamurabi, fundador da dinastia amorita de Babilônia, é posterior de três séculos ao de Ur Nammu. Hamurabi reinou 42 anos; data de seu reinado a fusão dos sume¬rianos e dos semitas que, daí por diante passaram a formar um só povo, o dos babilônios. O domínio dos semitas sobre o "país entre os rios" estava definitivamente assegurado.

A história sumeriana mergulhou pouco a pouco no esque¬cimento até o dia em que as escavações lhe revelaram a existência.

Fonte: Assim viviam nossos antepassados
Autor: Ivar Lissner
Página: trechos extraidos da obra
Edição: 5ª edição em português
Observações: Editado pela Livraria Itaiaia Ltda.


A babilônia teve seu apogeu entre 1.750 e 562 a.C. Dois reis, Hammurabi e Nabucodonosor, se destacaram; seus reinados coincidem com o início e com o fim do período mais próspero da Babilônia.


BABILÔNIA


O que foi a Babilônia e a Assíria corresponde ao Iraque atual; Iraque significa: “País das Costas”. Foi sobre as aluviões do Tigre e do Eufrates que se criou uma grande civilização e que se fundaram cidades florescentes. Ali se situa a origem da história do Ocidente.
Outrora, o Tigre e o Eufrates tinham cada um sua embocadura, mas, com o tempo, o volume dos aterros foi tal que os dois estuários se confundiram; os dois rios lançam-se agora no Golfo Pérsico a cento e cinqüenta quilômetros mais a sudeste do que na época de Babilônia e de Assur. Essas aluviões não encerram vestígio algum, mas o "pais entre os rios" contém nos com tal quantidade que serão precisos séculos para esgotar as riquezas que dormem sob seu solo.
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Nesse deserto, nada rompe a monotonia da paisagem; nenhuma coluna, nenhuma cúpula se eleva naquela sombria solidão.

Cidades e monumentos foram reduzidos a pó. São raposas seus principais habitantes e somente o ladrido sinistro do chacal perturba por vezes o silêncio. E, no entanto, sabem os arqueólogos que essa terra ingrata oculta em seu subsolo milhares de casas e de túmulos de que ninguém jamais desvendou o segredo; por toda parte, valados, montículos, marcam a localização das cidades e povoações desaparecidas. As cidades são como as criaturas; nascem, vivem e morrem. Os materiais de que são feitas esboroam se e acumulam se. No sitio ocupado por uma cidade destruída, nova cidade se funda que, por sua vez, pros¬pera e periclita. Cada vez o montículo se alteia mais. Em conseqüência da superposição das camadas estratigráficas as escavações devem ser conduzidas com o maior cuidado. E tanto mais isto quanto, freqüentemente, o amontoado de escombros serviu de subestrutura a uma aglomeração moderna. Todas as civilizações estão destinadas a reduzir se a pó; chega um momento em que o edifício demasiado perfeito vem abaixo.

Quando uma civilização atinge seu apogeu, esquecendo as virtudes guerreiras, preocupam se os homens com o próprio conforto; vivendo em paz, tratam de aproveitar das vantagens que ela proporciona. Todas as vezes, surgida de alguma parte, uma horda de saqueadores ou de conquistadores devasta tudo à sua passagem e põe fim a essa prosperidade. Assim tem sido desde o aparecimento do homem na terra.

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Os viajantes que, há três mil anos, se dirigiam para a Babilônia avistavam ao longe um imenso edifício erguido para o céu: um ziggurat, isto é, uma torre com andares. No alto se encontrava um templo; o interior era ocupado por uma mesa de ouro maciço e por um leito magnificamente decorado; todas as noites, uma mulher jovem ali se estendia, à espera da visita do deus supremo. Segundo a Bíblia, esse ziggurat: teria sido a torre de Babel, descrita no primeiro livro de Moisés; eleva¬va se, dizem, ate o céu. Mas, se tal foi o projeto dos que a edificaram, jamais o realizaram; todas as vezes que os homens tentaram chegar às esferas celestes, foram vítimas de sua ambição. Finalmente, os deuses de babilônia tiveram de inclinar-se diante de Jeová, deus de Israel. Ao sul do grande ziggurat elevava se o gigantesco templo de Marduque; a seu sopé estendia se Babilônia, atravessada de largas avenidas e de barulhentos becos onde se misturavam odores fétidos e perfumes de mirra. A multidão se comprimia nos bazares. Flanqueada de cento e vinte leões, uma estrada sagrada levava ao arco de Ishtar.

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Hammurabi deixou uma extraordinária compilação de leis conhecida pelo nome de Código de Hammurabi; foram lhe diz ele, reveladas pela divindade suprema. Numa das faces da estela em que estão gravados os parágrafos, vê-se o rei recebendo as leis das mãos de Chamach , deus do Sol e da Justiça. Essa estela é uma das obras capitais do Museu do Louvre. Mas Hammurabi foi também um grande construtor e um grande chefe guerreiro.

Com Nabucodonosor, começa a decadência de Babilônia; conquistou todos os países do Oriente Médio até o Egito e fez de sua capital urna das maravilhas do mundo. Deve se lhe o estabelecimento duma rede de canais de irrigação; as águas do Tigre e do Eufrates permitiram a valorização de terras até então áridas. Secos desde séculos, podem esses canais ser facilmente identificados dos ares.

Mas, nos derradeiros anos de seu reino, embriagado pelo exercício do poder, mergulhou Nabucodonosor numa estranha loucura: pensando ser um animal andava de quatro pés, urrava e comia capim como um bicho.

Seu sucessor, Nabonid, foi mais um sábio que um rei guer¬reiro; apaixonado pela arqueologia, passava seu tempo a estudar a civilização sumeriana.

O livro de Daniel, no Antigo Testamento, fornece numerosos pormenores a respeito do monarca que subiu ao trono de Babilônia, após a morte de Nabonid. Esse rei, Baltazar, é o símbolo da impotência e da corrupção que levaram à sua perda a dinastia babilônica; foi ele que viu, escritas em letras de fogo, nos muros de seu palácio, as três palavras fatídicas: "Mané, thecel, pharés", que anunciavam seu fim. Morreu, assassinado, na noite que se seguiu à aparição.

Durante séculos, os assírios disputaram aos babilônios a supremacia no Oriente Médio; as planícies e as montanhas que orlavam o curso superior do Tigre eram sua pátria. As pilhagens, os incêndios e os massacres imputáveis aos assírios são certamente as piores malvadezas cometidas desde que o homem apareceu na terra. Assurbanipal, Teglatfalazar e Sermaquerib foram os maiores soberanos assírios; esses con¬quistadores ignoravam o perdão e a compaixão. Para reprimir uma revolta, Sermaquerib mandou arrasar oitenta e nove cida¬des e oitocentas e vinte aldeias e deportou duzentos e oito mil habitantes,

Tendo se apoderado de Babilônia que se insurgira, queimou a ate os alicerces; homens, mulheres, crianças, velhos foram mas¬sacrados. Montes de cadáveres atravancavam as ruas, a ponto de não poderem os raros sobreviventes fugir por ocasião do incêndio que destruiu a cidade.

Como nossas grandes cidades, era Babilônia cercada de subúrbios; esta passagem duma carta dirigida por um "subur¬bano" a Ciro dá o testemunho disso: "Nossa propriedade parece me a mais bela do mundo, porque esta bastante perto de Babilônia para podermos aproveitar nos das vantagens da grande cidade; de volta para casa, estamos entretanto longe da agitação e da poeira".

Em Babilônia, como em todas as civilizações antigas, o escra¬vo estava na base da organização social; uma mulher valia de mil e seiscentos a vinte mil francos, um homem de mil e seiscen¬tos a trinta mil. Propriedade de seu amo, vivia o escravo à sua mercê; as mulheres acreditar se iam desonradas se não tivessem filhos dele. Por outro lado, o senhor era obrigado a tratar de seus escravos e a prover lhes a subsistência, se caiam doentes ou se, quando velhos, não podiam mais trabalhar. Para recompen¬sá los de seus leais serviços, certos proprietários os emancipa¬vam, mas os escravos que se aproveitavam dessa liberdade, geradora de insegurança, eram a exceção. Os outros procria¬vam; e em resultado houve mais escravos que homens livres. A existência dessa massa servil foi o elemento que provocou a ruína da sociedade babilônica.

As leis notavam se pela sua moderação; em regra geral, apli¬cava se o princípio da reparação, isto é, infligia se ao culpado um castigo idêntico ao dano sofrido pela vitima. Se uma casa vinha abaixo, esmagando seu proprietário, o arquiteto era con¬denado à pena capital; quebrar um braço ou perna de outrem, era expor se a ter a perna ou o braço quebrado por autoridade judiciária. Se um homem matava uma mulher, a filha do assas-sino era também morta. Mais tarde, a reparação foi substituída pela compensação. As penalidades que atingiam os ricos e os nobres eram mais severas que as que sancionavam os delitos cometidos pelos pobres. Concebe se que, nessas condições, a situação dos médicos não era nada invejável; quando, durante uma operação, o doente passava da vida para a morte, corta¬va se a mão do cirurgião. Acusar alguém sem razão custava caro, se se viesse a provar que o acusador mentira.

Fonte: Assim viviam nossos antepassados
Autor: Ivar Lissner
Página: trechos extraidos da obra
Edição: 5ª edição em português
Observações: Editado pela Livraria Itaiaia Ltda.


EGITO


Segundo os pesquisadores Scharff e Hall, a história do Egito se iniciou em torno do ano 3.000 a.C. Os egípcios talvez sejam o povo que mais despertou a curiosidade das pessoas até os dias de hoje.



Trinta dinastias se sucederam no trono dos faraós, de 2.850 a 332 antes de J. C., até o dia em que Alexandre, o Grande, esta¬beleceu seu domínio sobre o Grande Egito. O ilustre historiador Eduardo Meyer faz remontar o começo da primeira dinastia a 3.200 antes de nossa era. Estima se que Menés, fundador da primeira dinastia, tenha reinado aí por 2.850 antes de J. C.; seu reinado coincide com o começo da história egípcia que durou três mil anos. De fato, o que se chama o "período histórico" resulta duma classificação arbitrária porque, dois mil anos mais cedo, já eram os egípcios civilizados.

Quinze, vinte ou trinta mil anos antes do começo da história egípcia, estava o homem estabelecido nas alturas que dominam o vale do Nilo, onde se estendiam vastos mangues. Qual era seu aspecto? Ninguém o sabe; só se conhecem os seus uten¬sílios. E esses utensílios, de pedra, os mais antigos que se conhecem, são em toda parte os mesmos. Pouco importa que tenham sido encontrados no vale do Nilo, nos desertos que o bordam, na África do Norte ou na Europa Ocidental, há trinta mil, cinqüenta mil ou mesmo oitenta mil anos, o "homo -sapiens", habitante da Euro África, tinha uma só e mesma civilização.

Para o meado do paleolítico há cerca de quinze mil anos o habitante do Egito e da África do Norte desenvolveu a técnica do sílex, criou utensílios de pedra, característicos da cultura norte africana. Mas no fim do paleolítico, entre 1.2000 e 5.000 antes de J. C., o mundo mediterrâneo perdeu sua misteriosa unidade cultural.

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A existência três vezes milenar do Egito é um magnífico exemplo da tenacidade e da atividade civilizadora. Esse ciclo de três mil anos se encontra igualmente na história dos outros povos; seu ponto de partida é sempre a invenção da escrita. Aos períodos de prosperidade sucedem se épocas de dominação estrangeira. Vencido, o povo é submetido ao mestiçamento, depois, pela metade do ciclo histórico, sofre uma ditadura civil ou militar. Retomba no abismo, conhece de novo um período florescente e sua história termina após três mil anos de existência. Tal foi a duração da civilização helênica; come¬çou em 1.400, antes de J. C. e seu fim coincidiu com a tomada de Constantinopla por Maorné II, em 1.453. A civilização oci¬dental européia ou euro americana de que a batalha dos Cam¬pos Catalaunicos (451 depois de J. C.) marca o começo, teria, pois, chegado ao meio do ciclo fatídico; a era atual seria a da ditadura. Em outros termos, a situação do Ocidente lembra a do Egito no fim do Médio Imperio. Guerras e destruições nos ameaçam, precedendo um período de renovação e de prosperidade. Mil e quinhentos anos separam a Europa do abismo e da decadência. O Egito produziu personagens notáveis: soberanos cruéis ou bonachões, tiranos ou reis humanos, conquistadores ou espíritos esclarecidos apaixonados pela arte e pela literatura, tais como Nebkaure, Sesóstris I e Amenófis IV.

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Durante dez anos, governaram juntos o Egito. Amenemhat I era um adorador de Amon, o deus de Tebas, cujo nome ele trazia. Morreu assassinado e seu filho proclamou num res¬crito: "Sê duro para com teus súditos: o povo só obedece àqueles que fazem uso da força. Não traves amizade com quem quer que seja e não faças de ninguém teu irmão. Não tenhais confiança em amigo algum. Quando te deitares, manda guardar a porta; no momento do perigo, o homem não tem mais amigos". Estes conselhos figuram no célebre papiro Millingen. Seu autor, Sesostris, põe estas palavras na boca de seu pai Amenemhat.

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As grandes civilizações são outras tantas ilhotas perdidas no oceano da barbárie. O homem vive no presente; sábios, artistas, escritores e aqueles para quem a liberdade prima acima de tudo, não apreciam plenamente os benefícios da paz, senão quando já é demasiado tarde. Tal foi o caso dos egípcios quando, em 1.675 antes de J. C., seu país foi invadido por nômades vindos da Ásia. Como os Cassitas que, alguns anos antes, se tinham apoderado de Babilônia, como os romanos que conquistaram a Grécia, os hunos a Itália e os mongóis Pequim, os hicsos esta¬beleceram seu domínio no vale do Nilo. Quem eram esses conquistadores?

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Se os hicsos conseguiram apoderar se do Egito, a desordem que ali reinava desde muito tempo favoreceu suas empresas; instalara-se essa desordem um meio século antes. No fim da duodécima dinastia, fazia se sentir a ausência de autoridade; sem cessar, os chefes militares tentavam assenhorear se do poder e o Egito, impotente, era uma presa sonhada para invasores. É uma lei da história que os conquistadores instalados num vale fértil mergulhem pouco a pouco na ociosidade, esgotando-se-lhe a energia. Sob os derradeiros soberanos da décima sétima dinastia tebana, os egípcios se sublevam e após uma guerra de libertação, põem os faraós da décima oitava dinastia para fora e fundam um poderoso império.

Uma mulher, a rainha Hachepsut, imprimiu sua marca nesse período da história egípcia; reinou de 1.501 a 1.479 antes de J. C. Como era de tradição que os monarcas egípcios descen¬dessem do deus Amon, Hachepsut contornou a dificuldade e fez se proclamar de sexo masculino e de descendência divina. Nas pinturas e esculturas, fez-se representar vestida de homem e trazendo barba. Embelezou e aumentou o templo de Car¬naque que ornou de dois imponentes obeliscos; em Der el¬Baliri, construiu um magnífico mausoléu. Por fim, fez o que seu pai e seu avô tinham sonhado realizar, cavando uma tumba nas montanhas...

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O irmão de Hachepsut, Tutmés III, foi o fundador do grande império egípcio que se estendeu do Sudão até o Eufrates.

Foi o maior soberano da época. Casado muito moço com sua irmã, teve Tutmés a principio de abandonar o poder à ambi¬ciosa Hachepsut. Mas, ao tornar se maior, mandou Tutmés assassinar sua mulher e seu amante Senmut e fez desaparecer o que evocasse lembrança de sua "irmã bem amada". Por tanto tempo recalcados, a energia e o dinamismo de Tutmés III viram se de súbito libertados; conquista a Palestina e a Síria até o Eufrates. A narrativa de suas campanhas guerreiras duraram dezesseis anos está gravada na pedra, nos muros do templo de Carnaque.

Amenófis II, seu sucessor, grande caçador e atirador de arco, sufocou no sangue a revolta síria. Esse faraó não era terno para com seus inimigos. A crônica relata que levou a Tebas sete reis asiáticos acorrentados. Seis foram enforcados nos muros da cidade e o sétimo em Napata, cidade situada ao sul da capital. Atribuem lhe numerosos atos de bravura, mas não é duvidoso que, durante os vinte e seis anos que durou seu reinado, tenha sabido cuidar de sua reputação.

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Pouco depois de 1.400 antes de J. C., Amenófis III pôs na cabeça a tiara; sob seu reinado, o império atingiu o apogeu de sua riqueza e de seu esplendor. A irradiação de Tebas era comparável à da Paris de nossa época. Seus mercados viviam cheios dos produtos do mundo inteiro e seus edifícios ultrapas¬savam em magnificência os de todas as capitais conhecidas.

Dezenas de reinos vassalos pagavam tributo ao faraó e os soberanos dos grandes impérios do Médio Oriente: Mitarmi, Assíria, Babilônia e o reino hitita enviavam suas filhas para o harém de Amenófis e se glorificavam pela aliança egípcia. Nos templos de Tebas, os tesouros e o ouro se amontoavam. Cidades magníficas, palácios suntuosos, lagos artificiais eclipsa¬vam pelo seu esplendor tudo quanto o mundo tinha visto em matéria de luxo e de elegância. Amenófis III mandou construir o templo de Lucsor e esculpir os colossos de Meirmon que continuam a montar guarda, de rosto voltado para Tebas, diante do imenso mausoléu, agora desaparecido, daquele faraó.
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Por muito tempo os egiptólogos perguntaram a si mesmos em que idade morrera Tut ank Amon. Por ocasião da descoberta de seu túmulo, em 1922, seu nome se espalhou pelo mundo inteiro. Abrindo o sarcófago, Carters verificou que continha um segundo; desembaraçaram no com mil precauções; cobria um ataúde de ouro puro cuja forma acompanhava a da múmia do faraó. E comprovou se que essa múmia era a dum jovem de dezoito anos.
O traidor e conspirador da época se chamava Eje; alto funcionário e padre de Amon, conspirava já no reinado de Equenaten e conseguiu finalmente subir ao trono. Mas não teve tempo de gozar do poder. Seu adversário, Horemheb, comandante do exército do Baixo Egito, impediu o. Depois de ter em vão tentado, durante quatro anos, assassinar Eje, conseguiu desem¬baraçar se de seu rival e pôr na cabeça a tiara dos faraós. A história egípcia sugere uma comparação: a do oceano no qual se afoga.

O viajante que visita o Egito ouvirá muitas vezes o grito: “Ramsés voltou!” Ramsés II, egocêntrico e monômano, fez se representar, sempre que pôde, nos monumentos do Egito. Quase a metade das ruínas são as dos edifícios construídos em seu reinado. Terminou a grande sala de Carnaque, aumentou o templo de Lucsor, elevou um grande santuário, o Rames¬seum, que traz seu nome, mandou erigir estátuas colossais de sua efígie, em todo o território e restaurou o canal, do Nilo ao Mar Vermelho. Teve várias centenas de mulheres, o que aliás não surpreende os egípcios, uma vez que não fazia senão imitar seus predecessores. A tradição refere que teve cem filhos e cinqüenta filhas; algumas se tornaram mesmo esposas de seu pai, o que, no Egito, era conforme aos usos. Depois de um longo reinado de sessenta e sete anos, morreu Ramsés com a idade de noventa anos. Um século mais tarde seu nome era odiado e a dinastia que fundara se extinguiu com seu sucessor. Mas sua múmia se conservou praticamente intacta; 67 anos de reinado, 90 anos de existência e 3.000 anos de permanência nas profundezas de uma tumba mal alteraram as feições desse faraó.

Sob esse reinado de Ramsés III, o poder e a riqueza do clero de Amon aumentaram em proporções consideráveis. Os celeiros clericais regurgitavam de trigo; um exército de 107.000 escra¬vos servia os padres de Amon. Abstração feita dos exageros habituais, essa cifra de 107.000 escravos corresponde à expres¬são antiga: "havia muitos". E, admitindo que a cifra da popu¬lação egípcia tenha sido de 5 a 6 milhões, um homem dentre cinqüenta ou sessenta egípcios era escravo do clero. O Museu Britânico possui um documento, o papiro Harris; é o mais longo texto egípcio conhecido: mede 40,5 metros de compri¬mento. Muito bem conservado, contém a enumeração porme¬norizada dos presentes e dos dons feitos pelo faraó Ramsés III aos templos egípcios. Disso ressalta que a sétima parte das terras aráveis pertencia a Amon e a seu clero: este era, além disso, proprietário de 169 cidades do Egito, da Síria e do país de Kuch, de uma frota de 88 navios, e de 500.000 cabeças de gado.

O número dos dias feriados era igual ao dos dias de trabalho; dessa situação tirava o clero de Amon substanciais benefícios. De fato, os faraós eram rebaixados ao lugar de criados dos servidores dos deuses; o poder e o prestígio reais decresciam à medida que aumentava o poder do clero. A situação de Ramsés era cada vez mais precária e o faraó teve de apelar para mercenários estrangeiros a fim de defender o Egito. A tentativa de assassinato de que foi vítima o soberano é carac¬terística do estado de espirito que reinava então; foi urdida a conspiração, como acontece freqüentemente no Oriente, no harém real. Uma das favoritas tencionou pôr a tiara na cabeça de seu filho; aliciou as mulheres de seus oficiais que guarda¬vam a entrada do harém e persuadiu os a atentar contra a vida de Ramsés. Os conjurados asseguraram se em seguida o con¬curso de personalidades influentes. Mesmo depois da desco¬berta da conspiração, quando Ramsés dera ordem de castigar os culpados, conseguiram as mulheres do harém, se bem que acusadas, corromper dois juizes e conquistá los para sua causa. Processados, tiveram os juizes o nariz e as orelhas cortados. Um deles suicidou se; trinta e dois dignitários e altos funcionários foram solicitados a seguir lhe o exemplo. Mas Ramsés III sobreviveu pouco tempo à conspiração urdida contra ele e morreu em 1.167 antes de J. C. Sintomas alarmantes: domínio clerical, intrigas de serralho, conspirações e invasão do país por estrangeiros eram os sinais precursores da ruína do Egito.

Os líbios, os assírios, os etíopes invadiram no, depois os persas, conduzidos por Cambises. Alexandre fez do Egito uma província do império macedônio. César, em 48 antes de J. C., apoderou se de Alexandria, a capital; de seu idílio com Cleó¬patra nasceu um filho que jamais subiu ao trono do Egito. Tornado simples província romana, foi o celeiro do império. O poder do Egito e sua história três vezes milenar não eram mais que uma recordação. Deles só restam pirâmides, templos, hipogeus, estátuas reais de calcário, de alabastro, de diorita, afrescos, inscrições, rolos de papiro.

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A metalurgia, a arquitetura, o trabalho da pedra foram aper¬feiçoados pelos egípcios; deve se lhes a coluna, a organização clerical e civil que os romanos adotaram ulteriormente, a cria¬ção de um corpo de funcionários, a invenção do vidro, do calendário, da clepsidra, da geometria, do pano, da adminis¬tração postal e progressos importantes nos domínios da astro¬nomia e da medicina. E isto numa época em que a maior parte da humanidade errava ainda pelas florestas e pelas estepes. A escultura e a pintura egípcias atingiram um grau de perfeição jamais alcançado depois. Por intermédio dos fenícios, dos sírios, dos judeus, dos cretenses, dos gregos e dos romanos, a civilização egípcia tornou se parte integrante do patrimônio da humanidade.

Tudo quanto faz a grandeza da civilização egípcia, sua arte prestigiosa, a energia desenvolvida pelos faraós, o talento dos artistas e dos artífices, a concepção tipicamente egípcia da existência, as relações secretas existentes entre o Nilo e a população ribeirinha, passou; esse período, único na história da humanidade, não se reproduzirá nunca mais. O Egito é o cenário em que se representou o drama de uma civilização, a maior das que floresceram em nosso globo; tendo atingido quase o zênite, ainda não retombou em pó.

Provinda da alma humana, nascida duma autêntica crença, essa civilização foi a vida; por isso é que foi tão duradoura e tão grande.

Quem diz morto, diz separação da alma e do corpo. Mas os egípcios acreditavam que, por ocasião da inumação os padres evocavam a alma e esta se juntava ao corpo, de novo. Em vista dessa união era, pois, indispensável assegurar a conser¬vação do cadáver; assim, se explica que tenham os egípcios embalsamado milhões de defuntos, e não somente seus faraós, mas todos aqueles que fossem bastante ricos para pagar as despesas de um embalsamamento.

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Os túmulos continham tesouros e riquezas inestimáveis, a tal ponto que se é levado a perguntar por qual milagre suportou o Egito por tanto tempo semelhante desperdício.

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Por ocasião dos banquetes, faziam se os egípcios untar e coroar de flores por escravos; o vinho e a cerveja eram bebidas favoritas. Uma inscrição compara convivas ébrios a “Um leme quebrado que não obedece nem dum lado, nem de outro” e um afresco contemporâneo do Novo Império mostra uma mulher da boa sociedade em ponto de vomitar. Uma criada, com um vaso na mão, precipita se para ela.

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Nas ruínas de certas escolas egípcias encontraram se cadernos de escolares sob forma de rolos de papiros. Os castigos corpo¬rais estavam na base da disciplina escolar. Um aluno confessa por exemplo a seu mestre: "Porque me batestes, vosso ensino penetrou me nas orelhas." Num outro rolo, lêem se estas frases: " O menino tem uma parte sensível. Presta atenção, quando se bate nela".

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Entre os textos egípcios referentes à medicina, dois: "o grande papiro" do museu de Berlim e o "Papiro Ebers", que se encon¬trava outrora na biblioteca de Lipsia, são reveladores. Os médicos egípcios já tinham estudado o esqueleto e o sistema sangüíneo, as funções do coração, do estômago e do baço. Não se lê que "o coração fala nos vasos de todos os membros?” Velho de três mil e seiscentos anos, um dos textos médicos mais notáveis figura num papiro, ao qual se deu o nome daquele que o descobriu, o inglês Eduino Smith; o rolo mede cinco metros de comprimento. Quarenta e oito operações cirúrgicas são enumeradas e disso ressalta que os médicos egípcios conheciam o papel motor do cérebro. Eram os egípcios afligidos pelas mesmas doenças que nossos contemporâneos; todavia, não se encontra nenhuma menção da sífilis ou do câncer. A cárie dentária, "produto" da civilização, parece só ter aparecido no curso dos derradeiros séculos da história egípcia. Em contra-posição, a atrofia do dedo mínimo do pé é assinalada desde a época mais longínqua; andando os egípcios de pés descalços, esse defeito não pode, pois, ser imputado ao uso do calçado. Outro papiro, o "papiro Ebers", enumera setecentos medica¬mentos; setenta são remédios contra as oftalmias, que parecem ter sido muito difundidas na época. A composição de alguns desses remédios é pelo menos esquisita e a farmacopéia egípcia utiliza curiosos "ingredientes": excrementos humanos e animais, urina, etc. Para estancar uma ferida, aplicava se uma pomada à base de cera, de gordura, de vinho de palmeira, de mel e de trigo cozido.

Nas tumbas encontraram se estojos completos de farmácia. O tratamento contra a calvície consistia em friccionar o couro cabeludo com gordura animal. Tomavam os egípcios o maior cuidado com sua saúde e, segundo Diodoro da Sicília, diziam: "A maior parte da nutrição absorvida é supérflua; um quarto do que comemos basta para nutrir o corpo. Os três outros quartos servem para engordar os médicos". Heródoto relata por sua parte: "Depois dos líbios, são os egípcios o povo mais sadio que existe”.

Serviam se os egípcios de seus dedos para comer, como, aliás, os contemporâneos de Shakespeare.

Para salvaguardar a pureza do sangue real, o costume obri¬gava o faraó a casar se com sua irmã. Esse costume produziu, sem dúvida o efeito contrário, mas, aparentemente, os egípcios não deram mostra de se ter preocupado com isso. Dois séculos depois de Jesus Cristo, três quartos de casamentos celebrados na cidade de Arsino eram uniões consangüíneas. No Egito, as palavras "irmão" e "irmã" designavam igualmente o amante, a amante. Além de suas esposas possuía o faraó um harém, as moças da nobreza e as cativas de guerra faziam parte dele.

Entretanto, a maioria dos egípcios praticava a monogamia e sua vida familiar assemelhava se à nossa. O divórcio era raro e a condição da mulher lembrava a de nossas contemporâneas.

Em nenhum povo da Antigüidade, possuía a mulher os direitos que a lei concedia à egípcia. Os viajantes gregos, para quem a liberdade da esposa estava excluída, ficavam estupefatos diante dos privilégios concedidos as mulheres egípcias. Dio¬doro da Sicília (primeiro século depois de J. C.) relata, não sem indignação, que, naquele país, o contrato de casamento obrigava o marido a obedecer à sua esposa. Mais ainda, era a mulher quem cortejava o homem e quem lhe propunha casa¬mento! Algumas egípcias revelavam, aliás, a mais elementar falta de tato, notadamente aquela que, numa carta, assim se exprime: "ó meu belo amigo; meu desejo é tornar me tua mulher e dona de todos os teus bens".

Tinha se o sangue quente nas margens do Nilo; aos dez anos, as meninas eram núbeis e as relações pré maritais conside¬radas como normais. Uma cortesã, relata a tradição, pôde mesmo fazer edificar uma pirâmide com o montante de seus ganhos.

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Um poema, de quatro mil anos, faz alusão ao caráter efêmero e à fragilidade da existência.
"Ninguém voltou do outro mundo para dizer qual era a sua sorte... Goza da vida. Não deixes a tristeza estragar te a vida. Vê! Ninguém leva para o túmulo o que possui e nenhum dos que morreram jamais voltou".

Enfim, um poema de amor exprime sentimentos eternos: "Ouvir tua voz perturba me o espírito. Minha vida inteira está suspensa de teus lábios. Ver te é melhor para mim que comer ou que beber".

Fonte: Assim viviam nossos antepassados
Autor: Ivar Lissner
Página: trechos extraidos da obra
Edição: 5ª edição em português
Observações: Editado pela Livraria Itaiaia Ltda.








ANATÓLIA



O império hitita, pouco conhecido na história dos povos antigos, deixou alguns vestígios, mas ainda se constitui num mistério para os pesquisadores da atualidade.

Há muitas raças que desapareceram do mundo e cujos nomes conhecemos, mas cuja história e cuja cultura são ainda um mistério para nós. Há cerca de 4.000 anos, no planalto anato¬liano, no coração do que é hoje a Turquia, viveu uma raça que só foi redescoberta na volta do século. Hattusas, sua capital, jaz a algumas centenas de milhas a leste de Ancara, perto da moderna cidade de Boghazköy.

Os hititas, que desempenharam papel relativamente breve no palco da história mundial, tem, não obstante, grande importância para nós, pois nos legaram os mais antigos documentos, escritos numa língua indo européia, até hoje descobertos. De cerca de 1.800 a 1.200 antes de Jesus Cristo, governaram a região da grande curva do Rio Kizel Irmar, que deságua no Mar Negro e era pelos romanos chamado o Halys. Penetraram profundamente até o leste, o sul e o oeste, e depois desceram, como tantos outros antes deles, ao negro esquecimento de povos que coletivamente formam a história da humanidade.

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Gente estranha esses hititas, estranha porque ainda não sabemos muita coisa a seu respeito e porque são bem diferentes daqueles outros povos antigos que se nos tornaram familiares nestes últimos cem anos. Seus próprios baixos relevos mos¬tram nos como baixos e entroncados, de ossos proeminentes, frontes fugidias, nariz comprido, ligeiramente curvo como um bico de papagaio e queixos curtos. Usavam mantos compridos sobre túnicas curtas, altos bonés cônicos, sapatos ou mocassins de bicos revirados. Como se vê no alto relevo da chamada Porta do Rei em Boghazköy, usavam seus soldados um saiote com cinturão e um capacete com peças sobre as orelhas e car¬regavam uma espada curta e uma acha de armas. Tomaram seus deuses de Babilônia e também seu sistema de escrita. Esculpiam baixos relevos em maciços blocos de pedra nas fachadas de seus palácios e templos e também nas faces de remotos penhascos. Sua história, até onde a conhecemos pre-sentemente, começa cerca de 1.900 antes de Cristo, num tempo em que os cretenses já haviam iniciado o palácio, em Knossos e os faraós da XII dinastia governavam o Egito. Achavam se então os hititas divididos em pequenas cidades independentes sob reis locais, mas gradativamente foi o país unificado sob um só governante. Quatrocentos anos mais tarde derrama¬ram se de seu planalto montanhoso sobre a região do sul e tornaram vassalos seus os pequenos reis da Síria e da Palestina, ameaçando assim o Egito. Tutmósis III derrotou os e rechaçou-os para o norte. Mas os hititas se recompuseram e conti¬nuaram a enfrentar o Egito como a um rival igual e poderoso, por muitos anos.

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A cidade e provavelmente o protótipo indo europeu de todas as cidades fortificadas européias. A cidadela Buyukkale, que Hattusas continha, era o local preferido de residência dos soberanos do império hitita e seus muros achavam se tão estreitamente integrados na rocha sobre o qual estava cons¬truída que devia ter sido virtualmente inexpugnável. As poderosas muralhas da cidade encerra¬vam quatro templos mais, quarteirões residenciais cujas casas de tetos rasos erguiam se em terraços subindo as ladeiras íngremes, torres sólidas, portões grandiosos, um túnel secreto cavado na rocha para sortidas contra o inimigo em tempo de guerra, lances de degraus a pique, poternas e ruas pavimen¬tadas. A habilidade com que foi a cidade situada sobre a paisagem, justifica o ser encarada como um exemplo de adian¬tada técnica construtiva. Na opinião de Bittel, a natureza alcantilada e elementar daquela arquitetura e a impressão que causa de unidade orgânica com a região penhascosa que a cerca tornam na algo de único. Os que lhe deram origem trou¬xeram consigo para o Oriente sua própria concepção individual do mundo. As escavações claramente mostram que Hattusas foi o centro dum vasto império. Milhares de mãos ajudaram a construir a cidade, milhares de pedreiros, de operários e de artífices. Muros, seteiras e torreões todos se enquadram na paisagem. Penhascos inteiros e trechos de encostas de montanhas foram removidos, buracos cavados na rocha, blocos de pedra ajusta¬dos com tarrachas de metal e profundas aberturas terraple¬nadas. Acontecesse o que acontecesse, a muralha (de 17 e meio pés de espessura em torno da cidadela) deveria constituir uma fortificação inexpugnável.

Dentro da cidadela encontraram os arqueólogos o edifício que abrigava os arquivos, Aqui foram descobertas 3.294 tabuinhas de barro e fragmentos literários. Talvez tenham sido essas tabuinhas conservadas em caixas de madeira como as de Amarna. São lisas de um lado de modo a serem facilmente usadas e muitas trazem inscritas relações de bens reais.

Foram encontrados muito poucos túmulos dos tempos hititas. No canto de uma casa, os escavadores desenterraram os ossos de uma moça muito jovem, trazendo um brinco de ouro, del¬gado e chato, na orelha e um fino bracelete de bronze em cada antebraço. Perto dum fogão encontrou se o esqueleto de um adulto completo, deitado do lado esquerdo com as pernas encolhidas. Infelizmente seu crânio estava esmagado e muito poucos restos de seus ossos estavam intactos. Outro túmulo, contendo também muito poucos ossos conservados, pertencera a uma criança. A antropóloga alemã Sofia Ehrhardt dedicou acurados estudos à maxila inferior dessa criança, de treze a catorze anos de idade, mas o precário estado de quase todos os esqueletos hititas torna os quase imprestáveis para fins de pesquisa antropológica. Os hititas por vezes enterravam seus mortos dentro de suas casas, mas praticavam também a cremação.

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Teve esse gigantesco monumento da indústria humana certamente um fim violento. Onde quer que Bittel e seus colegas cavassem, tanto nos quarteirões residenciais quanto nas mura¬lhas de Yazilikaia, encontravam traços duma devastadora conflagração. Todo objeto combustível fora destruído, toda alvenaria fundira se em virtude dum intenso calor, numa massa vermelha, dura, como escória e a pedra calcária reben¬tara ou lascara. Acredita Bittel que os edifícios não teriam normalmente contido bastante material combustível que jus¬tificasse tamanho grau de calor. Na sua opinião, alguma inter¬venção humana havia intencionalmente alimentado as chamas, algum inimigo não identificado que havia assaltado o lugar durante a emigração egéia, trazendo consigo materiais infla¬máveis. Nem uma casa, nem um templo, nem uma cabana escapara às chamas que tudo consumiam e em parte alguma encontraram os escavadores indício da mais simples tentativa de reconstrução da cidade durante a era hitita. Muitos dos habitantes devem ter sido massacrados, outros foram previamente aprisionados e vendidos como escravos e os remanes¬centes fugiram para a Síria setentrional. De 1.200 antes de Cristo em diante permaneceu a cidade abandonada ao silêncio da morte.

Donde vieram os hititas? Por qual estrada alcançaram o Halys? Que cultura traziam consigo? Que escrita usavam? E até onde podemos chegar seguindo a pista de sua história pregressa?

O Rei Anittas vivia num lugar chamado Kussara e nos conta que seu pai Pitkhanas conquistou a cidade de Nessa (Kussara e Nessa podem ter existido na Anatólia oriental, talvez no interior da curva do Halys, mas não foram ainda localizadas). O Rei Anittas informa nos adiante que após a morte de seu pai, seguiu lhe os passos indo à guerra, derrotando todos os países que se lhe opunham. Foi duas vezes atacado por Pijusti, rei de Hatti, mas apoderou se de Hattusas, de assalto, no de¬curso de uma única noite. "No lugar onde ela existia semeei sementes. Que aquele que se tornar rei depois de mim e povoar Hattusas de novo, venha a ser ferido pelo Deus da Tempestade do Céu”.

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Como vimos, o Rei Anittas lançou uma maldição contra quem quer que ousasse recolonizar Hattusas. Não obstante, outros governantes hititas fizeram mais tarde de Hattusas sua capital. Provavelmente significa isto que Hattusas e o Rei Pijusti exis¬tiram muito antes da chegada dos primeiros hititas. Hattusas não era nome indo europeu nem cidade indo-européia, nem semítica, ate onde podemos saber. Sua população falava o hattili. Os indo europeus que conquistaram a cidade e nela se estabeleceram referem se a si mesmos como "homens e mulheres de Hatti", ou "filhos de Hatti. Daí se originou o nome hitita na Anatólia, mas o povo mais tarde chamado hititas veio provavelmente duma região diferente.

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Estrangeiros de longes terras, uma vez estabelecidos na Ana¬tólia oriental assimilaram os hititas a civilização indígena da região e elevaram na a alturas que mereceram reconhecimento universal, mesmo no mundo daquele tempo. Mas a despeito de todos os frutos da antiga civilização anatoliana por eles ado¬tada, permaneceram os hititas totalmente diferentes dos babilônios nas suas crenças, idéias e costumes. Tinham seu próprio estilo individual em tudo: nos trajes, na ornamentação, na escultura monumental e no traçado de cidades.

Hattusas era uma metrópole fortificada e sua coroa triunfal a cidadela Buyukkale. A principal característica das famosas cidades da Mesopotâmia sempre foi, em contraste, o templo do deus citadino. Não podia tampouco o rei dos hititas exercer sua autoridade tão arbitrariamente como os outros potentados orientais. Era o senhor supremo de seu povo tanto na guerra como na paz, mas seus poderes eram circunscritos pela nobreza. Não encontramos indicação de que perseguissem e torturassem os hititas os povos derrotados, como era hábito dos assírios e dos medas. As punições eram também menos severas. Desco¬nhecia se a prática da mutilação e uma sentença de morte só raramente se aplicava aos não escravos.

Muito nos falam de sua civilização as leis dos hititas e das suas inscrições colhemos alguma coisa de sua vida social e cultural. Parecem ter sido uma gente de temperamento mo¬derado. Quando um hitita desejava casar se, comprava uma mulher. Até mesmo um escravo podia comprar uma mulher livre. Diferentemente dos egípcios, não toleravam os hititas casamentos entre irmãos e irmãs. Sabe se disso por uma tabui¬nha do Rei Suppiluliumas no Derradeiro Império que adverte um tal Hukkanas da terra de Hajasa, nas montanhas armênias: “O irmão não pode tomar sua própria irmã ou sua prima, pois isto não é direito. Quem quer que tal coisa faça em Hattusas não ficará vivo, mas morrerá”.

Suppiluliumas fez notar que, conquanto pudesse ser habitual em Hajasa casar alguém com seu próprio irmão, irmã ou prima, tal coisa era proibida em Hattusas. Justificou se o rei ao escrever a Hukkanas dessa forma, porque enobrecera o homem simples mais capaz e lhe dera uma de suas irmãs como esposa. Teve, pois, dificuldades em estabelecer relações apropriadas entre sua família, sua corte e seu novo cunhado. O rei fere uma nota muito humana ao continuar: "Se, pois, uma das irmãs ou uma meia irmã ou prima de tua mulher chegar a ti, dá lhe de comer e de beber; comei e bebei juntos e alegrai vos. Mas não a desejes. Isto não é permitido e merece pena de morte; de modo que não o tentes. Mesmo que alguém te tente, não lhe dês atenção e nada pratiques." Nota se nesta adver¬tência algo do agudo provérbio de Salomão.

Suppiluliumas reinou desde cerca de 1.380 a 1.340 antes de Cristo e foi provavelmente o mais poderoso soberano do mundo naquela época. Habilmente explorou a fraqueza política do Egito no governo de Equenaten, o Reformador, incorporou todo o norte da Síria até a fronteira do Líbano ao império hitita, conquistou os países da Ásia Menor e destruiu a nação mitanni. Um homem de seu calibre naturalmente exigia uma conduta ordeira dentro de seu próprio lar. Daí esta adicional advertência na tabuinha de argila dirigida a Hukkanas: que seu novo cunhado não deveria aproximar se muito de mulher alguma da corte, quer uma mulher nascida livre, quer uma escrava a serviço no templo. "Não te aproximes muito dela, nem lhe digas uma palavra. Nem permitas que teu criado ou tua criada dela se aproximem. Acautela te bem dela. Assim que uma mulher do palácio se aproximar, pula fora do caminho e deixa a passar".

No decurso de seu pacto com Hukkanas, o competente rei contou lhe uma pequena história que serviria de lição. Parece que, um dia, um tal Marjas deixou que seu olhar pousasse numa hieródula ou escrava do templo, no momento em que passava a seu lado. Ele, Suppiluliumas, o Pai do Sol, estava por acaso, olhando da janela naquela ocasião e observou o desenrolar do suave namoro. Ordenou a prisão do desven¬turado Marias, a quem perguntou: "Porque olhaste para aquela escrava?” Se o Pai do Sol fez tal pergunta, é que eqüivalia ela a uma sentença de morte... e Marjas, de fato, foi executado "por causa disso". Mas o Rei deu mais um passo adiante: decidiu que seu novo cunhado não haveria de recair nos velhos moldes imorais, mesmo em Hajasa, sua terra natal. Ali, também, deveria no futuro abster se de tocar nas mulheres de seu irmão e em suas próprias irmãs. Por outro lado, teria permissão de conservar as mulheres que já possuía como concubinas.

Vimos num capitulo anterior como a viúva de um faraó egípcio escreveu a um rei hitita, pedindo lhe que lhe enviasse um de seus filhos para possível marido. O hitita, que incidental¬mente deve ter ficado bastante lisonjeado pela sugestão, não era outro senão o Rei Suppiluliumas e a rainha foi provavelmente Nefertiti, embora não estejamos inteiramente certos de que tão insólito pedido tivesse sido realmente feito por Nefertiti ou pela viúva de Tut ank Amon, sucessor de Equenaten. Eduardo Meyer e Alexandre Scharff afirmam que foi realmente Nefertiti quem entreteve esses assombrosos planos matrimoniais. Güterbock, porém, acredita que a autora da sensacional pro¬posta foi a viúva de Tut ank Amon e o egiptólogo E. Edel partilha desta opinião.

A história desse escândalo dinástico, que ocorreu cerca de 3.300 anos passados e certamente não foi tornado público na ocasião, vem narrada nos FEITOS DE SUPPILULIUMAS, escritos por seu filho Musilis II. As tabuinhas fragmentárias de argila que trazem esse texto extremamente interessante, foram cuidadosamente reunidas por Güterbock entre 1954 e 1956 em Frankfurt e Ancara e depois traduzidas por ele para o inglês.

Regressemos a trezentos anos mais cedo, ao tempo em que estava o trono hitita ocupado por Labarnas II, também conhe¬cido como Hattusílis I. Deixou nos este rei, escrito um texto bilingüe em hitita e acadiano: sua derradeira vontade testa¬mento, escrito quando jazia ele moribundo. Sua rainha consorte e seu herdeiro presuntivo parece terem estado ligados contra ele. Seu filho não derramou lágrimas e não demonstrou sim¬patia para com seu pai moribundo: "Frio está ele e sem cora¬ção. Eu, o rei, ordenei lhe que viesse à minha cabeceira, mas não é mais meu filho. Depois sua mãe mugiu como um boi." Mas o rei permaneceu incomovível. "A mãe dele é uma ser¬pente” , prosseguiu. "Várias vezes meu desleal filho dará ouvi¬dos as palavras de sua mãe, de seus irmãos e de suas irmãs, e então saciará sua vingança. Haverá um banho de sangue." O rei fez advertência contra a revolução e a guerra civil. Depois em vez de deixar seu trono ao príncipe coroado, desig¬nou o filho deste, Mursílis, como seu sucessor. Mursilis era ainda jovem, disse ele, "de modo que eduquem no para ser um rei herói”.Hattusílis deve ter sido excelente psicólogo, pois ordenou que seu jovem neto mandasse ler para si uma vez por mês o decreto de seu avô.

É fácil deduzir das tabuinhas de argila dos reis hititas que eram homens que haviam acumulado a experiência de muitas gerações e aplicavam na às suas próprias circunstâncias.

Quando era caso de tratados, nunca se satisfaziam com meros pactos de assistência mútua. Eram hábeis psicólogos bem cientes de todas as fraquezas e tentações a que são inclinados até mesmo amigos e parentes. Por isso é que se adiantaram muito mais nas suas medidas de segurança do que os nossos modernos estadistas. Davam ênfase a que seu parceiro de tra¬tado nunca deveria vacilar em sua lealdade, especificando a cuidadosamente ao escrever que não se permitiria deixar se influenciar por qualquer partido exterior. Quem quer que fosse inimigo do Sol (e o rei hitita era sempre chamado "o Sol") deveria ser também inimigo de seu aliado e qualquer coisa que o aliado viesse a conhecer de desvantajoso para o rei deveria ser a este sempre comunicado. É tocante ver se Mursílis II, que reinou de cerca de 1.339 a 1.306, dirigir se a seu aliado Kupanta Kal, ordenando lhe que não prestasse fé a quaisquer boatos. Eis suas palavras textuais: "A humanidade é corrupta. Se boatos se espalham e algum chegar a ti, mur¬murando que o Sol está a prejudicar te, e a ponto de tomar tua casa e tuas terras, causando te danos, deves informar o Sol sem demora”.

Ao concluírem pactos como este, as partes contratantes sem¬pre juravam pelos mil deuses dos hititas. "Chamamos os mil deuses ao tribunal", reza a fórmula. O Deus Sol do Firmamento, a DEUSA SOL de Arina, o Deus Tempestade de Muitos Lugares, Ichtar, a Rainha do Firmamento, e outros incontáveis deuses eram chamados a testemunhar e invocados a destruir quem quer que desatendesse ao decreto do rei.

Chegou um tempo, porém, em que os deuses dos hititas fra¬cassaram. Hattusas foi destruída pelas chamas. Cidadela, tem¬plos, armazéns e casas desabaram e o céu rubro esplendia, quando os hititas conheceram sua ruína no lugar que fora outrora a sede de seu poder. De 1.200 antes de Cristo em diante, todas as referências aos hititas na Anatólia oriental cessaram bruscamente e o cenário mudou se para a Anatólia de sudeste. Foi essa uma terra dos Reinos Derradeiros ou Neo¬Hititas que floresceram até o fim do oitavo século antes de Cristo, quando os assírios os conquistaram.

A morte de uma nação é semelhante à morte de um indivíduo: sempre difícil de compreender. Quem quer que contemple as fortificações verdadeiramente notáveis de Buyukkale e dê rédeas soltas à imaginação reconhecerá a elementar força de vontade de que devem ter sido dotados os construtores de Boghazköy. E reconhecerá algo mais: que aqueles homens construíram para a eternidade. Cavaram poços, trabalharam em seus vinhedos, cuidaram de suas macieiras, amanharam seus campos, apascentaram seus carneiros e, se o rei assim ordenava, fabricavam carros e partiam para a guerra. Compra¬vam e vendiam escravos. O parágrafo 14 de seu código legal estabelece que quem quer que esmurre o nariz de uma escrava seja multado em três siclos de prata, enquanto que o mesmo assalto a um cidadão livre custa uma mina inteira, ou sejam sessenta siclos. Se um escravo fugia e era recapturado por alguém para seu senhor, o detentor recebia uma recompensa.

Se, depois que um homem pagava o preço de uma esposa, decidiam posteriormente seus pais não se separar da moça, eram obrigados a restituir duplicadamente a soma. Por outro lado, acontecia também que uma moça, que fora prometida a um homem, viesse de repente a casar se com outro. Neste caso, o noivo bem sucedido só estava obrigado a retribuir a seu rival o equivalente à sua despesa até aquela data. Perfumistas e pastores eram tidos em baixa estima, ao que parece, pois se qualquer moça viesse a casar se com algum deles, tornava se automaticamente escrava por três anos.

As leis hititas iluminam vivamente seu colorido modo de vida. Condenava se à morte um homem que fosse sorrateira¬mente no encalço de uma mulher nas montanhas solitárias e a violasse. Mas quando outro homem assaltava uma mulher na própria casa dela, a cumplicidade desta era tida como provada e também ela merecia a morte. (A honra de uma escrava não tinha proteção legal). Se alguém matava uma serpente, profe¬rindo o nome de seu inimigo enquanto o fazia, incorria essa magia perigosa numa multa de uma mina de prata e pagava com a própria cabeça o escravo que praticasse a mesma coisa. Deve ter havido também pelo menos um hitita tão encoleri¬zado que arrancou de seus gonzos uma porta e levou a para fora, pois inventou se uma lei para atender a tal contingência. O celerado tinha de restituir todos os animais domésticos que o proprietário perdeu em resultado de seu ato e pagar, além disso, uma mina de prata.

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Os hititas foram povo de grande vitalidade e criaram uma cultura única, muito embora derivada de várias fontes, dando-¬lhes razão de um merecido lugar ao sol ao lado da Assíria de Babilônia e do Egito. Contudo, um dia chegou em que sucumbiram à coisa mais perigosa da terra, a algo de bem mais implacável do que a Natureza no que tenha de mais destrutivo: o inimigo em forma humana.


Fonte: Assim viviam nossos antepassados
Autor: Ivar Lissner
Página: trechos extraidos da obra
Edição: 5ª edição em português
Observações: Editado pela Livraria Itaiaia Ltda.



FENÍCIA

Os fenícios foram exímios comerciantes e navegadores. Eram politeístas e aventureiros. Não eram afeitos ao cumprimento de acordos, eram ambiciosos e usavam qualquer meio para auferir vantagens.

Nossos conhecimentos permitem nos situar os fenícios no tempo, mas ignoramos quase tudo de sua história. Só nos deixaram poucos testemunhos escritos e sua literatura é quase inexistente. Simplesmente porque não tinham tempo para escrever. Sabemos somente donde vinham, conhecemos o nome de suas cidades e o objetivo de suas expedições.

Entretanto, uma coisa é surpreendente: foram incontestavelmente os maiores navegadores da Antigüidade, mas nenhum povo é tão misterioso, tão difícil de estudar como esses fení¬cios que fundaram cidades à beira de muitos rios, mas não deixaram vestígio algum em sua própria pátria. Seus antepas¬sados eram semitas, descendentes das tribos cananéias de que fala a Bíblia. As inscrições das estelas de Amarna os chamam de "Kinahni"; essas estelas foram descobertas em Tell el-¬Amarna, no Egito. Trata se de mensagens destinadas à corte dos faraós, escritos em tabuinhas de argila e datando de 1.400 antes de J. C. Os fenícios eram semitas sua língua o indica mas sua paixão pelas coisas do mar, tão pouco semítica, é de causar surpresa. Intrépidos, pacientes e teimosos, sulcaram os mares e desembarcaram em países onde ninguém antes deles se tinha aventurado. O litoral da Síria, do Líbano e da Pales¬tina constituía a Fenícia, Biblos, Tiro, Sidon, Arad, Ugarit, Beirute e numerosos portos estavam ali estabelecidos; todos olhavam para o mar. O termo "fenício" deriva sem dúvida de "Fênix" que, em grego significa palmeira, ou de "phoinos", que quer dizer vermelho. Não seria antes por causa da tez bistre deles que os gregos designavam assim os fenícios? Ou foi talvez o pano vermelho que fabricavam que lhes valeu esse nome?

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Cerca de 1.200 antes de J. C., quando esses extraordinários navegadores se libertaram da tutela egípcia, tornaram se os senhores incontestes do Mediterrâneo Oriental.

Fabricavam objetos de vidro e de metal, vasos preciosos, armas, jóias, praticavam o comércio de cereais, de vinho e de panos, trocavam essas mercadorias em todas as costas mediter¬râneas e as transportavam até as plagas mais afastadas. Iam procurar o chumbo, o ouro e o ferro nas costas meridionais do Mar Negro, o cobre e a madeira de cipreste em Chipre, o mar¬fim e o ouro na África, o vinho no sul da França e o estanho nas ilhas atlânticas. Capturavam em toda parte os indígenas para fazer deles escravos; as mulheres eram destinadas aos haréns. Comerciavam com Tarchich, cidade espanhola. Sua riqueza era tal que suas âncoras eram, dizem, de prata maciça. Partindo de Gadeira, a atual Cadiz, singravam o Oceano Atlân¬tico, para as ilhas do estanho, provavelmente a Cornualha.

Presume se que em 700 antes de J. C. deram a volta da África, 2.000 anos antes de Vasco da Gama. Isto é, o cabo da Boa Esperança teria sido descoberto pelos marinheiros fenícios.

Seus navios alongados e de fundo chato mediam trinta metros de comprimento vogavam por todos os mares. Uma grande vela retangular ajudava os remadores a propelirem os barcos. Sobre a coberta conservavam se soldados; a divisa era: traficar ou bater se! Comerciantes, antes de tudo, só recor¬riam os fenícios às armas, quando a persuasão se verificava vã. Com um calado d'água de um metro somente e desprovidos de instrumentos de navegação, os navios fenícios navegavam ao longo das costas. Mas, finalmente, os marinheiros aprende¬ram a dirigir se pelas estrelas. Por este motivo e que os gregos chamaram a estrela polar de "astro fenício".

Em todos os pontos estratégicos do litoral mediterrâneo, fundaram eles cidades comerciais e instalaram guarnições em Cadiz, Cartago, Marselha, Malta, na Sicília, na Sardenha e na Córsega, e talvez nas praias longínquas da Inglaterra e das ilhas do Oceano Atlântico, redescobertas muito mais tarde. Dominavam Chipre, Milo, Rodes, onde escravos trabalhavam nas minas. Em matéria de negócio, eram os fenícios destituídos de escrúpulos; eram por demais astutos para serem honestos. Piratas e comerciantes convidavam os estrangeiros a subir a bordo de seus navios e depois levantavam âncora. Os gregos, aliás, também piratas, consideravam os fenícios salteadores de alto mar. E Homero, em 800 antes de J. C., relata na "Odisséia": "Um dia, fenícios, marinheiros e burladores eméritos, aborda¬ram nossas costas, trazendo em seus navios uma porção de coisas curiosas e raras". ("Odisséia", Livro XV.)

Mas os fenícios não eram somente comerciantes piratas. Introduziram na Grécia, na África, na Itália e na Espanha, as ciências, e a escrita, vindas do Egito, de Creta, e do Próximo Oriente. Intermediários entre Babilônia e o Egito, tornaram conhecida a civilização à Europa e foi ao impulso do comércio fenício, cujos produtos eram universalmente espalhados, que as populações do Ocidente desistiram de morar em cavernas que, até então, lhes tinham servido de moradia.

A esses comerciantes, preocupados sobretudo com aumentar sua riqueza pelos negócios, repugnavam as empresas guerrei¬ras. Por isso é que suas cidades foram tão prósperas. Biblos foi a mais antiga. O papiro, antepassado do papel, era a mer¬cadoria principal. Eis o motivo pelo qual os gregos chamavam o livro "biblos", termo que, por intermédio da expressão "ta biblio", designa agora o Antigo Testamento.

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Sidon encontrava se no litoral, a setenta e cinco quilômetros de Biblos. Essa cidade forneceu quase a frota inteira de Xerxes, rei dos persas. As batalhas navais entre gregos e persas foram na maior parte travadas em navios fenícios; tratava se antes de encontros greco fenícios. Quando os persas sitiaram e con¬quistaram Sidon, a aristocracia comercial tratou de incendiar a cidade; quarenta mil pessoas pereceram nesse incêndio. Mas Tiro foi a cidade fenícia por excelência. Edificada sobre uma ilha, a alguns quilômetros da costa, era dotada dum porto magnífico. Originários de todos os países ribeirinhos do Medi¬terrâneo, escravos se movimentavam, transportando caixas e barris, dos armazéns para os navios e vice versa.

Hírão I, rei de Tiro (969 936 antes de J. C.), foi amigo dos reis Davi e Salomão; forneceu lhes madeira de cedro, pedreiros, canteiros. Cerca de 500 antes de J. C., Tiro era tão rica a ponto de possuir "tanta prata quanta areia há nas praias" e "tanto ouro quanto bosta nos caminhos" (Zacarias 9.3).

Cartago foi igualmente uma fundação fenícia (878 antes de J. C.); Aníbal e o descendente desse povo de comerciantes e navegadores. Cartago, com suas casas altas e seus becos estreitos, foi a criação do gênio fenício. Uma longa guerra antagonizou a com Roma, mas, finalmente, tiveram os comerciantes de cur¬var se diante da força.

Os cartagineses aperfeiçoaram um método que lhes permitiu controlar a circulação de viajantes e mercadorias entre o Leste e o Oeste do Mediterrâneo. Os negociantes estrangeiros eram encorajados a visitar Cartago onde os acolhiam com agrado. Mas se os cartagineses os encontravam em suas colônias da África Ocidental, amarravam lhes uma pedra ao pescoço e lançavam nos ao mar.

Os fenícios adoravam numerosos deuses; cada cidade tinha seu "Baal". O de Tiro chamava se Melcarte. Era tão poderoso quanto Hércules, venerado pelos gregos. Os fenícios tomaram de empréstimo aos babilônios Ichtar, deusa da fecundidade. Como em Babilônia onde sacrificavam sua virgindade à deusa, em Biblos, as donzelas davam suas cabeleiras a Astartê e ofe¬reciam se aos transeuntes no recinto do templo. Havia igual¬mente Moloque, deus temível, a que os fenícios sacrificavam crianças entregando as às chamas. Por ocasião do sitio de Car¬tago, em 307 antes de J. C., foram imoladas no altar de Molo¬que cem meninos pertencentes as melhores famílias da cidade, na esperança de que o deus viesse em socorro da cidade investida.

Como os egípcios, davam os fenícios a seus mortos uma sepul¬tura duradoura. Em 1921 1923, uma missão arqueológica fran¬cesa, dirigida por Montet, descobriu perto de Biblos, um sarcófago, o de Ahiram, que traz uma inscrição fenícia, a mais antiga que se conhece.

Os mercadores fenícios foram antes de tudo homens práticos, nem poetas, nem imaginativos. Comerciantes e citadinos, não tiveram tempo de criar se uma literatura e essa é a razão pela qual se possuem tão poucos textos fenícios. Seus monumentos foram destruídos ou caíram em ruínas.

Acreditou se durante muito tempo que esses intrépidos navegadores tivessem sido os inventores do vidro, da moeda e da faiança; atribuíram lhes mesmo a invenção do alfabeto. Ora, recentes trabalhos demonstram que, se os fenícios foram exce¬lentes imitadores e "agentes" de civilização, nada criaram. Contribuíram simplesmente para a difusão dos produtos da arte e da indústria manufaturados ou fabricados por outros povos.

A aritmética, os pesos, as medidas, as moedas vieram de Babi¬lônia. Os egípcios conheceram bem antes dos fenícios a técnica da vitrificação e da cerâmica. Só mais tarde é que as fábricas de vidro de Sidon adquiriram reputação mundial e o alfabeto foi, antes dos fenícios, aperfeiçoado por numerosos povos do médio Oriente.

Os gregos deram a Tiro a reputação duma cidade mal cheirosa: as fábricas e as tinturarias desprendiam, com efeito, um odor pestilencial, que a acreditar nos gregos, lembrava o do alho.

Alexandre, o Grande, conquistou Tiro em julho de 332. O declínio fenício, já começado, acentuou se. Oito mil tírios foram massacrados e trinta mil vendidos como escravos. Em 64 antes de J. C., sob o consulado de Pompeu, Arad, Sidon, Tiro e Trípoli renasceram de suas cinzas, mas adotaram os costumes romanos; o grego e o latim suplantaram o fenício, as uniões com estrangeiros se multiplicaram e, finalmente, esse povo de navegadores intrépidos desapareceu da cena do mundo.


Fonte: Assim viviam nossos antepassados
Autor: Ivar Lissner
Página: trechos extraidos da obra
Edição: 5ª edição em português
Observações: Editado pela Livraria Itaiaia Ltda.



PÉRSIA


A Pérsia (hoje Iraque) teve nos últimos tempos seu nome associado aos famosos tapetes e aos contos fanstásticos do Oriente como, por exemplo: “As mil e uma noites”. Mas o império persa conseguiu ser uma das regiões mais desenvolvidas e comentadas da antiguidade. Vários nomes famosos fazem parte da sua história.


Sabendo que Mandane dera à luz um filho, chamado Ciro, deu Astíages ordem a Harpage, seu camareiro, de mandar assassinar o menino. Mas Harpage confiou o jovem Ciro a um pastor que habitava os planaltos batidos pelos ventos, situados ao norte de Ecbatana. Foi lá que cresceu o futuro soberano, o maior homem de Estado de seu tempo.

A história de Harpage e de Astíages, que Heródoto nos trans¬mite, é horrível. Tendo vindo a saber que seu camareiro infrin¬gira suas ordens, poupando Ciro, Astiages mandou matar o filho de Harpage, depois convidou o pai a sentar se à sua mesa; no decorrer do festim, serviu se o corpo do menino assassinado, e depois, no fim do banquete, trouxeram lhe a cabeça. Har¬page conservou seu sangue frio e aguardou a maioridade de Ciro; aliou se com ele, conduziu o secretamente para o reino dos medas e ajudou o a apoderar se do trono. O fato de ter Ciro dado liberdade a Astíages, monarca destronado e prisio¬neiro, e permitido que levasse ele uma existência honrosa, testemunha em favor desse monarca.

O império persa tornara se o maior Estado da Antiguidade pré romana.

Deu prova Círo duma grande tolerância para com as religiões e cultos praticados pelos povos de seu reino; respeitava lhes os deuses, inclinava se diante de seus ídolos, sustentava os templos e mandava queimar incenso diante das estátuas. Em lugar de exterminar os vencidos, procurava Ciro, pelo contrá¬rio, conciliá los. Precursor de Alexandre, o Grande, foi Ciro o maior homem da Ásia ocidental.

Seus povos o aclamavam e, quando se apoderou de Babilonia, foi com o assentimento duma grande parte da população. O exército de Baltasar, encarregado de defender a capital, de¬bandou. Habitantes da Sumeria e da Acádia, príncipes e gene¬rais inclinavam se diante dele e lhe beijavam os pés. Monarca esclarecido, achava Ciro talvez que acima de seu deus, Ahura¬Mazda, havia um outro que êle não conhecia. O fato de ter mandado reconstruir, em Jerusalém, o templo de Jeová, não é simples coincidência.

Entretanto, não morreu Ciro na sua capital Ecbatana; caiu, em 530, antes de J. C., sob as flechas dos massagetas, temíveis cavaleiros que, expulsos pelos citas das estepes do Turquestão, penetraram no Irã.

Os homens de Estado atuais têm muito que aprender com Ciro. Nenhum se preocupa com isso: Ciro viveu há dois mil e quinhentos anos! Mas tudo leva a crer que a sabedoria dos go¬vernantes não aumentou desde aquela época. Creso, soberano célebre e invejado, era rei da Lidia. Sua riqueza proverbial provinha da exploração das minas de ouro. Sardes, sua capital, era um centro artístico e intelectual. Quando Creso perguntou ao filósofo Solon o que pensava êste de tantas riquezas e feli¬cidade, respondeu lhe Solon que ninguém podia estimar se feliz a menos que tivesse sua vida atrás de si. Ciro conquistou Sardes e os persas condenaram Creso à fogueira. Antes de morrer, lembrou se Creso das palavras de Solon. Ciro ouviu o e pediu uma explicação. Quando Creso contou tudo, o sábio Ciro pôs em liberdade o vencido, deu lhe numerosas terras, ofereceu lhe um posto importante em sua corte e fez de Creso seu conselheiro privado. Durante trinta anos Creso serviu ao rei dos persas e depois a seu sucessor.

O filho de Ciro, Cambises, faz pensar num moderno ditador. Para começar, matou seu irmão Smérdis; aumentou seu imperio até o Nilo e massacrou todos os prisioneiros. Diz se de Cam¬bises que reduziu os deuses egípcios a pó. Saqueou os túrirulos reais e apoderou se das múmias. Naquela época, era um sacri¬légio. Queria curar os egípcios de suas “superstições”. Quando Cambises perdeu a razão, os egípcios declararam que os deuses ofendidos se vingavam. No fim de sua vida, Cambises fêz figura de precursor de Nero. Matou sua irmã com um pontapé no ventre, depois mandou assassinar sua mulher, Roxana; com uma flecha, feriu mortalmente seu filho, Prexaspes e, para se diver¬tir, deu ordem de enterrar vivos doze nobres persas; tendo condenado Creso à morte, logo lamentou isso e rebentou a soluçar. Sua cólera reapoderou se dêle assim que soube que suas ordens não tinham sido cumpridas. Uma revolta pôs fim ao reinado desse insensato.

Um fanático religioso pretendeu ser Smérdis, irmão de Cam¬bises, que êste mandara assassinar. Uma segunda revolução derrubou Smérdis e deu o poder a Dario.

Pela Bíblia, conhecemos o nome do sucessor de Dario: Assuero. Sua capital era Susa e fez de Ester uma rainha. O Assuero do Antigo Testamento é chamado Xerxes por Hero¬doto. Assuero embriagava se; sua vida era uma sucessão de festas e arruínava se em construções sun¬tuosas. Perto de Salamina, sua frota foi vencida pela dos gregos. Essa derrota, seguida pela de Platéia e pelo aniquila¬mento dum segundo exercito persa, em Micale, teve por efeito obrigar a Pérsia a limitar se à Ásia e renunciar a desempenhar um papel na política européia. Após vinte anos de intrigas e de incuria, morreu assassinado. Enterraram no com grande pompa, para satisfação de todos.

Ciro, e Dario criaram o vasto imperio persa. Xerxes recebeu o em herança e precipitou lhe a ruína com suas loucuras. Sob seus sucessores, o declínio ira acentuar se. Crimes e assassi¬natos se sucedem.

O assassino de Xerxes foi morto pelo rei Artaxerxes. Xerxes II foi assassinado pelo seu meio irmão e este por Dario. O sangue corria em ondas. Dario II jugulou uma revolta com implacável crueldade. Mandou matar sua mulher e enterrar vivos sua mãe, seus irmãos e suas irmãs. Artaxerxes II matou seu filho e morreu de pesar, quando soube que Óxus, outro de seus filhos, se preparava para fazê lo ter a mesma sorte.

Óxus reinou vinte anos e foi envenenado por um general. O imenso império persa afundou se no massacre, na revolta, na crueldade, nas lágrimas e no sangue.

Alexandre, o Grande, só teve que acabar a ruína daquele grande edifício apodrecido por dentro. Êsse período da His¬tória é cativante. Em novembro de 333, antes de J. C., Dario III, apelidado "Kodomnos" (Codornano), derradeiro soberano da dinastia dos Aquemênidas, enfrentou, perto de Isso, as forças de Alexandre; 30 a 40.000 persas se embateram com 20.000 infantes e 5.000 cavaleiros macedônios. Se Alexandre conquistou a vitória deve o a uma hábil mudança de frente de suas tropas e também porque, vendo Alexandre que, de pé, no seu carro, avançava para êle, Dario fugiu, deixando seus soldados desamparados. Ao fim da batalha, o exército grego perdera 450 homens e os persas cerca de 5.000, o que deve corresponder à realidade. As cifras indicadas pelos histo¬riadores gregos: 600.000 soldados persas, dos quais 110.000 mortos, não passam efetivamente da mais exagerada fantasia. A retumbante vitória conquistada por Alexandre foi por de¬mais realçada de acôrdo com as necessidades da causa grega. Covardemente, Dario fugiu, abandonando sua mãe, sua mulher, duas de suas filhas, seu carro, suas jóias e tôdas as suas riquezas que se achavam na tenda real. A dar se crédito aos historiadores gregos, Alexandre, o vencedor, teria dado prova de grande magnanimidade, tratando com solicitude os parentes de Dario e desposando Roxaria, filha de seu inimigo; preten¬dem mesmo os gregos que, por ocasião da morte do conquis¬tador, a mãe de Dario deixou se morrer de fome em sinal de aflição.

A Pérsia desapareceu. Pedaços de sua história chegaram, no entanto, até nós. Os sábios se esforçam por arrancar às pedras os segredos de seu passado. Quando os vencedores se mostram maiores e mais nobres que os vencidos é prenuncio de estar próxima a desaparição dum povo e seus dirigentes. Dario, fugitivo, foi morto por um de seus oficiais. Alexandre condenou à morte os assassinos de seu adversário e mandou celebrar com grande pompa as exéquias de Dario que foi enterrado em Persépolis. Êsse entêrro foi tão grandioso que dêle se falava ainda, vários séculos depois, no Oriente Médio. Aos milhares, prestaram os persas submissão a Alexandre. Sua fôrça, sua juventude e sua generosidade haviam nos conquis¬tado. Foi maior, pelo prestígio, do que Ciro e Dario, os dois maiores soberanos persas.

Em que época viveu Zaratustra? Cerca de 700 anos antes de J. C., segundo os arqueólogos, em 5.500, segundo os gregos. Sabem se poucas coisas a seu respeito, mas parece que nasceu a leste do Irã ou na Bactriana. Como Cristo, retirou se para o deserto e viveu, durante algum tempo, afastado de seus semelhantes. O diabo tentou o, mas em vão. Zombaram de Zaratustra, perseguiram no, mas revelou se ele o mais forte; após sua morte, viram no elevar se ao céu num nimbo lumi¬noso.

Como os profetas do Antigo Testamento, cria Zaratustra um deus supremo. Fundador duma religião nova, nasceu Zara¬tustra numa época em que tudo estava subordinado à vontade das divindades naturais adoradas pelos indo europeus. Êsses deuses eram invisíveis da mesma maneira que as divindades dos arias, habitantes do antigo Irã, eram anicônicas, isto é, sem representação em imagens, mas o monoteísmo era des¬conhecido.

Antes de Zaratustra, eram as práticas religiosas monopoli¬zadas pelos magos estes na origem, recrutavam se entre os membros duma tribo meda do Irã ocidental, onde o fervor reli¬gioso era particularmente forte. A cidade de Raga, não longe da atual Teherã, era o centro dêsse Estado clerical. A palavra "magia" designou a principio a essencia duma antiquissima crença iraniana. Os magos não eram feiticeiros, mas sacerdotes; relata Heródoto que era proibido oferecer um sacrifício fora da presença dêles. O mago cantava os hinos rituais. A imola-ção dos animais, principalmente das serpentes e dos pássaros, oferecidos em holocausto, era lhe reservada. Depois de sua morte, não eram os magos, como os antigos iranianos, cobertos de cêra e depois enterrados; lançavam nos a pasto dos cães e dos abutres. Posteriormente, identificou se Zaratustra com os magos ou os magos com Zaratustra se bem que, de fato, tenha sido o primeiro, pelo menos na origem, o principal adversário dos segundos. Mais tarde, a hostilidade desapare¬ceu, mas o costume de expor os cadáveres dos sacerdotes se manteve; os antigos inimigos dos magos, os 90 milhões de persas que vivem nas Indías, derradeiros adeptos da religião zoroastriana, não queimam nem enterram seus mortos. Depo¬sitam nos em torres, as torres do silêncio, onde os abutres os retalham. Na própria Pérsia, os fieis de Zaratustra não passam de uma dezena de milhares.

No panteão persa, Mitra e Anahita ocupavam um lugar pre¬ponderante. Na origem, Mitra era um deus da guerra indo¬européia e Anaffita, deusa da fertilidade, uma divindade semita, adorada pelos babilonios.

Tendo partido para a Média, cêrca de 700, antes de J. C., ficou Zaratustra estupefato por ver que os medas adoravam ídolos zoomórficos e inúmeras divindades. Inimigo declarado dos magos e do clero, que viviam da credulidade pública, pro¬clamou a existencia de um deus único, Ahura Mazda, deus da luz e do céu.

Desde o comêço, Ahura Mazda entrou em luta contra o espi¬rito do mal, Ahriman Angramanyu, encamação das potencias das trevas. O Bem e o Mal enfrentam se desde os tempos mais distantes; a isca é o domínio. Não obstante, Aliriman, "Satã indo europeu", distingue se pelo fato de tratar se de um espí¬rito construtor. Criando o personagem de Aliriman, procura Zaratustra definir a essencia do mal e sua origem. Um mundo separa Ahura Mazda e Ahriman; nada os aproxima: "nem o pensamento, nem a doutrina, nem a vontade, nem as opiniões, nem as palavras, nem os fatos, nem o ser, nem o espirito".

Mas que papel reserva Zaratustra às antigas divindades natu¬rais? Identifica as a "daevas", demônios, entre os quais enfileirava verossimilmente Mitra e Anahita; aliados de Ahriman, ajudaram no a perverter o homem.

O homem acha se metido na luta que opõe Ahura Mazda a Ahriman; livre de escolher, deve optar por um ou por outro. E assim e até o momento em que, três dias após sua morte, comparece perante o tribunal encarregado de julgar os vivos e os mortos. Os ímpios, os velhacos, os maus sofrem tormentos eternos; os justos, perdoados, ascendem à eternidade.
Além dêsse tribunal que julga qualquer indivíduo, a religião de Zoroastro prevê o fim do mundo, a ressurreição dos mortos e um julgamento final que marca o fim da luta do Bem e do Mal. A luz vence as trevas e os bons, reunidos no Paraiso, con¬servam se ao lado de Ahura Mazda. A doutrina exposta por Zaratustra no Avesta determina ao homem uma tríplice tarefa: converter o mau, fazer de seu inimigo um amigo e instruir o ignorante.

A vitória final de Ahura Mazda sobre Ahriman é caracte¬rística da doutrina zoroastriana que, a despeito do dualismo do Bem e do Mal, é manifestamente monoteísta. O deus único, aparecido a Zaratustra, é senhor do céu e da terra, dos ventos, das nuvens, da água, dos astros e das estrêlas, o criador das plantas, dos animais e da alma humana. Zaratustra renuncia às estatuas e aos santuários; Ahura Mazda nunca teve templo. Nas ruínas de Pasárgada e de Persépolis não se encontrou vestígio algum que permitisse concluir se pela existência de locais do culto. Simples altares serviam sem dúvida para as oferendas de incenso cuja fumaça se elevava para o deus Único. Sabe se pelos gregos que na época de Dario os persas desprezavam os povos que adoravam divindades antropomórficas ou zoomór¬ficas e que lhes elevavam santuários fechados.

Os soberanos aqueménidas não seguiram sem hesitação os preceitos de Zaratustra, expostos no Avesta; reconheciam os deuses das nações vencidas e prestavam lhes homenagem. Mas pode dar se também que tenham agido calculadamente. Parece, não obstante, que a religião zoroastriana tenha levado dois séculos para se impor. Dario I se converteu, aboliu oficialmente o culto dos ídolos e pôs fim ao monopólio dos magos. Mas, na prática, o povo permaneceu fiel às suas divindades e aos magos. Foi então que Dario fez da crença zoroastriana a religião na¬cional persa. Ignora se se, e em que medida, os predecessores de Dario acreditaram em Zaratustra; além das cinco palavras da inscrição funerária de Ciro, nenhum documento persa se refere a esses soberanos. Só Dario fala "do maior de todos os deuses” ; nos textos contemporâneos, o nome de Ahura Mazda, criador da terra, do céu, do universo, do homem, torna a aparecer várias vezes.

Parece por outro lado que os sucessores de Dario se afasta¬ram da religião zoroastriana. Artaxerxes II, por exemplo, dirige suas preces a Ahura Mazda e também a Mitra e a Anahita; Berose, sacerdote babilônio de Baal (250 antes de J. C), relata que Artaxerxes II foi o primeiro rei que introduziu na Pérsia divindades antropomórficas. No seu reinado, os cultos de Mitra e Anahita foram oficialmente reconhecidos. A religião mitríaca espalhou se em seguida no mundo inteiro depois de ter, na Ásia Menor, anexado a maior parte das doutrinas mitríacas. Sob os Césares, o exército romano adotou o culto de Mitra e essa religião é que foi o principal obstáculo à propagação do cristianismo.

Que resta da doutrina de Zaratustra, genial fundador da religião zoroastriana?

Esta não foi nunca uma religião nacional e cada qual tinha liberdade de escolher o deus que lhe conviesse. A destruição de Persépolis por Alexandre pôs fim à história política da antiga Pérsia, mas o espírito dos persas e dos medas sobreviveu; sua influência, sensível nas religiões orientais, encontrar se á mais tarde nas regiões ocidentais. Como explicou Franz Cumont, especialista dos cultos mitríacos, a história religiosa conheceu um período "helenlco" e um pe¬riodo "iranico". Talvez represente o zoroastrismo uma síntese, a primeira da história, uma tentativa para amalgamar as dou¬trinas que fazem da observação da moral, do respeito e da justiça a lei suprema da humanidade. A doutrina zoroastriana influenciou fortemente as crenças ocidentais; está na origem do monoteísmo judeu, do dualismo céu e inferno, da idéia de resgate e do julgamento final. A luta entre o Bem e o Mal, pela posse do mundo, prossegue sempre. Onde, em que estepe, em que região montanhosa nasceu Zaratustra? Em que época viveu? Um dia, Ahura Mazda lhe apareceu e o sábio disso concluiu pelo triunfo final da luz sôbre a escuridão.

Zaratustra pregou sua doutrina setecentos anos antes de J. C.; Maomé, setecentos anos depois de J. C. Entre as duas religiões se situa a de Cristo.

O rei dos persas estava à testa dum vasto império; os sobe¬ranos dos reinos submetidos por suas armas eram seus vassalos. Donde seu título de "Rei dos Reis". Soberano absoluto, ninguém, nem mesmo os poderosos do império tinham o direito de criticar suas decisões; contravir a essa regra era assinar sua sentença de morte.

O harém real era colocado sob vigilância de eunucos; todos os anos, fornecia Babilônia, a título de tributo, 500 rapazes emasculados. Enviados a côrte, ali aprendiam o ofício de pajem. Esses eunucos conquistaram com o tempo uma grande influência sobre as mulheres e sôbre os familiares do soberano; intrigantes, fomentavam conspirações e sua presença na côrte tornou se um verdadeiro flagelo. Derrubavam os reis, organi¬zavam revoltas de palácio, recorriam ao assassinato e explora¬vam em seu proveito as rivalidades que opunham entre si as pensionistas do harém real. Com a continuação, no império persa, crimes e revoltas foram os meios empregados para garantir se a posse do trono. Dispunham os soberanos dum imenso exército, instrumento de seu domínio, formado de ele¬mentos disparatados. Mas, contráriamente ao que acreditavam, essa pletora causou lhes a perda. Segundo Heródoto, o exér¬cito lançado por Xerxes ao assalto da Grécia compreendia 170.000 homens, mas, abstração feita do exagero habitual e admitindo se mesmo que 17.000 soldados persas apenas tenham tomado parte na expedição, nem por isso era menos conside¬rável essa fôrça para a época.

Formado de elementos díspares, êsse exército teria sido obri¬gado a debandar após a derrota. Ora, o fato de haver se reti¬rado em boa ordem prova a ciência do comando persa.

O rei era o juiz supremo, sua palavra fazia lei; o regime era uma monarquia absoluta. Magistrados eleitos vitaliciamente faziam justiça em nome do monarca; sua função era hereditária e um juiz só podia ser destituído se cometesse um assassinato ou se fosse venal. Os tribunais persas não decretavam apenas penalidades, mas igualmente recompensas. Cambises pôs têrmo à corrupção dos juízes, mandando esfolar vivo um magistrado; a pele serviu para cobrir a cadeira do defunto cujo filho foi nomeado juiz no lugar do pai. A pena do chicote 5 a 200 chicotadas, segundo o caso sancionava as faltas venais. A mutilação, a cegueira, a prisão ou a morte puniam as infrações graves. Aproximar se duma pensionista do harém real ou tocar o rei era crime de lesa majestade. O culpado era executado.

A crucificação, a lapidação, o enforcamento eram correntes, bem como a sufocação em cinzas ardentes, o enterramento. E, no entanto, não era o império persa um regime de opressão, baseado na injustiça e na repressão cega. Sublinha Heródoto, pelo contrário, o fato de que ninguém, homem livre ou escravo, podia ser executado, se a culpabilidade não fôsse formalmente provada. Um soberano tal como Dario I detesta o arbítrio, obedece a Ahura Mazda e respeita o direito e as leis.

Os vinte sátrapas recrutam se entre a nobreza ou entre os membros da família real; governam as provincias, velam pelos interêsses da coroa e fazem reinar a ordem e a segurança. Cada sátrapa exerce a função de juiz supremo na província que administra.

Mas o poder é muitas vezes o fermento da revolta; a tentação de provocar secessão e de exercer poder pessoal era forte para um governador. Assim, era cada governador assistido por um alto funcionário nomeado pelo soberano que mantinha a liga¬ção com o palácio; era êle quem assegurava o encaminhamento dos despachos oficiais e quem controlava a execução das ordens. Dum extremo a outro do imenso império, de Éfeso e de Sardes até Susa, distante mais de duzentos mil quilô¬metros, de Babilônia a Ecbatana até os confins da Índia e da Bactriana, correios a cavalo transportavam a correspondência pelas estradas reais. As distâncias avaliavam se em parasangas, medida que equivale a 5.250 metros. Dia e noite, os estafetas reais percorriam nas em todos os sentidos; eram, diziam os gregos, mais rápidos que "o vôo dos grous". Parece mesmo que os persas tenham utilizado as fogueiras para a transmissão das notícias.

Cada satrapia possuía uma guarnição e um comandante mili¬tar; comandante e sátrapa vigiavam se mútuamente. Além disso, um alto dignitário, "o ôlho do rei”, irmão ou filho do soberano, exercia uma fiscalização permanente. Seguido duma escolta armada, ia de província em província; chegando de improviso, inspecionava os serviços públicos, controlava as despesas e certificava se do bom funcionamento da administração. Sátrapas, comandantes militares e lugares tenentes reais viviam em contínuo estado de alerta. Esse sistema de Fiscalização, perfeitamente concebido, revelava se singular¬mente eficaz, mas só o era sob condição de ser o monarca um verdadeiro chefe de Estado e não um fantoche cujos cordéis manejavam as mulheres do harém. Mau grado os impostos e as exações dos sátrapas, mau grado as revoltas e as guerras, a Babilônia, a Fenícia, a Palestina e os outros países vassalos conheceram grande prosperidade, sob o domínio persa. Tira¬nos e funcionários tê las iam oprimido da mesma maneira, se não mais. Sob Dario, o império persa esteve tão solidamente organizado quanto o de Roma sob Trajano, Adriano e Antonino.

As satrapias vergavam ao peso da burocracia; os reis morriam, mas a burocracia sobrevivia lhes. Os governadores erguiam magníficos palácios, sustentavam numerosas concubinas e cria¬vam territórios de caça, imensas propriedades que os persas chamavam "paraísos". Os sátrapas e a administração provincial eram pagos pelo povo que, além do mais, pagava um tributo ao rei. Cada satrapia pagava, em talentos de ouro e de prata, o imposto devido ao soberano. Um talento de ouro persa cor¬respondia a 25,2 quilos de ouro, um talento de Babilônia a 33,6 quilos de prata. Em conjunto, as satrapias de Babilônia e da Assíria pagavam, todos os anos, 1.000 talentos de prata, o Egito 700, as satrapias micrasiáticas 500 e a Cária 400. Os cilianos, cuja contribuição anual estava fixada em 500 talentos, deles retinham 140; serviam para manter fôrças de cavalaria estacionadas na provincia. Em contraposição, forneciam à côrte 360 cavalos brancos de pura raça. Das 20 satrapias do império persa, somente a província de Pérsis, berço da dinastia, estava exonerada do pagamento do tributo; oferecia todos os anos presentes ao rei. A renda do Estado era de 7.600 talentos de Babilônia que alimentavam o subsidio imperial. Depois que, fugindo diante de Alexandre, Dario III levou consigo 8.000 talentos, impôs o rei da Macedonia às cidades de Susa, de Persépolis e de Pasárgada uma contribuição de 180.000 ta¬lentos. Além dum tributo anual, cada província pagava ao rei rendas em natureza; a Capadócia, por exemplo, fornecia 1.500 animais, 2.000 burros e 50.000 ovelhas. A Média cêrca do duplo. Dispensados do tributo, os bedumios do deserto ofereciam ao rei dos persas o valor, em incenso, de 1.000 talentos; imensas caravanas de dromedários o transportavam desde a terra dos gerrenianos e dos mineenses. "O país dos árabes espalha um odor suave", declarava Heródoto. As caravanas traziam escra¬vos comprados nas grandes cidades do império. Uma lista, encontrada no antigo país dos mineenses, faz alusão a mulheres escravas, destinadas a serem imoladas nos altares; uma é origi¬nária do país dos amonitas, 3 de Quedar, 6 de Dedan, 7 do Egito, 24 de Gaza. A Etiópia enviava à córte do rei dos persas 200 troncos de ébano, 20 prêsas de elefante e 5 jovens negros.

Não obstante, no império onde a crueldade e o luxo andavam de par, levava a população uma existência mais ou menos livre e mais ou menos feliz. Semelhantes a nós mesmos, não ignora¬vam os persas nem o ódio, nem o amor, nem a alegria, nem as lágrimas; a hospitalidade era sagrada.

Os homens da mesma posição saudavam se, beijando se nos lábios; o inferior saudava seu superior com um beijo na face. Todos baixavam a espinha e se inclinavam diante dos pode¬rosos que encarnavam a autoridade. Era proibido assoar se, escarrar em público, comer sua refeição na rua e poluir a água dos rios e dos riachos. Todo doente afetado duma mo¬léstia contagiosa era imediatamente isolado. Até o fim do reinado de Dario I, que corresponde ao apogeu do império, levavam os persas uma existência frugal; só tomavam uma refeição por dia e observavam escrupulosamente os preceitos de Zaratustra; a mentira era a falta mais grave que um homem podia cometer. Entre cinco e vinte anos, os moços praticavam o tiro de arco e a equitação. Mas o mestiçamento progressivo teve funestas conseqüências. Inclinados a adotar os modos e costumes estrangeiros, entregaram se os persas ao luxo e à licenciosidade; os nobres abandonaram se aos excessos de mesa e de bebida e tomaram o costume de embriagar se.

Tendo o rei necessidade de soldados, tolerava se a poligamia. Os pais casavam se com seus próprios filhos; as uniões con¬sanguineas entre irmão e irmã, pai e filha, mãe e filho eram admitidas.

As mulheres se locornoviam livremente e não usavam véus; dirigiam a casa e tinham o direito de assinar contratos em nome de seu marido. Somente as mulheres nobres tinham proibição de sair em companhia de outro homem que não seu esposo, ainda mesmo que se tratasse de membro de sua família.

Os filhos valiam mais que as filhas e o rei recompensava aqueles de seus súditos que possuíam numerosa descendência masculina. "Não se roga ao céu que nos dê uma filha", diziam os persas; o nascimento duma criança do sexo feminino era considerado quase como um castigo. A medicina sofria a influ¬ência da magia; ao cirurgião, ao ortopedista e ao padre, pre¬feria se o médico "que cura pela palavra" e, em vez de recorrer ao cirurgião, dirigiam se ao "médico da alma", cuja intervenção, mesmo se ineficaz, não corria risco de atentar contra a vida do paciente.

Viajantes gregos, de regresso da Pérsia, descreveram em termos entusiastas as construções e os palácios imperiais cujo luxo e esplendor os deslumbraram. A riqueza do imperio não parava de crescer, enquanto que o poder real se enfraquecia; finalmente, os reis mergulharam na loucura e na devassidão.

Sob o impulso de Zoroastro, tinham os persas adotado o monoteísmo, mas, no dia em que Cristo nasceu, não passava senão de uma lembrança o império persa.

Fonte: Assim viviam nossos antepassados
Autor: Ivar Lissner
Página: trechos extraidos da obra
Edição: 5ª edição em português
Observações: Editado pela Livraria Itaiaia Ltda.





PALESTINA

A terra dos hebreus até hoje é considerada o berço da cristandade. Desde os tempos antigos teve papel proeminente no curso da civilização humana.


A despeito da exigüidade, de seu território, a Palestina desem¬penhou maior papel na civilização, no pensamento, na ética, nas crenças do gênero humano, do que a Babilônia, a Assíria, a Pérsia, o Egito, a India e a China. No domínio da cultura exerceu influência maior que a civilização grega. O reino menor do Médio Oriente deu ao mundo o Cristianismo, a religião mais dinamica e mais rica que existe. O "Livro dos Livros", ou por outras palavras o Antigo Testamento, sobreviveu ao Livro dos Mortos dos egípcios, ao Mahabharata hindu, aos tratados de Confúcio, e às divindades astecas. A história do povo eleito e de seu deus Iavé transmitiu se de geração em geração.

Nenhuma obra foi tantas vezes queimada, traduzida, atacada, venerada, como o Antigo Testamento; é bem o Livro dos Livros, a obra universal por excelência. Quanto aos livros con¬sagrados à Bíblia são inúmeros; os rios de tinta que fez correr no curso dos séculos bastariam para encher os oceanos.

Como os babilônios, os fenícios e os árabes, pertenciam os hebreus à raça semítica; na época em que eram ainda nômades, chamavam nos "Habiru". O termo "judeu" deriva de Judá, nome do quarto filho de Jacó e Léa; mas, se bem que este nome só se haja difundido a partir de 516 antes de J. C. começou a história judaica há vários milhares de anos.

Abraão, o pai do povo judeu, é qualificado de hebreu no pri¬meiro livro de Moisés; vindo de Ur, na Suméria, cerca de 1700 antes de J. C., elevou altares a um deus único. Esses alta¬res se distinguiam pelo fato de não comportarem nem estátua nem efígie; para Abraão, a divindade era um ser imaterial.

Da mesma maneira que a arqueologia não cessa de corroborar os dados do Antigo Testamento, prova igualmente a realidade de Abraão. Na língua de seu país natal, trazia o nome de "Orhan" e é provável que Abraão tenha sido um príncipe de Ur; sem dúvida foi ele o primeiro a ter a idéia de substituir os holocaustos humanos por sacrifícios de animais.

Há quatro mil anos, deixou Abraão a Suméria pela terra de Canaã onde, após ter muito tempo hesitado, fortificou se na sua crença monoteistica; doravante convencido, ficou fiel à sua fé.

Por ocasião da morte de Abraão, seus dois filhos, Isaac e Ismael, o enterram piedosamente; o primeiro goza do favor do Eterno que lhe prodiga seus benefícios. "Isaac semeou e recolheu o cêntuplo", está dito no Gênesis. Tão grande era seu amor pela concórdia que, tendo mandado cavar dois poços de que pastores lhe disputam a propriedade, manda cavar um terceiro "para o qual não se procurou querela". A Isaac suce¬deu Jacó, cujos doze filhos deram nome às tribos de Israel.

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No ano 4, antes de nossa era, no reinado de Herodes, nasceu em Belém, Jesus, filho de Maria. A palavra "Cristo" vem do grego "christos", que significa "ungido". No ano 29 ou 30 de nossa era, o Cristo foi crucificado. Viveu realmente e realmente morreu na cruz.

Desde mil e novecentos anos, tenta se fazê lo morrer urna segunda vez. Esforçaram se por provar que Jesus era um personagem mítico. Pretendia se que Jesus não nascera nesta terra. Iluminados e fantasistas quiseram assimilar o Evangelho a uma lenda.

Giovanni Papini, nascido em Florença, autor duma história da vida de Cristo, propõe a seguinte questão a todos os detra¬tores: "Quem tomaria o lugar do grande Condenado? Não cessaram de aprofundar lhe o túmulo, mas nunca se pôde enterrá lo nele completamente”.A despeito das calúnias, dos opróbrios, das críticas, das negações, das interdições e das destruições voluntárias, o Cristo não foi afugentado desta terra. Nossa cronologia é sempre cristã. Continua a ser apli¬cada e se um homem tivesse sido capaz de inventar a vida de Cristo, seria maior ainda que o próprio Cristo.

Como se conhece Jesus, sua vida e sua obra? Quais são as fontes históricas de que dispomos? São os escritos do Novo Testamento. O Novo Testamento não constitui um livro único. É uma coletânea de textos redigidos em épocas diferentes, por diferentes autores, de conteúdo variado. A Igreja recolheu os no correr dos primeiros séculos de nossa era.

Os homens podem destruir, reduzir a escombros as igrejas sob as bombas ou incendiá las, arrancar todos os calvários, suprimir todos os altares, todos os crucifixos, todas as imagens de Cristo e da Virgem, Jesus nem por isso deixará de perma¬necer como o consolador da humanidade.


Fonte: Assim viviam nossos antepassados
Autor: Ivar Lissner
Página: trechos extraidos da obra
Edição: 5ª edição em português
Observações: Editado pela Livraria Itaiaia Ltda.



Comentário:
Ao tomar conhecimento do modo de vida dos povos antigos, temos a impressão de estarmos vivendo situações que se repetem, de forma análoga, nos dias atuais. Não importa se os historiadores discordam nos detalhes, nas datas e em algumas descrições. Na verdade, estímulos externos (sociais) ou internos (mentais), ou ainda, a combinação deles, que movem o comportamento das pessoas e escrevem a história dos povos, continuarão se sucedendo ao longo do tempo. A única mudança nas respostas oriundas dos comportamentos está no seu molde, ou seja, as diferenças culturais de cada sociedade, alicerçadas nas crenças, costumes, políticas e tecnologias de cada época.
O cérebro e, mais particularmente, a mente procuram se adaptar a situações do momento onde essas diferenças ocorrem. É possível acreditar que em algumas regiões cerebrais o código genético tenha “escrito” uma ampla e diversificada programação, cujo conteúdo, ativado pelos estímulos, reproduza respostas “pré-escritas” por uma memória genética padronizada pelas experiências armazenadas pela espécie. Essas respostas, passíveis de atualizações permanentes, facilitariam a ação individual ou grupal no tempo e na cultura.

Nos textos acima se lê com freqüência expressões como: “revoltas”, “devassidão”, “contínuo estado de alerta”, “licenciosidade”, “crueldade”, etc. Se reduzirmos essas e outras expressões á expressão: “comportamentos reativos”, estaríamos relacionando as respostas, aos estímulos violentos produzidos nas sociedades. Estaríamos também percebendo que a estabilidade de uma sociedade torna-se diretamente proporcional aos fatores que originam esses estímulos, como por exemplo, o bem estar ou mal estar produzidos pelas regras de convivência de cada uma.


REATIVIDADE NAS SOCIEDADES ATUAIS


Os exemplos aqui mostrados foram retirados da mídia impressa. São as notícias que lemos todos os dias. É bom ressaltar que, independentemente da data em que essas matérias foram escritas, nada se altera, pois os fatos se repetem como se seguissem o mesmo roteiro da violência que conhecemos, mudando apenas seus personagens, locais e detalhes de pouca importância para o fato violento em si. Nem todas as matérias puderam ser inseridas neste trabalho de forma integral. Pedimos desculpas e explicamos que os textos muito longos tiveram que ser encurtados para se adequarem aos subtítulos correspondentes.

Poder político e violência (racismo)


O nazismo na Alemanha de Hitler talvez seja o exemplo histórico mais conhecido de como o comportamento individual é capaz de influenciar comportamentos reativos, latentes em um grande número de indivíduos, num curto espaço de tempo, e direcionar para a guerra o conjunto das insatisfações sociais; como também pode se constituir numa doutrina capaz de influenciar outros povos, que não possuem modelo cultural equilibrado, durante longo tempo. Os massacres de motivação racista denotam não apenas a imaturidade social dos indivíduos, mas o grau de desequilíbrio de sua cultura.

Notícias:
Nazistas mataram seis milhões de judeus

Segundo uma estatística elaborada em 1946, os nazistas assassinaram seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O projeto do genocídio tem uma data inicial: 1923, quando Adolf Hitler, preso em Munique por ter liderado um golpe de Estado que fracassou, escreveu "Mein Kampf". Defendia a morte dos judeus. Cumpriu sua ameaça.

Os nazistas não inventaram o genocídio étnico: os turcos massacraram os armênios, de maneira sistemática, em 1917. Também não foram originais na criação dos campos de concentração, uma idéia britânica aplicada na guerra dos Boers, na África do Sul, no século passado. O anti-semitismo também não era propriedade dos nazistas: os "pogroms", ataques em massa contra judeus, eram comuns na Rússia Imperial. Os judeus nunca foram bem tratados na Europa. O que Hitler e seus sequazes fizeram foi dar um "método" delirante ao assassinato.

Em 1933, ao tomar o poder, os nazistas promulgaram uma série de leis raciais e começaram uma perseguição sistemática aos cidadãos de religião hebraica na Alemanha. Queimaram livros de autores judeus, expulsaram professores e funcionários públicos, seqüestraram propriedades. A partir de 1938, a violência tornou-se feroz.

Com a guerra, em 1939, os judeus foram impedidos de sair dos guetos. Em 1941, começou a ação de grupos especiais de extermínio. A partir de 1942, o regime implantou a chamada "Solução Final": a morte, em centenas de campos de extermínio. Os mais famosos destes "campos da morte" são os de Auschwitz, Treblinka e Dachau. Os judeus não foram as únicas vítimas: milhões de prisioneiros russos e ciganos foram mortos, fuzilados ou levados a câmaras de gás. (Marco Chiaretti)


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: MARCO CHIARETTI
Editoria: ILUSTRADA Página: 5-10
Edição: Nacional Tamanho: G 273 MAR 11, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
Chapéu: Memória

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Estudo vê expansão do neonazismo

Análise é da Universidade de Tel-Aviv; Brasil seria um dos principais focos de crescimento do racismo.

Relatório de 92 páginas, elaborado pela Universidade de Tel-Aviv, em Israel, aponta o Brasil como um dos principais focos de crescimento do neonazismo no mundo em 93. "No Brasil, o surgimento dos “skinheads” neonazistas botou um fim no mito da tolerância racial", diz o documento.

Quando avalia os motivos das efervescências racistas, o estudo é categórico: "A falta de esperança, desemprego e crise econômica" levariam os jovens "em busca daqueles que seriam culpados pela situação” - que são, para os neonazistas brasileiros, negros e judeus.

Os focos de neonazistas são encontrados, sustenta o relatório, nos centros de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, constata-se a proliferação dos skinheads "white power" e a divulgação em massa de um livro de S.E. Castan ("Judeu ou Alemão: Nos Bastidores da Mentira do Século"). O livro, editado no Rio Grande do Sul, tenta provar que o holocausto foi uma farsa.

No Nordeste, informa o estudo, surgiram no ano passado partidos neonazistas em Recife (PE), sobretudo uma agremiação conhecida apenas pelas siglas "S.P.F". Também houve a consolidação de novas agremiações nazistas ao norte de Belém do Pará, bem às margens do rio Amazonas, segundo o documento, onde é pregado "o Brasil para os brasileiros". O pesquisador David Kochavi, de Tel Aviv, escreveu que os neonazistas do norte brasileiro "andam em grupos de três ou quatro, cobertos de tatuagens, e não é fácil entender sua ideologia: entre eles há negros e nordestinos, abominados pelos skinheads do sul do Brasil".

Alguns pequenos "focos" são elencados como irradiadores de ideário racista em regiões brasileiras tidas como acima de qualquer suspeita. Por exemplo: a cidade de Aparecida do Norte (a 380 km de São Paulo), considerada o maior centro católico do Brasil, surge como centro neonazista - segundo o relatório, por obra de seu ex-prefeito, Cláudio Galvão de Castro (PDT). Informa a Universidade de Tel Aviv que "um dos líderes do Partido Brasileiro Nacional Socialista, Galvão de Castro, chegou a prefeito da cidade" e isso se deveria "às vantagens que os grupos antidemocráticos tiraram desde a renovação da democracia".

Outro foco de concentração dos neonazistas seria uma colônia alemã chamada Honehau, no Paraguai, que estaria "exportando" seu ideário para as fronteiras com o Brasil e a Argentina. Aliás, é de uma cidade Argentina, Tucuman, que teriam vindo para o sul do Brasil, em 1993, publicações neonazistas. Dentre as 34 apontadas, o relatório israelense cita como principal o jornal "El Nacionalista".

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: ISRAEL ISSER LEVIN
Editoria: PAINEL Página: 1-3
Edição: Nacional Tamanho: G 466 APR 7, 1994
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Arte: CHARGE
Observações: PE BIOGRÁFICO
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Anti-semitismo alemão resiste

Pesquisa divulgada ontem pelo instituto alemão Emnid revela que, passado quase meio século da queda do nazismo, os alemães têm atitudes anti-semitas. Segundo a pesquisa, encomendada pelo AJC (iniciais em inglês do Comitê Judaico Americano), 22% não gostariam de ter judeus como vizinhos e 28% desaprovariam a eleição de um presidente judeu. A pesquisa mostrou que 31% dos alemães acreditam que os judeus têm influência excessiva nos acontecimentos mundiais e 39% acham que eles exploram o Holocausto em benefício próprio.

"Os resultados são desapontadores", disse David Singer, do AJC. Ele acha alarmante que, depois de 50 anos do assassinato de 6 milhões de judeus, 54% dos alemães achem que já é hora de esquecer o Holocausto.


Fonte: Folha de São Paulo
08/03/94
Editoria: MUNDO Página: 2-11
Edição: Nacional Tamanho: M 120 MAR 8, 1994

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Yom Hashua (holocausto)

Ao longo de sua existência, o povo judeu tem sido submetido a provações e perseguições que têm posto à prova sua capacidade de sobrevivência material e espiritual. Isto ocorreu porque desde o exílio, iniciado por volta de 70 d.C., os judeus permaneceram sem uma pátria, um Estado próprio que pudesse lhes dar sustentação e segurança.

Já na Idade Média, em muitas cidades da França e da Alemanha, comunidades judaicas foram massacradas após serem insufladas, freqüentemente pelas próprias autoridades, que assim desviavam a atenção da população de problemas como a fome e a peste, que as referidas autoridades não conseguiam resolver. É o que se chamou de uso do judeu como bode expiatório de problemas que ele nunca havia criado.

Apesar de perseguições terem sido freqüentes, nada se compara ao holocausto, o massacre maciço de judeus perpetrado pelos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Seis milhões de judeus foram mortos em campos de extermínio e a comunidade judaica se prometeu que, primeiro, isto nunca mais iria acontecer e, segundo, isto nunca seria esquecido. Para isto recordamos o holocausto no dia de hoje, chamado em hebraico de Yom Hashua.

Ainda hoje nos perguntamos por quê? Porque os nazistas perpetraram uma matança tão grande, tão sem motivos, contra um povo pacífico que queria apenas o direito de viver em paz, preservando sua cultura e praticando suas tradições e sua religião?

A precisa eficiência alemã nos atacou com ferocidade nos campos de extermínio. Juntou-se a uma teoria racista um líder carismático e cruel; juntou-se a um ressentimento contra o mundo, um sonho de superioridade racial; juntou-se a necessidade de se encontrar um inimigo universal, um povo fragilizado e pacífico, talvez até um pouco ingênuo. O resto da história conhecemos todos.

Se não conseguiram a destruição física de todos os judeus, os nazistas quase conseguiram a destruição do judaísmo europeu com sua língua, sua literatura, suas práticas cotidianas, seus valores.

Mas nossos mártires não morreram em vão. Suas mortes cevaram a terra onde, alguns anos depois, ressurgiria o moderno Estado de Israel. A ideologia de seus carrascos representa até hoje (e continuará representando através dos séculos) o que há de mais desumano e avesso à civilização.

O racismo, base do seu pensamento, é considerado por todos, crime dos mais nefastos. Já o judaísmo continuará inundando a humanidade com seus valores positivos, sua visão de mundo e dignidade.

Nós brasileiros de origem judaica desejamos a união de todos a favor de um mundo em que a paz substitua as guerras, o amor ocupe os espaços do ódio em nossos corações e a tolerância substitua o preconceito e o rancor.
ISRAEL ISSER LEVIN, 58, empresário, é presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: ISRAEL ISSER LEVIN
Editoria: PAINEL Página: 1-3
Edição: Nacional Tamanho: G 466 APR 7, 1994
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Arte: CHARGE
Observações: PÉ BIOGRÁFICO

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O Yom Hashoá ianomâmi

Para início de conversa: o massacre dos ianomâmi de Haximu, não foi um só, foram vários. É só ler o Laudo Pericial da Polícia Federal, conforme inquérito policial número 078/93-DPF-1/RR/19. ago 93-30. set. 93/2 volumes. Os meios de comunicação documentaram como possível e foi o suficiente para se chegar aos fatos – houve o massacre. O resto é apenas uma prática comum de fazer persuadir a opinião pública: tudo que se vê não é aquilo que se vê, é apenas o que EU quero que vocês vejam.

É neste jogo de sofismas que são manipulados todos os fatos hediondos do nosso cotidiano: Candelária, Vigário Geral, Carandiru, Esquadrão da Morte, Corruptos do Orçamento, Camarilha do Governo Collor, Extermínio de Crianças, etceteras e etceteras...

Que fique claro: falar em assassinatos de índios no Brasil é pleonasmo. Em nosso país, nos tempos da férrea ditadura, muitos cidadãos foram assassinados, torturados e quando os parentes e a sociedade cobravam do governo, recebiam a solene resposta: "Não existe tortura, nem presos políticos no Brasil". Quando o jornalista Vladimir Herzog apareceu morto numa cela de prisão, apesar da foto mostrar ser impossível alguém suicidar-se daquele jeito, revelava-se o lado espetacular dos assassinatos sob tortura. Levou anos para que a família de Herzog e a sociedade brasileira tivessem uma resposta honrada diante daquele odioso crime.

O massacre de Haximu é aquela mesma imagem espetacular da Serra Pelada, encobrindo os verdadeiros conflitos. No caso Haximu, importa se foram "19, 40, 73, 89, 120, e finalmente 16 cadáveres chacinados?" Imaginem se 16 membros de sua família tivessem sofrido todo tipo de sevícias, ou colocados como reféns por bandidos que invadiram a festa de aniversário em sua casa. Estes bandidos não mataram todos os 25 convidados ou membros de sua família, mas mataram e seviciaram apenas 16 membros de sua família. faz diferença? Hitler não matou oito milhões de judeus, mas foram apenas seis milhões. Faz diferença?

Esta contabilidade em que muitos gostam de embarcar é evidentemente, uma contabilidade contando juros e lucros para aqueles que estão explorando as riquezas no território ianomâmi. Que tal uma CPI da exploração do ouro na bacia amazônica? Que se esclareça logo de uma vez o que é garimpo e o que é mineração.

E o que importa se o massacre foi no lado do território da Venezuela ou do Brasil, pergunto? Isto seria hipocrisia, pois querem todos acreditar que lá, naquelas lonjuras, vive-se o jogo da terra de ninguém e o que vale é o ouro. E mata-se por ele como foi o massacre dos ianomâmi de Haximu.

E lembro ainda mais, os txucarramãe tiveram uma história parecida, assediados por fazendeiros. Esse grupo caiapó começou a sentir suas terras encurtando sob seus pés, reagiram, mataram e foram mortos, até ganharem um pedaço de terra no parque do Xingu.

E lembro mais: em 1985 outros índios, também caiapó, no sul do Pará, freqüentaram as manchetes da imprensa nacional como inimigos mortais dos recém chegados fazendeiros, madeireiros e garimpeiros. Os caiapó reagiram matando. E morrendo.

Hoje, na cidade de Redenção, sul do Pará, os caiapó transformaram-se nos maiores correntistas e aplicadores econômicos da região. Aliás, Paulinho Paiakan é um dos dinâmicos caciques empresários que empregam brancos e índios em seus inúmeros negócios, fazendo surgir uma massa indígena ávida de consumo, deixando o comércio local excitado e a população regional com água na boca.

A história dos ianomâmi não se diferencia das outras acima lembradas. O verdadeiro massacre dos Ianomâmi vem acontecendo desde a chegada dos garimpos em seu território no início da década de oitenta, quando já morreram 15% de sua população que era de 20 mil pessoas (Brasil/Venezuela).

Quem sabe, se as mineradoras repassassem as riquezas do território ianomâmi para os índios, em breve surgiria um deles com câmera na mão e uma idéia na cabeça para contar os bastidores desta história. Assim como fez Steven Spielberg em "A Lista de Schindler".
Yom Hashoá significa em hebraico "Dia do Holocausto"

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: AURÉLIO MICHILES
Editoria: MAIS Página: 6-3
Edição: Nacional Tamanho: G 1256 MAY 15, 1994
Seção: PONTO CRÍTICO
Observações: PÉ BIOGRÁFICO

Território e violência (propriedade)


A diáspora, –ou dispersão– dos judeus que se espalharam pelos quatro cantos do mundo, teve como causa a expansão territorial dos romanos. Nada é tão conhecido como a Diáspora na história da humanidade, resultado do desejo de um povo em manter seus hábitos, normas éticas e costumes religiosos integrados. Talvez um dos poucos exemplos que define as necessidades, de um grupo humano unificado por elementos integradores, de permanecer com identidade religiosa preservada. Hoje Israel é um Estado militar, um grande quartel que defende e ocupa territórios num ritmo alucinante de guerras intermináveis. O êxodo de muitos outros povos foi também, e ainda é, determinado pelo expansionismo territorial e pelo racismo de agrupamentos humanos que se consideram superiores.

Notícias:

Árabes e israelenses
Quando se constituiu o Estado de Israel, muitos liberais e socialistas vislumbraram uma esperança: com Israel, haveria naquelas regiões ondas sucessivas de renovação política. Parecia que um Estado semi-socialista carregaria consigo um progresso de novo tipo, que ajudaria a varrer regimes sociais e políticos arcaicos, pelas próprias contradições emergentes e o impacto das transformações geopolíticas e econômicas sobre as populações árabes subalternizadas por déspotas impiedosos.

Do lado de Israel ainda pesava o horror dos campos de concentração e da diáspora. Além disso, eles provinham do Ocidente, onde a "intelligentsia" judia exercera uma influência duradoura e abrira caminhos seculares à criação filosófica, científica, artística e política. As antigas civilizações árabes e sua riqueza eram omitidas. As artimanhas da implantação imperialista de um Estado-tampão encontrava pequena oposição, fora dos países árabes, e prevalecia uma simpatia por Israel que ainda não se dissipou. Pequenas e grandes confusões, que se desmascaravam aos poucos, corroíam o significado externo original de Israel. Sua conversão em uma nação militarista só comparável à Alemanha nazista e a predisposição às guerras fratricidas com os vizinhos, sob terror permanente, aumentaram as percepções negativas.

Eu e alguns amigos, que participamos da euforia pelo aparecimento de Israel, atribuímos um sentido sociológico às violências que se desencadeavam. Tratava-se de um "processo natural". Os árabes recorriam à belicosidade por ser de sua tradição histórica, e Israel respondia no mesmo tom para sobreviver. Mas teria de prevalecer a razão ou a destruição recíproca? Seus próprios interesses nacionais e internacionais culminariam em uma difícil acomodação à coexistência pacífica, que deixaria para trás as amarguras iniciais.

Essa miragem idílica nunca se concretizou. Manifestações de ódio acarretavam a vingança em ascensão: "olho por olho, dente por dente". Todos encontravam na extrema barbárie a base psicossocial da manutenção de um status quo insuportável.

A Israel coube demonstrar ao mundo a perfeição de sua máquina bélica, pequena mas afiada, superior para certos fins à dos Estados Unidos, curvados às exigências da guerra fria e das suas comunidades judias. As recentes tentativas de pacificação foram recebidas com frieza no Ocidente e com temor em Israel e nos países árabes. Palestinos e israelenses pareciam prestes a estabelecer uma saída promissora. É cedo para vaticinar se as conversações de paz malograram. Às vezes, o agravamento dos conflitos produz efeitos imprevistos. As ocorrências que cercaram o enterro de Goldstein salientam, porém, que as negociações só podem ter êxito se o rancor enraizado "civilizar-se" ou sublimar-se. É terrível o que disse o rabino Yaacov Perrin: "Um milhão de árabes não valem a unha de um judeu". Por que? E o que vale a unha de um árabe da perspectiva antagônica? A paz requer a extirpação voluntária da cultura da violência e do terrorismo étnico-religioso.


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: FLORESTAN FERNANDES
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional Tamanho: G 460 MAR 7, 1994

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Arafat tenta apoio saudita

O líder da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), Iasser Arafat, visitou ontem a Arábia Saudita e se encontrou com o rei Fahd. É o primeiro encontro dos dois desde agosto de 1990, quando Arafat anunciou seu apoio ao Iraque na Guerra do Golfo.

Até Arafat anunciar seu apoio à invasão iraquiana do Kuait, os sauditas eram os principais financiadores da OLP. O reino cortou uma ajuda anual de US$ 85,5 milhões. Arafat, em crise financeira, tenta reconquistar este apoio.

Desde 1991 o rei Fahd se recusava a receber qualquer delegação palestina. Ele só aceitou se reunir com Arafat por pressão do presidente egípcio, Hosni Mubarak.

Antes de chegar a Riad, Arafat passou em Meca, cidade sagrada para o islamismo. Ele fez o que os muçulmanos chamam de "pequena peregrinação".

Em Taba, Egito, a delegação de Israel e o chanceler egícpcio, Amr Moussa, diziam ontem estar perto de um acordo para implementar a autonomia palestina na faixa de Gaza e em Jericó, regiões ocupadas por Israel.

O delegado palestino Faisal al Husseini, no entanto, afirmou que Israel estava "pressionando" a OLP a fazer concessões, ameaçando manter o confisco de terras e recusando a liberação de prisioneiros palestinos.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-8
Edição: Nacional Tamanho: G 158 JAN 25, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
Das agências internacionais

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Clinton decide enviar mísseis Patriot a Seul
De Washington
O presidente dos EUA, Bill Clinton, anunciou ontem que seu país resolveu enviar mísseis Patriot para a Coréia do Sul como medida "puramente defensiva". É o mais recente desenvolvimento de uma escalada de incidentes nas relações entre as duas Coréias.

Os EUA mantêm 37 mil soldados na Coréia do Sul. O plano de exercícios militares conjuntos, arquivado no início do ano depois que a Coréia do Norte anunciou concordar que entidades internacionais inspecionassem suas instalações nucleares, também foi reativado por Clinton.

Depois que a Coréia do Norte voltou atrás em sua decisão, a Coréia do Sul colocou em alerta os 650 mil integrantes de suas Forças Armadas. Clinton enviou carta ao presidente sul-coreano, Kim Young-Sam, dizenqo que "uma invasão da Coréia do Sul será considerada uma invasão aos EUA".

Em Washington, o secretário de Estado Warren Cjristopher disse estar certo de que a China irá auxiliar os EUA na questão coreana. A China estava pressionando a Coréia do Norte a aceitar por caminhos diplomáticos a inspeção de suas instalações nucleares. (Carlos Eduardo Lins da Silva)

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
Editoria: PRIMEIRA PÁGINA Página: 2-10
Edição: Nacional Tamanho: G 179 MAR 22, 1994
Legenda Foto: Norte-coreano na AIEA
Crédito Foto: Reuter
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Entenda as zonas de exclusão
Logo depois da Guerra do Golfo (janeiro-fevereiro de 1991), a minoria curda do norte do Iraque e rebeldes xiitas do sul do país lançaram ofensiva contra o governo de Saddam Hussein. Os rebeldes xiitas acharam que podiam tomar o governo. Os curdos queriam formar um país independente. Ambos esperavam contar com apoio ocidental e com a fraqueza de Saddam, recém-derrotado por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos.

Mas ao Ocidente não interessava esfacelar o Iraque. Um país curdo era fortemente rejeitado pela Turquia e pelo Irã (que têm minorias curdas). Um governo xiita podia se vincular à revolução islâmica iraniana. Além disso, o mandado da ONU era apenas para garantir a desocupação do Kuait, o emirado invadido em agosto de 1990.

Sem apoio, as duas rebeliões foram esmagadas. Para pôr fim aos bombardeios contra civis, o Conselho de Segurança da ONU impôs as zonas de exclusão aérea, no norte e no sul. Caças dos EUA e aliados mantêm vôos de vigilância. Já foram derrubados aviões iraquianos que sobrevoaram áreas proibidas. Também foram atacadas, desde 1991, várias estações de radar que armaram defesa contra os caças.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-12
Edição: Nacional Tamanho: G 191 APR 15, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
Da Redação

Controle demográfico, aborto e violência

Esses são temas polêmicos que geram muito debate. O controle das populações animais é um fenômeno natural complexo, onde território, alimento e outros fatores como a seleção natural, atuam para manter a estabilidade. A falsa idéia de superioridade entre os humanos civilizados os faz resistentes ás leis da natureza. Conceitos como inteligência, racionalidade e desenvolvimento camuflam os resultados que decorrem dessa onipotência arraigada. Lidamos quase sempre com as conseqüências (problemas) resultantes dessa postura arrogante.

Notícias:

O holocausto chinês
"A agência de notícias Xinhua informou ontem que uma nova lei submetida ao Parlamento chinês prevê a utilização de aborto e esterilizações para evitar nascimentos de qualidade inferior e elevar os padrões da população como um todo" (Folha, 21/12/93, pág. 2-10). As medidas da ditadura chinesa sobre controle populacional não apenas se aproximam do horror nazista do holocausto judeu. O superam.

A ditadura chinesa já utiliza todos os meios para deter o constante crescimento de sua população. Agora, assume, descaradamente, uma política de eugenia, para "elevar os padrões da população". Na nova-velha civilização chinesa não haverá lugar para doentes mentais, deficientes físicos e a coorte dos que forem considerados prejudiciais à reprodução eugênica da população.

Esses termos científicos são assépticos: do que se trata mesmo é da obsessão fascista da pureza e, para tanto, o Estado patrocinará todos os assassinatos. A dedução é lógica: um regime totalitário não recua diante de nada, mesmo que sejam corpos de seus cidadãos. Como o massacre da Praça da Paz Celestial demonstrou sobejamente.

Talvez Robert Kurz ("O Retorno de Potemkin", Paz e Terra, 1993) tenha razão: os regimes periféricos que intentarem a modernização capitalista, já agônica mesmo nos países centrais, transformar-se-ão inexoravelmente em regimes de terror contra seus próprios cidadãos. Deng Xiaoping se esforça para demonstrar as teses de Kurz.

Uma tal política "populacional" é intrínseca ao regime chinês, a combinação de um regime político repressor e uma "saudável" orientação econômica, o "socialismo de mercado" chinês. Essa perversa combinação de ditadura e crescimento econômico não é exceção: se já não estamos desmemoriados, a ditadura militar foi esse incesto, com as conseqüências hoje conhecidas.

O declínio do crescimento populacional é, historicamente, determinado por fatores como urbanização, mercantilização da vida em geral.A procriação está deixando de ser uma obrigação fatalista para transformar-se numa opção. É claro que os governos, de todos os matizes e em todas as épocas, sempre tentaram moldar comportamentos reprodutivos.

O notável é que, em meio a processos sociais complexos, de enorme força determinante, tenha se forjado uma consciência, crescente, sobre a procriação, os filhos, o direito ao corpo; isto é uma conquista civilizatória, que torna os homens e mulheres donos de seu próprio devir, sem transformá-los em seres a-históricos.

Distinguimos o processo civilizatório da especificidade de cada sistema de produção. Remando contra a maré da complacência burguesa, denunciamos a ameaça do holocausto chinês como um crime contra a humanidade.

FRANCISCO DE OLIVEIRA, 59, é pesquisador e presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Publicou "Crítica da Razão Dualista" e "A Falsificação da Ira", entre outros livros.


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: FRANCISCO DE OLIVEIRA
Editoria: PAINEL Página: 1-3
Edição: Nacional Tamanho: G 809JAN 27, 1994
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES

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Limites do capital

"O espectro malthusiano da fome ronda novamente a humanidade. Agora, menos pela incapacidade agrícola do que pela incapacidade do capitalismo moderno de criar empregos. Acessível a poucos, a alta tecnologia, alicerçada na ciência, criou um novo padrão de produtividade, acima da demanda, sem maior absorção de mão-de-obra. Como bolo fermentado, o desafio demográfico e ecológico tende a crescer diante de um mundo despreparado e injusto”.

Eduardo Fraiha (Belo Horizonte, MG).
Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: PAINEL Página: 1-3
Edição: Nacional Tamanho: G 333 JAN 11, 1994
Seção: PAINEL DO LEITOR

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Terra só pode ter 2 bi em 2.100, diz estudo

Das agências internacionais
O planeta Terra não terá condições de abrigar mais de 2 bilhões de seres humanos no ano 2.100, embora esteja prevista para a época uma população entre 12 bilhões e 15 bilhões de pessoas.

"Se não conseguirmos controlar com inteligência o crescimento da população, será a natureza que o fará", afirmou David Pimental, da Universidade Cornell (EUA), que apresentou os números na reunião da Sociedade Norte-Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).

Segundo o estudo de Pimental, que será publicado em maio na revista "Population and Environment", os recursos naturais disponíveis nos próximos cem anos serão suficientes para não mais de 2 bilhões de pessoas viverem em condições de "relativa prosperidade". Para Pimental, isso significa "um bem-estar comparável ao atualmente vigente nos EUA".

Para alcançar o objetivo indicado no estudo, as famílias deveriam limitar o número de filhos a 1,5. Com o crescimento demográfico nos níveis atuais, Pimetal pinta um quadro de miséria, pobreza, doenças e fome.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: BRASIL Página: 1-12
Edição: Nacional Tamanho: G 166 FEB 28, 1994
Seção: CIÊNCIA

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Ideologia e violência


Nas sociedades naturais o eixo cultural é sustentado pela crença mítica e sabedoria dos ancestrais, representadas pela Tradição. É uma forma de preservar a unidade grupal com base em ideário onde organização política, econômica, religiosa e legislativa estão contidas num plano abstrato, não-institucional. Uma forma de inscrever na consciência individual tudo o que é essencial para manter a convivência estável. Uma sabedoria sintética que funciona sem instituições. Com a perda do eixo cultural, os civilizados tiveram que reinventar outras formas de conviver e, até hoje, não conseguiram atingir esse objetivo. Quase toda ideologia inventada pelo homem possui no seu cerne uma parte podre, uma brecha de onde brotam seus interesses pessoais, princípio da desigualdade e da violência; invenção que gera debate, que cria novas ideologias que conduzem à violência.

Notícias:

Rússia esconde o fantasma do fascismo
...mais a oeste, nos Bálcãs, a guerra continua -e em lugar de diminuir de intensidade, está aumentando. Os sérvios bósnios instituíram uma mobilização geral. Há informações de que tanto a Sérvia quanto a Croácia estão enviando unidades do Exército regular à Bósnia. Numa viagem a Belgrado na semana passada, Jirinovski vinculou esses acontecimentos quando afirmou: "A retirada acabou, estamos lançando uma ofensiva geral, que nossos inimigos nos temam... Que se contorçam em Paris, Londres, Washington e Tel Aviv". A viagem de Jirinovski aos Bálcãs simboliza o perigo que confronta o Ocidente. Devemos levá-lo a sério - tanto pelo que ele diz, quanto por onde ele o diz.

Através de suas palavras, Jirinovski nos revela contra o quê ele é. Com exceção da "limpeza étnica" sérvia, não está claro o que defende. Ele é contra a democracia, contra o livre mercado, contra o Ocidente e contra os não-russos e não-brancos –dependendo da platéia que o escuta. A frustração com as perdas da Rússia é sua força motriz, assim como o ressentimento contra aqueles que alegadamente as causaram: os ocidentais, os capitalistas, os judeus.

Jirinovski é um fascista puro e simples. A nação é suprema; o indivíduo, subserviente. Para ele, ser russo é uma condição intrinsecamente boa. Ser qualquer outra coisa é uma condição intrinsecamente má –a não ser que, com objetivos táticos, ele queira unir os russos e os sérvios numa irmandade eslava ou os russos aos europeus e americanos brancos, contra os "negros".

Igualmente inquietantes são os lugares onde ele vem fazendo seus pronunciamentos. Na semana passada ele encontrou uma platéia receptiva na Sérvia. Ele e o homem-forte da Sérvia, Slobodan Milosevic, são sob muitos aspectos irmãos de alma. Ambos se alimentam de um hipernacionalismo que combina autoritarismo no interior do país com o desprezo por tudo o que é estrangeiro.
O perigo é que os Milosevic e Jirinovski continuem a pregar sua mensagem de intolerância e ódio, chegando até mesmo a conspirarem juntos, pressionando outros dirigentes a "defenderem" seus povos. Em pouco tempo, o etnocentrismo, e não a democracia, poderia se transformar no princípio organizador da região. A história nos diria que isso é provável.

Isso poderia levar às seguintes consequências: A Sérvia poderia estender sua limpeza étnica aos albaneses em Kossovo e Sandjak e aos húngaros em Vojvodina. Poderiam crescer as tensões entre a Grécia e a Albânia sobre os albaneses já expulsos da Grécia e os 60 mil a 300 mil gregos que vivem na Albânia. (O litígio já é tão grande que a Grécia e a Albânia sequer conseguem chegar a um acordo sobre o número verdadeiro).

Essas tensões iriam provavelmente ter ecos na Turquia –onde haverá exortações pela defesa dos albaneses, em sua maioria muçulmanos, além das aproximadamente 800 mil pessoas etnicamente turcas que vivem na Bulgária. Os nacionalistas húngaros poderiam chegar ao poder, com base em promessas de proteger os mais de 4 milhões de húngaros étnicos que vivem em países vizinhos.

... como pode o Ocidente conter o conflito nos Bálcãs e impedir que ele se transforme numa ampla guerra dos Bálcãs? O Ocidente pode não ser capaz de parar a guerra na Bósnia por um custo aceitável, mas, com decisão e previsão, pode impedir que outra guerra tenha início na Macedônia, na Albânia, na Hungria e em outros Estados vizinhos.

JAMES A. BAKER 3.º foi secretário de Estado dos EUA durante o governo de George Bush. Copyright Los Angeles Times Syndicate.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: JAMES A. BAKER 3.º
Editoria: MUNDO Página: 3-6
Edição: Nacional Tamanho: G 1799FEB 6, 1994
Crédito Foto: Associated Press - 13.ago.92
Observações: PÉ BIOGRÁFICO; TRADUÇÃO; CLARA ALLAIN
Tradução de Clara Allain

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Sucessão emaranhada
As moscas azuis turvam o horizonte político. Ninguém sabe mais o que há por trás das siglas dos partidos, e as exigências de "programas de governo" confundem-se com ambições pessoais.

As elites no poder (na economia, na sociedade civil, nas instituições-chave, no governo) gritam por clareza e andam com os nervos à flor da pele. Para não exibir suas rachaduras e contradições, fazem das tripas coração e aceitariam o diabo como candidato, desde que ele as escoltasse ao reino encantado da iniciativa privada, agora remando no barco da "modernização" (expropriação privada do público) e do "neoliberalismo" (ideologia e prática da exclusão dos pobres e dos humildes pela via legal).

Ressurgem os verdadeiros ancestrais dos hominídeos –os cônsules civis da ditadura, articulando acordos para bloquear a ascensão da plebe, simbolizada na candidatura Lula. Reaparecem os filhos pródigos dos grandes partidos, como vestais de passado tenebroso. Brigam entre si as figuras mais ilustres e respeitadas do "partido do governo", identificadas com a salvação da ordem à custa de fincarem suas estacas no "centro", estraçalhando suas bandeiras social-democráticas.

Nesse conjunto sombrio, só o PT, descrito como arcaico e pré-histórico, com seus aliados de esquerdas ainda mais malsinados, não sucumbe aos filtros mágicos no poder. Olha e segue para a frente. Questiona a sociedade civil, ordenada a partir do tope; repele a cultura vazia esclarecida, que não ousa mudar se não para fortalecer privilégios e aparências enganadoras; repudia o Estado fiscal, que canaliza a riqueza pública forjada à base de impostos arbitrários e coloniais para os que mandam.

As críticas do PT, vindas de baixo e com a voz do povo ao seu lado, não encontram respostas políticas. Elas exigiriam uma revolução nos costumes e na inércia política dos de cima. A começar por um projeto arrojado e coerente de umas das maiores e mais complexas "nações emergentes" do universo global... Por isso, os caluniadores esgrimem palavras emblemáticas e provocações burlescas, atribuindo ao temido adversário aquilo que foi as entranhas, a consciência e os sentimentos deles próprios, que confundem governar com voluntarismo autocrático, entendendo-se por meio das célebres conciliações conservantistas.

O Brasil possui ou não futuro promissor? É claro que possui. Impõe-se, contudo, primeiro limpar as cavalariças ou castigar os vendilhões do templo.

Não adianta esconder a natureza de elites que se formaram sob a égide da colonização e buscam por enaltecer-se por uma combinação esdrúxula de patrimonialismo carcomido e de imperialismo neomonopolista. Os lucros fluem. Caminham, no entanto, na direção errada. Saem do esfolamento dos assalariados e dos famintos. E sobem, diretamente, para o céu: as arcas das fortunas da burguesia nativa e da comunidade internacional de negócios.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: FLORESTAN FERNANDES
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional Tamanho: G 466 APR 7, 1994
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Arte: CHARGE
Observações: PÉ BIOGRÁFICO

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O suicídio de ídolos induz à morte de fãs?

Da Reportagem Local
Na última segunda-feira, três dias após Kurt Cobain ter se suicidado com um tiro na cabeça, um homem de 28 anos repetiu o mesmo gesto em Seattle. Ele acabava de chegar da cerimônia que reuniu 5.000 pessoas em uma praça da cidade, em homenagem a Kurt. O motivo de seu suicídio, segundo seus amigos, foi a morte de Cobain. O fato era esperado pela polícia de Seattle, que agora teme uma onda de suicídios por lá, motivados pela morte do ídolo.

O suicídio inspirado pelo gesto praticado por outras pessoas não está ligado somente à morte de ídolos. Personagens fictícios da literatura também inspiram este tipo de gesto. Em 1774, o lançamento do livro "Werther", do poeta alemão Goethe, provocou uma onda de suicídios na Europa. Motivo: a identificação com o destino do personagem-título do livro, que se mata por amor com um tiro. A epidemia de suicídios foi tão longe que várias pessoas, na maioria jovens, se mataram envergando casacos azuis e colete amarelo, as roupas que o personagem usava no final do livro.

A idéia do suicídio ou da morte na juventude causada por comportamentos autodestrutivos (principalmente pelo uso de drogas), já virou até lema. É o caso da frase "Viva rápido, morra jovem e tenha um cadáver bonito", que estampou camisetas e virou adesivo. A expressão foi criada após a morte de Sid Vicious, líder da banda punk Sex Pistols, que segundo uma das versões que explicam o caso, teria feito um pacto com sua namorada Nancy.

A versão diz que Sid matou Nancy e depois pretendia se matar, deixando de fazê-lo por falta de coragem. No primeiro semestre de 1986, o número de adolescentes suicidas cresceu no Japão. A polícia atribuiu o fato à morte da cantora pop Yukiko Okada, então com 18 anos, que se jogou de uma altura de sete andares em Tóquio. Depois foram registrados 30 suicídios entre adolescentes no país.

Os números são ainda mais impressionantes quando se fala nos casos de morte de seguidores de seitas religiosas. O mais famoso data de novembro de 1978. Foi o suicídio coletivo de 913 pessoas na Guiana. Eram todos seguidores da seita Templo do Povo, do pastor norte-americano Jim Jones. Eles se envenenaram com cianureto, enquanto seu líder deu um tiro na própria cabeça.

Em abril do ano passado, um incêndio matou 85 seguidores do Ramo Davidiano, liderado por David Koresh. Eles ficaram 51 dias sitiados em uma casa em Waco, no Texas (EUA), e terminaram se matando quando a polícia norte-americana fechou o cerco. O líder, que acreditava ser uma reencarnação de Jesus Cristo também morreu.
Pouco depois, deputados britânicos pediram o endurecimento no controle sobre seitas religiosas no país.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: FOLHATEEN Página: 6-3
Edição: Nacional Tamanho: G 449 APR 18, 1994
Seção: POR TEENS
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: SUICÍDIO






Terrorismo e violência

O terrorismo é uma forma de vingança ou retaliação que pode ter motivação política, religiosa ou ideológica. Pelo fato de ter a crueldade e o ódio como motores, ela pode assumir outras motivações, como o simples prazer. Terrorismo e guerrilha são formas de guerra não convencional, onde os indivíduos passam a ser elementos pouco importantes para a consecução de objetivos. Formas graves de desvio social.


Notícias:



Réus confessam sob tortura
Os togoleses Attiogbé Stéphane Koudossou e Gérard Akoumey, presos em julho de 1993 sob suspeita de terrorismo, foram condenados a três anos de prisão após confessarem sob tortura, diz a Anistia. A Justiça negou um pedido de exame para comprovar as torturas.

A Anistia pede que seja feita uma investigação imparcial sobre a questão da tortura a que foram submetidos os dois prisioneiros e pede também um julgamento justo. Apelos devem ser enviados a: Son Excellence Monsieur le Général Gnassingbé Eyadéma, Président de la République, Palais Présidentiel, Avenue de la Marina, Lomé, Togo.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 3-3
Edição: Nacional Tamanho: M 99 JAN 2, 1994

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Golpe marcou 93 no Peru

O engenheiro agrônomo Alberto Fujimori, 54, foi eleito presidente do Peru em 10 de junho de 1990, ao derrotar o escritor Mario Vargas Llosa no segundo turno. No primeiro turno, sua estréia na política, ele obteve o segundo lugar. Para o turno decisivo, conseguiu o apoio das esquerdas, unidas contra o liberalismo de Vargas Llosa, o qual Fujimori adotaria no governo.

Em 5 de abril de 1992, deu um golpe de Estado com apoio militar. Fechou o Congresso e o Judiciário, argumentando que eles bloqueavam as reformas econômicas e prejudicavam o combate ao terrorismo. As reformas de Fujimori estabilizaram a economia e baixaram a inflação a 44% nos 12 meses encerrados em outubro (em 1990, a taxa ficou em 7.650%).

No combate ao terrorismo, Fujimori conseguiu reduzir o poder de fogo dos guerrilheiros do Sendero Luminoso. A prisão do líder senderista Abimael Guzmán apenas reduziu a força do grupo. Na semana passada, o Sendero atacou a sede da polícia.

Uma Convenção Constituinte, onde Fujimori tinha maioria, foi convocada para redigir uma nova Carta. A nova Constituição, que permite a reeleição do presidente e introduz a pena de morte para terroristas, foi aprovada pela magra diferença de quatro pontos.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 3-4
Edição: Nacional Tamanho: G 209 JAN 2, 1994
Da Redação
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Tiroteio mata oito terroristas no sul do Egito

Oito militantes fundamentalistas islâmicos e dois policiais morreram na noite de anteontem em Edfu, 600 km ao sul do Cairo (Egito). O tiroteio, o pior enfrentamento entre terroristas e policias este ano, aconteceu quando os oito homens invadiram um quartel da polícia na cidade.

Segundo as autoridades egípcias, os fundamentalistas pertenciam ao grupo islâmico radical Gama al Islamiya. O Ministério do Interior afirmou que dois dos fundamentalistas mortos eram líderes do terrorismo local e já teriam sido indiciados por vários crimes.

Na Universidade do Cairo, estudantes e professores protestaram pelo terceiro dia consecutivo contra o massacre da mesquita de Hebron (Cisjordânia). Eles gritavam: "Não se preocupe, Palestina. Lutaremos por você com sangue e almas". Mais de 20 pessoas ficaram feridas em confronto com a polícia.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-12
Edição: Nacional Tamanho: M 133 MAR 1, 1994
Das agências internacionais

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Etnocentrismo e violência

Dissemos que o etnocentrismo cria no indivíduo uma tendência de sentir e pensar sua cultura como referencial absoluto para todas as outras culturas. As sociedades reativas (civilizadas) são reativamente etnocêntricas e produzem desvios de comportamento social. As insatisfações de toda ordem (reatividade) existentes nos indivíduo dessas sociedades transfiguram esse fenômeno natural, deslocando-as para uma aversão aos indivíduos de outra cultura (estrangeiros).

Notícias:
À porta do paraíso
Pelo menos dois brasileiros foram detidos por autoridades de imigração de países do Primeiro Mundo nas últimas semanas - um comerciante em Nova York e uma estudante em Roma - receberam delas um tratamento ofensivo e humilhante. Longe de constituir-se em fatos isolados, os dois episódios são sintomáticos de uma situação em que, no intuito compreensível de defender suas fronteiras contra a invasão de imigrantes indesejados, alguns países ricos têm-se permitido uma alta dose de arbitrariedade no tratamento de seus visitantes.

Nesse quadro de desconfiança generalizada - quando não de puro preconceito e etnocentrismo -, cidadãos honestos correm o risco de ser tratados como marginais, num flagrante desrespeito a direitos humanos fundamentais que essas próprias democracias avançadas encarregaram-se historicamente de consolidar e difundir. Não por acaso, freqüentemente o sentimento que domina os viajantes mal tratados nos aeroportos estrangeiros é menos o de revolta que o de frustração, de desapontamento diante de fatos que negam uma expectativa anterior de entrar em contato com uma sociedade mais democrática e civilizada.

Um primeiro passo para que não se perpetue esse tipo de arbitrariedade é o estabelecimento e a divulgação, por parte de cada país, de regras claras para a admissão de visitantes em seu território. A longo prazo, contudo, a situação só será resolvida se se atacar o motivo principal do controle severo nos portos e aeroportos: a pressão migratória dos países pobres em direção aos ricos. E esse problema só poderá ter solução se diminuir o desequilíbrio entre estes e aqueles.

Os países do Primeiro Mundo encontram-se diante de um claro dilema. Se não querem ser obrigados a levantar muralhas intransponíveis em suas fronteiras para conter os movimentos migratórios, é de seu próprio interesse contribuir, através de investimentos, para o desenvolvimento das partes mais pobres do planeta. Se um mínimo de prosperidade não chega até elas, a tentação natural é que muitos de seus habitantes a procurem onde ela se encontra. No Primeiro Mundo.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional Tamanho: G 324 JUL 18, 1994
Seção: EDITORIAL
À porta do paraíso

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Washington insiste em pôr negros em uma cidade texana

De Washington
Quatro famílias negras se mudaram ontem de madrugada, sob a proteção da polícia federal dos Estados Unidos, para um conjunto habitacional na cidade de Vidor, Texas, sudoeste do país. Esta é a segunda tentativa do governo dos Estados Unidos de quebrar 70 anos de tradição da cidade, onde nunca morou um negro. Vidor, 50 mil habitantes, fica 168 km a leste de Houston.

Em fevereiro do ano passado, outras quatro famílias negras foram instaladas em Vidor. Mas, em setembro, após sistemática hostilidade de vizinhos e da Ku Klux Klan (grupo racista branco), todas já se haviam mudado. O último a deixar Vidor, Bill Simpson, morreu assassinado na noite em que chegou à sua nova residência, em Beaumont, a 12 km de Vidor.

O governo do presidente Bill Clinton prometeu colocar pelo menos 12 famílias negras em Vidor este ano. Para isso, o secretário nacional da Habitação, Henry Cisneros, desapropriou o conjunto habitacional Vidor Village, de 74 casas, construído pelo Estado do Texas. Ele argumentou que havia prática de discriminação racial no local. (CELS)

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
Editoria: MUNDO Página: 2-10
Edição: Nacional Tamanho: G 181JAN 14, 1994



Dinheiro e violência


Quando o homem civilizado associou a posse do valor monetário, ao alcance de poder pessoal que poderia deter, uma revolução pode ter conturbado sua mente. Todos ou quase todos os sentimentos princípios e valores relacionados á associação coletiva devem ter sofrido uma radical mudança. O uso do dinheiro e do poder sempre estiveram associados á voracidade e á ganancia dos homens no decorrer dos tempos. É relativamente fácil observar que o elemento mobilizante da maior parte dos atos destrutivos como as guerras, os crimes, as torturas, entre outros, têm como pano de fundo o dinheiro e o poder, que, bem analisados, se confundem. A insegurança das pessoas deposita nesses elementos a expectativa de bem-estar e sucesso individual, alterando os vínculos da convivência social.

Notícias:

Miséria absoluta atinge 60%
Da Agência Folha, em João Pessoa
O economista Lucindo José Quintans, 46, professor do curso de Administração da UFPB e coordenador do estudo, compara o Cariri Ocidental da Paraíba à Eritréia, uma das regiões mais pobres da Etiópia. A renda per capita da Etiópia (US$ 120) só supera dois países, Moçambique (US$ 80) e Tanzânia (US$ 110).

Segundo ele, 60% dos 111 mil habitantes do Cariri vivem "em miséria absoluta". São pessoas com renda per capita anual de US$ 118. A renda per capita anual do restante da população varia entre US$ 118 e US$ 365.

Segundo Quintans, a população do Cariri Ocidental sobrevive abaixo dos padrões mínimos tolerados pela ONU (Organização das Nações Unidas) –uma renda per capita anual de US$ 250. De cada mil crianças nascidas na região, 151 morrem antes de completar um ano de idade, informa o professor Quintans. A situação é pior do que na Somália (125 por mil) –país que atravessa uma guerra civil - e Camboja (110 por mil).

Dos 12 municípios da área, oito tiveram crescimento populacional negativo na década de 80. O economista aponta como solução para o Cariri a criação de pólos de beneficiamento de minérios e de criação de cabras.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Tamanho: G 206 JAN 1, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
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Contribuinte não é palhaço

O brasileiro paga muito ou pouco imposto? O presidente da República e seu ministro da Fazenda fizeram com que pulássemos de ano com essa incômoda questão nas manchetes dos jornais. Comparando estatísticas internacionais, o governo afirma: paga pouco. Apenas olhando os números está certo. Não se deixe, porém, enganar.
Vou traduzir em termos bem simples. Você vai num restaurante, é muito bem tratado, a comida está ótima. No final, a conta é salgada, mas justa. Mas um indivíduo se sente lesado ao ter de pagar num botequim por um cafezinho requentado.

O governo diz mais ou menos o seguinte: você tem de pagar no botequim fuleiro o mesmo preço do acolhedor restaurante. Diz mais: você está pagando pouco. Quem, de fato, paga imposto? Os assalariados de classe média - os empresários descontam no preço dos produtos. E qual o retorno?

Os hospitais e escolas públicas são, em geral, um vexame. O assalariado de classe média se vê forçado a pagar por escolas particulares e convênios médicos, tudo caríssimo. As estradas estão esburacadas, a polícia não consegue controlar a criminalidade, e por aí vai. Mas se pode argumentar que o imposto da classe média destina-se aos pobres. Concordo com a tese. Não me incomodaria em pagar mais imposto se tivesse a certeza de que acabaria com a miséria e tornaria as cidades mais habitáveis. Só que, na maioria das vezes, os pobres são tratados como cachorros nos hospitais, muitos morrem na fila, as escolas para os carentes não prestam e, ainda por cima, o dinheiro da assistência social é fonte de roubalheira, desperdício e negociatas eleitorais.

Nos governos federal, estadual e municipal há gigantescas crostas de mamatas beneficiando empresários e funcionalismo. Muitas vezes gasta-se mal e sem critério: as máquinas administrativas estão inchadas de funcionários incompetentes, garantidos pela estabilidade. E o governo quer que você se sinta culpado por pagar "pouco" imposto. Devem achar que contribuinte é palhaço ou mulher de malandro antes da revolução feminista.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: GILBERTO DIMENSTEIN
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional JAN 1, 1994
Seção: BRASÍLIA

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Polícia faz superoperação para “caçar” PMs
Ladrão preso denunciou cerca de 20 policiais de participação em roubos de carros; os acusados negam
Da Reportagem Local
A Polícia Civil fez ontem uma operação com 60 carros e 180 homens para encontrar provas contra um grupo de cerca de 20 PMs que são suspeitos de envolvimento com roubos de carros na zona sul. Eles foram denunciados pelo comerciante Laerte Biazim Cardoso, 25, acusado de ser o líder de uma quadrilha de ladrões de carros que age na região.

Cardoso foi preso em flagrante no último dia 30 com um veículo roubado. Ele estava sendo procurado pela polícia desde agosto do ano passado. O comerciante denunciou o tenente Evaldo José de Souza, 30; os cabos Vladimir Arnold Filho, 25, e Claudinei Tonin, 22; e os soldados José Messias dos Santos, 27, e Edmílson Cardoso da Silva, 24.

Esses cinco policiais negaram as acusações. A Divecar (Divisão de Furto e Roubo de Carros da Polícia Civil) não quis revelar os nomes dos outros policiais militares que estariam envolvidos na quadrilha. Em quatro horas de operação, 12 carros roubados foram apreendidos em 11 locais indicados pelo comerciante como sendo depósitos do grupo. A polícia também apreendeu placas de carros, chassis recortados e chaves falsas em desmanches e casas na cidade de Embu Guaçu (Grande São Paulo) e nos bairros de Capão Redondo e Jardim Herculano (zona sul). Nenhum dos policiais suspeitos foi detido. Segundo o delegado Valter Abreu, 31, da Divecar, o comerciante disse também que vendeu carros roubados para os PMs em troca de armas que foram apreendidas pelos policiais com assaltantes. "Em alguns casos, uma Veraneio da PM fazia escolta para ele (Cardoso) furtar carros", disse o delegado. Em seu depoimento, Cardoso descreveu sua relação com o tenente Souza. "Conheci o tenente quando ele começou a namorar minha prima Cibele. Eu já era ladrão e passei a ter mais facilidade para roubar, pois o tenente não me abordava e não permitia que seus homens me incomodassem”.

Dois outros acusados de fazer parte da quadrilha foram presos: Givanildo Martins Ferreira e Ezequiel Favarão. A Justiça decretou a prisão temporária deles, que ainda não prestaram depoimento no caso que envolve os policiais militares.


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: MARCELO GODOY
Editoria: COTIDIANO Página: 3-5
Edição: São Paulo Tamanho: G 374JAN 14, 1994
Observações: COM SUB-RETRANCA

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Doença e violência

O termo doença é próprio para definir os desvios – disfunções, patologias - ocorridos nos mecanismos automáticos do corpo (fisiológicos), de natureza física ou físico-química, com formas de transmissão e evolução próprias, de origem intracorpórea, orgânica. Os desvios da manifestação comportamental (ainda chamadas de doenças mentais) não são doenças porque não estão restritas ao corpo, são alterações das respostas cerebrais (mentais) do indivíduo, voltadas ao ambiente, podendo se deslocar também para o corpo. São alterações da expressividade. Cérebro e corpo são estrutura física (“hardware”), mente é ordenação programática (“software”). Comportamento e manifestação de sensações (sintomas), são veículos de transmissão individualizados da mente. É possível que a origem dessa confusão conceitual entre comportamento e doença venha desde os tempos classificativos do início da era científica, quando os precursores da arte médica tentavam ordenar sinais e sintomas em grupos maiores (síndromes, quadros clínicos) com objetivo de organizar os conhecimentos médicos.

As doenças podem ter origem no corpo mas são influenciadas pela interpretação do indivíduo. Podem se originar na mente e ser sentidas no corpo (somatismos). Há ainda as formas mistas:

• Origem no ambiente e manifestadas no corpo (doenças profissionais)
• Origem no corpo atingindo áreas do cérebro (focos irritativos, embolias)
• Origem na mente sem tomada de consciência (hipomnésias, automatismo epiléptico), etc.

A doença tanto pode gerar violência como pode ser resultado da violência. Pode ser manipulada para proteger interesses individuais e de grupos (laudos e atestados para fins legais) e transformar-se em procedimentos e exames desnecessários, no que se conhece como: “a indústria da doença”.

Notícias:

Planos de interesseiros
O Conselho Federal de Medicina está em pé de guerra com as empresas de medicina de grupo. Em recente resolução, obriga essas empresas a garantirem o atendimento a todas as enfermidades relacionadas no Código Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde.

Já é notório que os planos de saúde abandonam os seus conveniados à própria sorte quando estes adquirem determinadas doenças infecciosas ou crônicas. O exemplo mais dramático é a Aids, mas as situações em que imperam as exceções assustam pela freqüência.

Numa atitude que carece de ética, as empresas inventaram uma lista negra de doenças em que se recusam a pagar. Ao invés de cobrir a internação de um aidético com pneumonia, investem numa propaganda enganosa que esbanja eficiência através de frotas de helicópteros.

No Brasil, os convênios se aproveitam da situação catastrófica da saúde pública para oferecer uma alternativa a quem se apavora diante da possibilidade de morrer numa fila de um hospital do governo. Atrás dessa chantagem vem a tapeação: no momento em que a loteria das doenças escolher uma exceção, o plano terá sido em vão. Acho que idealizaram planos de saúde para pessoas saudáveis. Os doentes são os inimigos.

Para os interesseiros da saúde, quem causar prejuízo deve ser excluído. Não se questiona a legitimidade de estabelecer critérios discriminatórios. Por que um infartado merece ter as despesas pagas, enquanto um aidético é posto à rua?

O Ministério da Saúde estuda mecanismos de empresas de medicina de grupo reembolsarem o SUS (Sistema Unificado de Saúde) pelas despesas da rede pública com tratamento médico-hospitalar de pessoas conveniadas a planos ou seguros de saúde privados. Trata-se de uma maneira interessante de talvez beneficiar instituições públicas com recursos da iniciativa privada. O perigo consiste no encantamento dos hospitais com pacientes geradores de dinheiro. No momento de distribuir as vagas hospitalares, este tipo de cliente talvez acabaria tendo preferência sobre os mais humildes.

O "pacto de compadres" entre governo e empresas privadas apresenta poucas vantagens para o usuário. Ao lhe permitir o acesso a exames ou tratamentos de ponta só existentes em alguns centros universitários ele ganha, mas se em função de determinada doença é encaminhada compulsoriamente a um hospital público, perpetua-se a mesma discriminação.

Tenho medo que tais acordos sirvam para desfigurar a resolução do Conselho Federal de Medicina. A voz simpática da moça da empresa de saúde então dirá: "Infelizmente o senhor não poderá ficar no Hospital Albert Einstein, mas temos um contrato operacional com o Hospital Emílio Ribas...”.
ROBERTO WUSTHOF, 26, é médico-residente do Departamento de Pediatria do Hospital das Clínicas em São Paulo.


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: ROBERTO WUSTHOF
Editoria: COTIDIANO Página: 3-2
Edição: Nacional Tamanho: G 436 JAN 10, 1994
Seção: SAÚDE
Observações: PÉ BIOGRÁFICO

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Criança corre risco de Aids

Uma pesquisa feita pela Universidade Duke, de Durham, Carolina do Norte, mostrou um risco adicional do abuso sexual em crianças: Aids. Em dois anos, a equipe de Aids pediátrica da universidade contabilizou 96 casos da doença em crianças de até 17 anos. Ao se investigar a causa da transmissão, descobriu-se que em 14 casos, 11 deles meninas, a criança tinha sido abusada sexualmente.
Uma das vítimas tinha dois anos e dois meses de idade quando a Aids foi diagnosticada. Os médicos concluíram, algo estarrecidos, que em certos meios sociais o modo de transmissão de Aids mais comum entre adultos, o sexo, também atinge crianças devido à pedofilia. (RBN)

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: RICARDO BONALUME NETO
Editoria: COTIDIANO Página: 4-5
Edição: São Paulo Tamanho: M 50JAN 23, 1994
Da Reportagem Local



Religião e violência

No senso comum, religião é entendida como prática religiosa. Religião e religiosidade são conceitos completamente diferentes. Religiosidade é uma condição inata, um atributo que nasce com o homem, natureza construtiva que o impele para viver em paz, social e individualmente. Religião é instituição humana, criada por homens, cujo objetivo é cultuar entidades divinizadas (Deus, Alá, Maomé, etc) cultuadas como superiores á natureza humana. As religiões são instituições com ideologias polimorfas, com rituais diferenciados (culto, missa), com representantes personificados (pastor, padre, rabino) e com hierarquia e funcionamento semelhantes aos de uma empresa, no que se refere á administração de bens, estrutura de organização e objetivos a atingir. Algumas diferenças podem ser percebidas entre uma e outra, por exemplo:

• Religiosidade é condição atemporal, individual, inerente ao plano da imaginação e do sentimento; religião é temporal, grupal, ideológica, socialmente organizada.
• Religião se organiza por dogmas e hierarquia do grupo religioso; religiosidade se manifesta por atos mediados pelo bom senso (índole) individual.
• Religiosidade é manifestação desvinculada de interesses materiais e corporativos; religião é influenciada por esses fatores.
• Religião se origina da formação de classes numa sociedade (elites): governantes, sacerdotes, militares; religiosidade é uma condição intrínseca ao “modo de ser” espiritual de cada indivíduo.
• Religião e Estado são instâncias de poder numa sociedade, com influência política e com objetivos diversificados.
• Religião é conduzida por pessoas e pode levar á violência quando seus líderes mobilizam grupos para objetivos destrutivos (fanatismo).

Ser religioso significa ser bom e construtivo em relação a si mesmo e aos outros (“ama a teu próximo como a ti mesmo”), um princípio construtivo de eqüidade, solidariedade e justiça, condições dirigidas para a paz e harmonia. Pertencer a uma religião é associar-se a um grupo de homens que professam uma crença determinada, afiliar-se á uma instituição religiosa e seguir seus preceitos. Portanto, nem sempre o homem expressa sua religiosidade, ao pertencer a um grupo religioso. Ele pode usar o “rótulo religioso” para alcançar objetivos individuais ou de grupo. Portanto, a prática religiosa nem sempre está vinculada à religiosidade.

A condição de crença religiosa não necessita de conhecimento e nem de prova; a condição de conhecimento sim, pois é sempre uma verdade provisória, e como verdade (científica) é relativa e mutável. A condição da crença religiosa nem sempre é verdadeira, a não ser para o crente. Os determinismos científicos ou religiosos são condições que, levadas ao extremo, prejudicam o bom senso e alteram a convivência. As verdades existem espalhadas e não concentradas num só ponto. É necessário saber catá-las em toda a extensão do terreno. E podem ser misturadas, porque são compatíveis. O que seria dos olhos sem as pálpebras?

Como explicar a polimorfia religiosa e sua evolução desde os tempos do politeísmo na antigüidade, ao monoteísmo das sociedades civilizadas ? Um dos preceitos fundamentais das religiões está contido na frase: “paz na Terra aos homens de boa vontade...”; pelo número escandalosamente grande de religiões que possuímos, por que esse objetivo ainda não foi alcançado? A religiosidade tem sido usada atualmente por empresas religiosas que se auto-intitulam de “igrejas” para alcançarem metas financeiras. Será que a centralização numa entidade superior única (Deus, Jesus, Buda, Maomé) melhora a essência da religiosidade e se reflete no comportamento humano equilibrado? Vejamos alguns exemplos:

Notícias:
- 135 DC - Diáspora dos Hebreus
A imposição da religião oficial do Império Romano aos territórios dominados foi motivo de perseguição ao povo judeu, cuja crença monoteísta constituía uma desobediência aos preceitos da expansão romana. Os judeus, insuflados por sua religiosidade, tentaram sem êxito empreender insurgências ao império, mas foram perseguidos impiedosamente, assim como o templo estabelecido no principal foco de religiosidade, em Jerusalém, foi destruído numa demonstração tanto prática como simbólica do poder de Roma . Desta forma, iniciou-se o processo chamado Diáspora, em que os judeus perseguidos passaram a se dispersar pelas mais variadas localidades do Império. Com a dispersão dos povos e seitas judaicas, houve necessidade da manutenção da fé através da codificação de leis, ensinamentos particulares e práticas religiosa. Esta codificação obteve forma definitiva no livro do Talmude, grandioso conjunto de textos cujo conteúdo é dividido em narrativas míticas, exegese bíblica, além de debates legais e morais e regras do viver. Tendo base nos textos do Velho Testamento da Bíblia, os ensinamentos religiosos judaicos, em seu primeiro século de existência, originava seitas de diversas orientações místicas.

Fonte: Enciclopédia digital
Autoria: Danusa Munford, Viviane Costa Dias, Ricardo M. Franzin Paulo, Danusa Munford, Álvaro Labrada Bado, Paulo Calligopoulos, Luis Fernando M. Bicudo, Ricardo M. Franzin , Paulo Calligopoulos, Jocimar A.L. Carollo, Luis Fernando Bicudo, Alessandra A. Maurutto, Romualdo Tadeu Andreucetti, Gonzalo Luis Labrada, Rodolfo L. Oliveira, Simone Lima, Newber Machado, Alex Moura, Independent JPEG Group.
1996 Cartesia Software, Lambertville NJ - (C) RLM & MGA - Roberto Labrada Mochetti e Mary Ramona Gutierrez Apolo - Publicado em 01 de julho de 1996, 25 de junho de 1998.
© 1996-1998 - GLLG Informática Ltda
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A 'palavra gostosa' de Sonia Hernandes

Da Reportagem Local
Depois de uma fase de expansão, a programação religiosa da TV investe em nova frente: a procura de diferenciais. Um exemplo flagrante fecha, diariamente, a programação da Manchete: o programa "Espaço Renascer". Seu trunfo? Sonia Hernandes - uma pregadora que mais parece uma das entrevistadas dos programas "Flash" (Bandeirantes), e "Perfil" (SBT), seus concorrentes na faixa horária de 0h.

A voz cativante, os modelões "chiques" que variam a cada programa, a maquiagem exuberante e as (muitas) jóias são apenas parte do número forte da pregadora. Para levar a "palavra" ao mesmo público que acompanha as peripécias de Amaury Jr. e Otávio Mesquita no horário, Sonia traduz a eterna cantilena das seitas à procura de adeptos em uma linguagem próxima a dos livros de autoajuda. O resultado vem chamando a atenção dos telespectadores notívagos –no mínimo, como opção de humor no horário mais combalido da TV. Sonia troca os lamentos típicos dos programas religiosos por um papo animado, recheado de promessas de alto-astral e salpicado dos mesmos adjetivos que fazem o vocabulário de seus concorrentes (leia frases ao lado). "Minha preocupação é levar uma palavra gostosa a quem está em casa", diz.

O programa consiste em um monólogo de 15 minutos diários. Sonia gesticula e sorri muito –numa performance de fazer inveja a muitas apresentadoras de programas femininos. Enquanto brande sua mensagem –que, segundo ela, visa incentivar as pessoas a crer em Deus e nelas próprias–, o nome de sua igreja, Renascer, fundada há oito anos em São Paulo, permanece na parte inferior da tela. O programa registra média de dois pontos medidos pelo DataIbope. É uma produção independente da Fundação Renascer –que vive das doações dos filiados à igreja. O dono da fundação é seu marido, o pastor Estevão Hernandes. Ele é VJ do "Clip Gospel", programa diário de música religiosa que antecede o "Espaço Renascer". Além dos dois programas, a Fundação coordena um centro para a integração de menores abandonados, no centro de São Paulo.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: MARCELO DE SOUZA
Editoria: TV FOLHA Página: 06
Edição: Nacional Tamanho: G 350 MAR 6, 1994
Crédito Foto: Frederic Jean/Folha Imagem
Observações: COM SUB-RETRANCA

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Atentado abalou Nova York

De Nova York
A explosão na garagem do World Trade Center, em 26 de fevereiro de 1993, reverberou muito mais longe do que nas torres gêmeas que se tornaram marco na paisagem de Nova York. A bomba sacudiu as estruturas de um país construído por imigrantes e que, até então, se considerava a salvo do terrorismo. Com o atentado, Nova York foi acordada pela força do fundamentalismo islâmico.

A vida na cidade ficou mais tensa. A segurança foi reforçada nos prédios do governo, em instituições visadas (como a ONU) e nos aeroportos. Pesquisas apontam que aumentou a rejeição dos norte-americanos a estrangeiros. As cerca de 50 mil pessoas que ocupavam os escritórios do World Trade Center no momento da explosão certamente não a esquecerão. Testemunhos dão conta do pânico que se espalhou com a explosão e o subsequente colapso do sistema elétrico. Alguns funcionários até hoje não conseguiram superar o trauma e voltar ao trabalho. As relações entre os diversos grupos étnicos que compõem a população de Nova York também foram estremecidas. Árabes e muçulmanos em geral queixam-se de discriminação. O policiamento é reforçado toda vez que há um incidente de grandes proporções no Oriente Médio, como o recente massacre de Hebron. (FG).

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: FERNANDA GODOY
Editoria: MUNDO Página: 2-8
Edição: Nacional Tamanho: G 204 MAR 5, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: BOMBA

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AFEGANISTÃO; BELFAST

AFEGANISTÃO - Pelo menos 33 pessoas ficaram feridas ontem em Cabul, capitão do Afeganistão, durante choques entre as forças do presidente Burhanuddin Rabbani e do partido muçulmano xiita Wahdat. Wahdat quer de volta áreas conquistadas por Rabbani, mas não estava participando dos conflitos entre facções que deixaram 2.000 mortos desde janeiro.
BELFAST – Três protestantes usando máscaras dispararam ontem contra um funcionário de uma videolocadora em Belfast (Irlanda do Norte). O homem, cuja identidade não foi revelada, foi atingido na cabeça. Ele foi levado ao hospital e não há detalhes sobre seu estado. O grupo guerrilheiro Força Voluntária reivindicou o atentado.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-12
Edição: Nacional Tamanho: G 155 APR 21, 1994
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CAPÍTULO VI

Drogas e violência


Entre os animais não existe prostituição, drogadição (toxicomania), crimes hediondos e outros fenômenos que existem entre os homens. Eles agem por instintos, que são estímulos desenvolvidos para a sobrevivência e reprodução. A consciência de si próprio no mundo, o juízo critico ou discernimento e outros atributos superiores só existem nos seres humanos.

O mecanismo que induz as sociedades humanas a supervalorizar o sexo através da associação com pecado, é percebido na relação entre proibição e droga. Compreendendo que a associação sexo-pecado-dinheiro valoriza o produto (sexo), é fácil identificar a mesma associação entre droga-proibição-dinheiro. Como o civilizado é potencialmente infrator (sem modelo cultural), tudo o que é proibido passa a ter valor e, transgredir, passa a ser excitante. Droga sem proibição é droga barata, desinteressante e não dá lucro. É necessário, portanto, manter a proibição e a desinformação para valorizar o produto.


O valor social das drogas:


As drogas estão integradas à natureza desde o início do aparecimento da vida na Terra. Por experiência instintiva e usando os sentidos, os animais reconhecem e selecionam os vegetais, minerais ou animais que servem para sua alimentação ou que podem aliviar incômodos ou doenças, dos que possam causar-lhes danos ou experiências desagradáveis. Esse capacidade é essencial para a sua sobrevivência e para o aprendizado das relações com o ambiente.

O uso das drogas pelo homem segue os mesmos rumos da experiência/sobrevivência e se destaca pelo refinamento desse reconhecer, classificar e elaborar a droga através de diferentes processos. Mas o que diferencia a relação homem/droga da relação animal/droga é a capacidade humana de incorporá-la à sua cultura, de forma ritualizada e fortemente presa aos seus costumes e valores.

As condições de sobrevivência dentro de uma cultura complexa permitiram ao homem exercitar outras capacidades como a de falar, escrever, dançar, cantar e, inclusive, a de intoxicar-se dentro das expectativas de cada grupo cultural e de cada indivíduo.

O cultivo, a manufatura, o tráfico e o uso de drogas apresenta consideráveis diferenças segundo o grupo humano que as utilizam. A importância dada à substância tóxica é conferida pelo grupo humano que a cultiva, transforma, comercia e usa. O interesse que desperta nos diferentes grupos humanos reflete as expectativas e os interesses próprios de cada um desses grupos. A forma de lidar com as drogas dentro de cada grupo étnico mostra claramente, entre outras coisas, o seu nível de integração ou desintegração cultural.

Trabalho, lazer, sexualidade, religiosidade, drogas, além de outros componentes vitais, fazem parte da dinâmica do corpo social e estão interrelacionadas de forma a compor um quadro social em movimento.

As formas de usar drogas e as condições que organizam esse uso podem ser diferentes de acordo com os valores do grupo humano, mas todas elas são expressivas e significativas para os indivíduos dentro de cada grupo.


A Droga nas Sociedades Primitivas:


Nas sociedades tribais as drogas estão incorporadas de forma equilibrada através de ritos, crenças e tradições que compõem o seu mundo mágico, religioso, político e econômico, que por sua vez está vinculado a elementos ético-morais, de lazer e da realidade ambiental.

Nessas sociedades as drogas estão associadas a diferentes situações: ao nascimento ou morte de seus membros, nas grandes festas de iniciação, nos momentos de doenças, de cultivo ou colheita de alimentos, etc. A incorporação das drogas a essas situações apresentam sempre um significado próprio e estão condicionadas a regras e costumes que remetem à tradição do grupo. Nem todos os membros as usam e o seu uso freqüentemente fica restrito a situações determinadas. Nessas condições a droga passa a ter uma função social e a se revestir de um caráter tradicional religioso ou curativo, respeitado e seguido por todos. Nessas sociedades, portanto, a droga cumpre uma função social importante e é controlada por mecanismos sociais aceitos consensualmente pelo grupo, servindo como elemento concreto de ligação entre o mundo mágico e a realidade do dia-a-dia.


Conceitos e Preconceitos sobre as drogas na Sociedade Branca:


Já dissemos que os conceitos sobre drogas variam segundo os costumes e os valores que as sustentam. Na sociedade branca destacamos três expectativas essenciais dos valores sociais:

• A expectativa pelo poder econômico (ser rico, ter lucro, capacidade de consumir).

• A expectativa pelo poder pessoal (fama, gloria, competência, ser conhecido por todos, ser diferente dos outros).

• A expectativa pelo poder político (ser o líder, ter influência, dirigir e controlar os outros).

Somando-se essas três expectativas, concluiremos que na sociedade branca os indivíduos aspiram e exercitam suas a funções num plano de fantasia egocêntrica (“quero a segurança e poder para mim” ou “quero ser alguém na vida”). Com esse perfil psicológico, o indivíduo na sociedade branca, desempenha um papel neurótico de “controle”, que determina o conteúdo das relações com os outros indivíduos, com os outros animais, com o meio ambiente, com a terra, com o dinheiro, com as drogas, com o sexo, etc.

A sociedade branca lida com a droga de forma ambígua e paradoxal. Ao mesmo tempo em que os moralistas a condenam e a segregam da realidade social, ela é usada indiscriminadamente de forma abusiva e descontrolada por todas as classes sociais, por indivíduos de todas as idades, com freqüência alarmante e totalmente desvinculada de mecanismos controladores da sua função social.

Para os que a cultivam, manufaturam e comercializam sua importância se concretiza no grande lucro que proporciona. Para os que a utilizam, sua função é permitir o alívio das tensões, quebrar a rigidez das normas e atenuar as sensações de medo e insegurança, permitindo alguns momentos de “certeza” e de auto-engrandecimento. Funciona como uma “escapada” provisória da desorganização social.

Para os moralistas a droga se constitui no grande “bode expiatório” da humanidade. Quase todos os males da sociedade estariam desaguando no elemento demoníaco depositado na droga. Como elemento concentrador de culpa, a droga serve ao moralista com dupla função:

• É base permanente do seu discurso e do seu “status”.
• Evita o confronto com outras questões da realidade social, como a fome, as desigualdades sociais, as desigualdades econômicas, o desemprego, as guerras e, sobretudo, o confronto com a questão da perda cultural.

O conceito de desenvolvimento e progresso na nossa civilização corre paralelo com a nossa tendência materialista de lidar com as pessoas e com os objetos que nos cercam. Nossas necessidades de aquisição de bens e de exercitar nosso poder (controle) sobre os demais e sobre o ambiente, costuma ser do tamanho da nossa insegurança pessoal e do medo de nos perdermos na solidão do associal. O homem civilizado vive só porque, mergulhado no seu egoísmo e na desconfiança excessiva pelos outros, acaba enfraquecendo os vínculos pessoais e desestabilizando as relações socioculturais. Seguindo essa premissa podemos pensar que o apego possessivo às drogas possa representar uma tentativa dramática, e em nível inconsciente, de incorporar as perdas sentidas no plano familiar e social, através da introdução de tóxico no organismo de forma obsessiva.

Conceito Atual da Adição de Drogas:


Há bem pouco tempo se acreditava que o comportamento tóxico estivesse resumido a uma corrente de apenas dois elos: a droga e o drogado. Na verdade, essa suposição muito simples e cômoda serve a vários interesses:

• Tornar eficiente a solução do problema através de uma tendência imediatista do homem moderno.
• Garantir à sociedade do trabalho e do lucro uma demanda de pessoas que, classificadas como “doentes” ou “frágeis”, possam se constituir em clientela segura para as instituições ou pessoas que se instrumentalizam com o “saber científico”.
• Manter a sociedade e sua “ordem” em equilíbrio sem contestação dos seus fundamentos econômicos, ético-morais ou religiosos, discriminando, segregando ou diagnosticando os membros contestadores dessa ordem e dos seus valores.

Com o súbito desenvolvimento dos meios de produção e do conhecimento científico surgiram conceitos novos (eficiência, produtividade, lucratividade) que produziram profundas alterações nos modos de pensar e de agir das sociedades industriais. A atenção se voltou para os bens produzidos, para a descoberta científica e, sobretudo, para as inúmeras vantagens pessoais e materiais advindas da execução dessas atividades. O centro de atenção da sociedade industrial se deslocou do bem estar humano, para os objetos produzidos e a produzir.

A Ciência concentrou o saber dos fenômenos naturais e a sua aplicação, nas mãos de grupos restritos. A religião já vinha transformando a crença e os costumes em códigos morais rígidos e culpáveis e elegeu um único Deus para substituir as múltiplas divindades existentes, ligadas às diferentes necessidades da crença humana. A concentração ou centralização tem sido sempre a grande tendência da sociedade que se auto-intitula de “civilizada”.

Como as necessidades e as aspirações humanas são sempre múltiplas e diferentes entre si, chegando mesmo ao plano individual, o homem se ressente e expressa sua insatisfação de diferentes maneiras. Uma delas é a conduta tóxica, comportamento reativo através do qual é possível, mesmo transitoriamente, se expressar e “cair fora” do caos social. A introdução excessiva de substâncias tóxicas no organismo é apenas uma das formas de fugir dos vínculos sociais. Citaremos outras a título de exemplo:

• A fuga para o trabalho excessivo.
• A ingestão freqüente e prolongada de medicamentos (tranqüilizantes, sedativos e outros).
• A busca obsessiva pela atividade sexual.
• O fanatismo religioso e o passeio por diferentes tipos de crença religiosa.
• A voracidade pelo dinheiro.

Enfim, as necessidades de incorporar ao pessoal o que o social não supre. É a manifestação mais clara de que a ordem social branca não está voltada para o seu objetivo principal - o homem. Na verdade, nossa sociedade “civilizada” é mais tóxica do que possamos imaginar. O prazer de viver com os outros tem sido substituído pelo prazer de fazer, de ganhar, de colecionar, de falar, de contar, de pensar e de mandar.

Estamos continuamente desenvolvendo nossa necessidade tóxica de adquirir objetos, usufruir comodidades, perseguir ideais, consumir alimentos, remédios e drogas. A conduta tóxica está muito mais representada pelo consumo abusivo e desritualizado do que pela qualidade ou natureza química da substância ou da atividade individual. As críticas ao comportamento tóxico ligado às pessoas e objetos padecem das mesmas características de conteúdo. A droga é censurada e o drogadito marginalizado, sobretudo porque ele corre o risco de se tornar improdutivo e reagir contra as regras sociais. Os outros drogaditos, isto é, os que consomem abusivamente remédios, roupas e outros objetos ou bens produzidos, são estimulados a desenvolverem o hábito de intoxicar-se e ganham com isso “status” e aprovação social. A nossa sociedade só consegue ver na substância tóxica o princípio e o fim da desagregação individual e social.

O mito da substância tóxica continua sendo tão necessário ao corpo da sociedade como é a droga para o corpo do drogadependente. É preciso manter a qualquer custo a ilusão de que tudo vai bem e que nosso destino é conquistar o Universo. Só não sabemos qual o universo que desejamos conquistar.

O que nos interessa nessa nossa compreensão da convivência, não é propriamente a substância tóxica, mas o uso excessivo e desordenado dela pelo homem, isto é, o abuso do seu consumo, as conseqüências destrutivas desse abuso e os fatores que o determinam. Partimos do princípio de que cada indivíduo necessita ter uma identidade pessoal e que essa identidade serve de referência para os próprios indivíduos e para os que o rodeiam.

O indivíduo vê o mundo dentro da ótica de “si em relação ao ambiente”; nesse ambiente estão os outros indivíduos, as plantas, a terra, os rios, ou seja, o mundo exterior a ele. Cada indivíduo necessita ter uma identidade familiar (“os outros próximos de mim”) cuja existência e proximidade servem de suporte a sua própria identidade pessoal. Cada indivíduo, dentro de seu grupo parental, se sente como membro de outros grupos parentais diferentes do seu e que por afinidade de crenças, costumes e tradições, constituem o seu grupo cultural e determinam o seu conceito de nação, compondo assim, uma dimensão mais oceânica de sua identidade individual.

Com isto queremos dizer que a questão da identidade (quem sou?, quem são os outros?, quem gosta de mim?, de quem eu gosto?, qual o meu papel nisso tudo?) é, provavelmente, o grande fator de equilíbrio que determina os comportamentos, seja no plano individual ou no grupal, remetendo portanto à estrutura psicossocial de cada indivíduo e, por conseqüência, à totalidade das relações sociais. O indivíduo não é uma ilha na sociedade. Pelo contrário, ele está ligado a uma cadeia social, com superposição de identidades, de interesses e de laços afetivos e culturais.

O indivíduo que abusa das drogas expressa, através do uso excessivo delas, a necessidade de suprir-se desses vínculos essenciais da cadeia social, necessários que são ao desenvolvimento da sua personalidade e ao seu equilíbrio no grupo social. O abuso de drogas não é, portanto, um fenômeno meramente individual que encontre resposta adequada através da prática médica, jurídica, policial ou religiosa. As posturas moralista, legal, científica ou religiosa até hoje não conseguiram resultados satisfatórios e nem nunca conseguirão, pois as formas de drogadição são múltiplas e suas raízes estão presas às próprias necessidades humanas dentro da paisagem social.

Não são, as fórmulas “práticas”, os métodos “miraculosos” ou as idéias ou processos “geniais”, capazes de responder ao fenômeno social da drogadição. A necessidade insubstituível do homem de fugir, de vez em quando, da realidade que o cerca, é tão importante quanto o ar que respira ou a água que bebe. Essa necessidade o diferencia da máquina e dos objetos sem vida. É ela que mantém a possibilidade de equilibrar a relação do concreto com o abstrato em harmonia. O abstrato e o concreto da existência humana precisam de canais expressivos e consolidadores das duas partes, que na verdade são um “todo” que harmoniza a vida mental e estimula os comportamentos ativos.

Ao longo da história da cultura humana esses dois componentes estão presentes e se projetam invariavelmente sob as diferentes formas de conviver. Nas culturas primitivas essa interligação continua ricamente presente nos ritos, mitos e tarefas do grupo, intrincando-se nas relações, onde é impossível separar o mágico do real.

A desintegração da cultura na sociedade branca (perda cultural), conseguiu produzir o magnata e o mendigo, a virgem e a prostituta, o atleta e o subnutrido, o intelectual e o analfabeto, o abstêmio e o drogado. O uso adequado do tóxico numa sociedade equilibrada é tão necessário quanto o vinho é necessário à missa. O combate ao tóxico é tão ilusório quanto combater as miragens no deserto. A sociedade atual necessita reaprender a conviver com as drogas, pois elas nunca irão desaparecer, como elementos da natureza que são.

Lembrando da expressão que diz: “a religião é o ópio do povo”, da mesma forma poderíamos dizer: “a droga é necessária para os ritos e crenças de uma sociedade culturalmente equilibrada”. Entre nós, os civilizados, parece que a ganância, o egoísmo e a desconfiança são o ópio que nubla a consciência da sociedade dando-lhe a sensação de progresso e desenvolvimento.

Pior que a drogadição são: fome e guerras, resultados do caos social. Somos obrigados a rever a ordem social, suas instituições, valores e costumes. Estamos diante de um dilema: ou mudamos ou continuamos o caminho para a autodestruição.

Concluindo, retornamos para a questão da perda cultural e da perda da identidade pessoal, que talvez sejam o eixo único a ser repensado no caminho para o reequilíbrio das pessoas e das sociedades. Se não for assim, os consultórios e clínicas continuarão recebendo vários tipos de drogados: drogados em álcool, em trabalho, em religião, em dinheiro, ou seja, pessoas que descarregam suas tensões reativas em substâncias, objetos ou atividades.

Notícias:
OS CRUSTIES E...
SEXO
O universo crusty é basicamente heterossexual, com pequeno número de adeptos gays e lésbicas. Doenças venéreas são freqüentes por causa da falta de higiene. Casos de gravidez inesperada acontecem muito entre os mais novos, basicamente por falta de informação. Mas nada que seja muito diferente de qualquer grupo da mesma idade.

DROGAS
Um crusty aceitará qualquer droga que tiver na casa. Não tomar drogas é considerado anormal na nação crusty. Faz sentido: eles não ligam para saúde, vivem para o momento e papo antidrogas é papo exatamente da sociedade que eles deixaram para trás. Haxixe é universal, com maconha aparecendo de vez em quando. Acido é um must, porque é barato e dura várias horas. Speed e ecstasy também são populares. Nas cidades, existe também um bom número de crusties viciados em heroína. As bebidas preferidas são cidra e cerveja forte.

POLÍTICA
A rejeição a tudo é uma atitude política em si. Mas a maioria dos crusties não se importa com o que acontece e deixa de acontecer. É mais aquela visão simples de "nós" contra "eles" (a polícia, o governo etc.). Existem os politizados, geralmente envolvidos em grupos ambientalistas tipo Greenpeace (um núcleo crusty nasceu do acampamento ecologista que passou anos plantado em frente à base nuclear inglesa de Greenham Commom) ou anti-fascistas com a Anti-Fazi League.

RELIGIÃO
Nada de religiões tradicionais. A filosofia espiritual é totalmente new age: simplicidade, consciência terrestre etc. Coisas místicas (pirâmides, cristais, astrologia) ou exóticas (budismo, Hare Krishna, shamanismo) despertam o interesse também. Stonehenge, na Inglaterra, o misterioso círculo de pedras supostamente erguido pelos druidas, é um ponto obrigatório da nação crusty.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: ILUSTRADA Página: 5-6
Edição: Nacional Tamanho: G 489JAN 15, 1994
Seção: + TEEN
Arte: COMO SE TORNAR UM CRUSTY
Observações: SUB-RETRANCA

Desafios são violência e corrupção policial
De Nova York
O combate à violência foi o carro-chefe da campanha de Rudolph Giuliani. E agora promete ser seu maior desafio. Com o crescimento do crime organizado e do tráfico de drogas, espalhou-se também a corrupção entre uma corporação de 30 mil policiais, a maior força policial de uma cidade norte-americana.
Em relatório divulgado esta semana, a Comissão Mollen, instituída para fazer um diagnóstico da corrupção na polícia de Nova York, apontou a existência de "uma cultura de tolerância com a corrupção e com os procedimentos fora da lei". O relator sugeriu a criação de um órgão de fiscalização independente para prevenir e detectar más condutas entre policiais.

Giuliani já disse que prefere a figura de um inspetor-geral. O novo prefeito de Nova York construiu sua reputação como procurador federal, destacando-se pelo combate ao crime organizado e à Máfia. Ele marcou por um estilo espetacular, que incluía determinar prisões com algemas e muita publicidade.

Giuliani disse ter ficado chocado com a negligência das chefias e escolheu para o cargo de comissário-chefe da polícia de Nova York um "estrangeiro" com fama de durão, William Bratton, ex-chefe da polícia de Boston, Massachusetts (também na Costa Leste). Giuliani acredita que um "xerife" sem vínculos anteriores com seus próprios subordinados processará a "limpeza" dos corruptos com mais eficácia.

Todas as pesquisas de opinião pública têm apontado a violência como a preocupação número um dos cidadãos nova-iorquinos. Os altos índices de criminalidade são citados também pelas pesquisas como principal motivo para o êxodo por aqueles que têm decidido deixar a cidade, tanto indivíduos como corporações. (FG)


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: FERNANDA GODOY
Editoria: MUNDO Página: 2-6
Edição: Nacional Tamanho: G 269 JAN 1, 1994
Observações: SUB-RETRANCA

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Crime já está organizado, diz deputado
Da Sucursal do Rio
O ex-delegado de polícia e deputado estadual José Guilherme Godinho Sivuca (PPR-RJ), 63, critica a coordenadora do movimento Viva Rio, Clarice Pechman. Para ele, os traficantes de drogas nas favelas formam grupos bem organizados. "Essa senhora está equivocada. O crime está muito bem organizado. As armas chegam nas favelas com uma frequência extraordinária."

Sivuca cita uma estatística policial que, segundo ele, não foi divulgada pela Secretaria Estadual de Polícia Civil. "O Comando Vermelho tem 17.500 soldados, a maioria talvez com menos de 14 anos. Como ela diz então que o crime não está organizado?”

Sivuca discorda que a criminalidade esteja concentrada na faixa de 13 a 19 anos. Ele afirma que crianças começam no crime por volta dos oito anos, como olheiros de traficantes.

Segundo ele, o projeto de se montar centros comunitários de defesa da cidadania nas favelas é ingênuo. Segundo ele, sem a urbanização das favelas a proposta não vai vingar. "O que o médico e o juiz vão fazer lá? Vão acabar morrendo”.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Tamanho: G 176JAN 17, 1994

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Deputado britânico morre usando lingerie

De Londres
O governo britânico foi abalado ontem por um novo escândalo sexual. O deputado conservador Stephen Milligan, 45, foi encontrado morto em seu apartamento em Londres usando apenas uma cinta-liga e meias de mulher. A polícia suspeita ainda que ele possa ter consumido drogas.

O corpo de Milligan foi encontrado na noite de segunda-feira. Sua secretária no Parlamento ficou preocupada pela sua ausência e conseguiu uma cópia da chave do apartamento, na zona oeste de Londres. O deputado jazia na cozinha, nu, com um saco plástico em volta da cabeça. Não foi divulgada a hora provável nem a causa precisa de sua morte.

A polícia investiga várias hipóteses, desde assassinato até morte natural e overdose de drogas. A causa mais provável, porém, parece ser morte por parada cardíaca, causada involuntariamente pelo próprio deputado.

Neste caso, antes de morrer ele possivelmente estaria realizando uma prática que consiste em se abster de oxigênio para aumentar o prazer sexual. O efeito é comparado pelos médicos com o de algumas drogas que provocam alucinações por reduzir o fluxo de oxigênio para o cérebro. Uma corda amarrada ao saco plástico indica que Milligan parecia estar se sufocando. Isso teria provocado uma parada cardíaca.

A polícia também não sabe ainda se o deputado estava sozinho ou acompanhado na hora de sua morte. Nem os parentes do deputado nem seus colegas de partido contestaram até agora as insinuações de que ele era homossexual. Jornalista (foi um dos editores da "Economist" e trabalhou na BBC), Milligan era cotado para posições de liderança no Partido Conservador.

Governo Major
O Partido Conservador é o mais hostil aos homossexuais no Reino Unido (Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales). Vários de seus membros já qualificaram a homossexualidade como um desvio ou anomalia sexual. O partido reluta em aprovar a redução da idade mínima para relação homossexual de 21 para 16 anos. (HuSa)


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: HUMBERTO SACCOMANDI
Editoria: MUNDO Página: 2-11
Edição: Nacional Tamanho: G 273 FEB 9, 1994
Legenda Foto: O deputado Milligan
Crédito Foto: Associated Press – arquivo



Prostituição e violência


A prostituição é filha de duas mães: a hipocrisia e a desigualdade social; neta da rigidez moral e bisneta de uma ideologia que separa o amor do desejo e, ambos, do sexo. Sua madrasta é a religião, acusadora e moralista, que recebe um novo cidadão, “naturalmente” instalado no berço do pecado original.

A prostituta é a mulher que, por não ser competitiva no mercado, precisa usar o sexo como produto, para sobreviver. A “mulher emancipada” é a que tem capacidade de competir. Mesmo assim, se vender o sexo, será para adquirir bens de consumo que a façam sentir-se mais próxima das classes altas, sem perder a “classe”. Não há diferença de caráter, de talento ou de religiosidade entre esses tipos de mulheres. O comportamento hipócrita dos homens, ao defenderem a moral de suas filhas e freqüentarem alegremente os cabarés, aponta para a discriminação social que separa as pessoas em classes: superiores e inferiores. A prostituição é um conceito civilizado, artificialmente criado para julgar a sexualidade sob parâmetros equivocados.

Notícias:

S.S., 20, ganha até curso na Alemanha
Da Agência Folha, em Recife
S.S., 20, é uma das garotas consideradas privilegiadas no esquema de turismo sexual em Recife. Em 1993, ela viajou duas vezes à Alemanha, patrocinada por um eletricista de Munique, de 42 anos, com quem conviveu por um mês no Brasil.

S.S. começou a se prostituir aos 15 anos. Em seu primeiro encontro com um estrangeiro ficou com um austríaco por 15 dias. "Depois disso, só me encontrei com turistas, a maioria alemães", disse a garota à Folha, próximo da casa onde mora, em um bairro carente de Recife.

Exibindo seu passaporte, a garota diz que complementou os estudos na Alemanha, freqüentando um curso pago pelo eletricista, com quem acabou rompendo três dias após desembarcar no país pela segunda vez, em julho passado. O rompimento com o alemão, porém, não a impediu de permanecer no país por 90 dias. (Fábio Guibu)


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: COTIDIANO Página: 4-1
Edição: Nacional Tamanho: G 152 JAN 2, 1994
Crédito Foto: Fernando Gallota/Folha Imagem
Observações: SUB-RETRANCA

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Nota 10 para a manequim

BRASÍLIA – As cenas do camarote entre Itamar Franco e a manequim sem calcinha foram impróprias para um presidente da República. Mas algumas das críticas geradas pelo episódio conseguem ser ainda mais impróprias. O ponto é o seguinte: uma calcinha (ou, no caso, a falta) não merece uma crise institucional.

Um grupo de empresários apoiados por padres e parlamentares, anuncia ação de impeachment por falta de decoro. Pergunto: vamos derrubar um presidente em fim de mandato, em meio à sucessão, por causa de uma modelo sem calcinha? Ora, não sejam ridículos.

O senador Esperidião Amim prevê dificuldades para aprovação do plano econômico no Congresso. O sindicalista Luiz Antônio de Medeiros: "O episódio pode trazer um descontrole da economia e afetar o combate à inflação".

Há outra argumentação que considero imprópria: atacar a manequim, classificada por alguns como "vagabunda", "piranha" e até "reles prostituta". Engano: ela cumpriu exatamente seu papel. Ou seja, o papel de perua deslumbrada atrás de fugaz notoriedade.

Lílian Ramos sabia exatamente o que fazia - e sabia exatamente o que não estava usando por baixo da justa camiseta. Tinha certeza de que, postada ao lado do presidente, viraria o centro das atenções e dos fotógrafos. Traduzindo: como perua deslumbrada, ela merece nota 10.
Quem não sabia seu papel era o presidente. Se ele conhecesse seu papel tão bem quanto a manequim, nada teria acontecido. Ou mellhor, quem sabe tudo teria acontecido. Explico melhor.

Ele é solteiro e poderia até ter travado contato menos público com a manequim -ninguém proíbe um presidente de ter vida sexual.

Do jeito que acabou, ele manchou a imagem de um presidente, ficou com a fama de ingênuo para uns e depravado para outros - e, para completar a comédia, nem teve um fugaz caso.
PS – Há líderes políticos sustentando que Itamar Franco deveria cair pela baixaria. Mas, alguns deles, não se incomodaram em defender até o último momento Fernando Collor -mesmo sabendo quem era e o que tinha feito com o dinheiro público. O episódio da calcinha é, pelo menos, de graça.


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: GILBERTO DIMENSTEIN
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional Tamanho: G 346 FEB 17, 1994
Seção: BRASÍLIA



Corrupção e violência



A corrupção é uma das anomalias do poder. Abrigada sob o conceito de Estado, manifesta-se através das instituições, dirigidas por pessoas que detêm importante delegação de poder. É manifestação cancerígena que, por via da fragilidade humana, reproduz metástases em todos os segmentos da organização burocrática. Existe em todos os lugares onde esse tipo de organização atua. Fora das instituições ela também existe, sobretudo quando vantagens são o meio de conseguir objetivos pessoais e a ética passa a não ter valor entre as partes. Detectar e combater essa anomalia é muito difícil, posto que suas raízes se nutrem do lôdo sujo dos valores circulantes na civilização.

Notícias:

Relatório lista 26 políticos no caso do Orçamento
Relatório preliminar da Subcomissão de Emendas da CPI do Orçamento aponta o envolvimento de 26 parlamentares no esquema de corrupção da Comissão Mista de Orçamento, nos últimos nove anos. O esquema, segundo o relatório, teve três fases, com diferentes parlamentares formando seu núcleo. Genebaldo Correia (PMDB-BA), Felipe Mendes (PPR-PI) e o senador Lauremberg Nunes Rocha (PPR-MS) aparecem nas três etapas. O relatório destaca o poder concedido ao relator do Orçamento. Em 91, por exemplo, 73% das emendas aprovadas eram do relator João Alves. O ex-assessor José Carlos Alves dos Santos deverá depor novamente na CPI. Ele enviou carta a Jarbas Passarinho se oferecendo para falar à Subcomissão de Subvenções Sociais, informa Denise Madueño.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: PRIMEIRA PÁGINA Página: 1-1
Edição: Nacional Tamanho: M 115 JAN 1, 1994

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Desafios são violência e corrupção policial

De Nova York
O combate à violência foi o carro-chefe da campanha de Rudolph Giuliani. E agora promete ser seu maior desafio. Com o crescimento do crime organizado e do tráfico de drogas, espalhou-se também a corrupção entre uma corporação de 30 mil policiais, a maior força policial de uma cidade norte-americana.

Em relatório divulgado esta semana, a Comissão Mollen, instituída para fazer um diagnóstico da corrupção na polícia de Nova York, apontou a existência de "uma cultura de tolerância com a corrupção e com os procedimentos fora da lei". O relator sugeriu a criação de um órgão de fiscalização independente para prevenir e detectar más condutas entre policiais.

Giuliani já disse que prefere a figura de um inspetor-geral. O novo prefeito de Nova York construiu sua reputação como procurador federal, destacando-se pelo combate ao crime organizado e à Máfia. Ele marcou por um estilo espetacular, que incluía determinar prisões com algemas e muita publicidade.

Giuliani disse ter ficado chocado com a negligência das chefias e escolheu para o cargo de comissário-chefe da polícia de Nova York um "estrangeiro" com fama de durão, William Bratton, ex-chefe da polícia de Boston, Massachusetts (também na Costa Leste). Giuliani acredita que um "xerife" sem vínculos anteriores com seus próprios subordinados processará a "limpeza" dos corruptos com mais eficácia.

Todas as pesquisas de opinião pública têm apontado a violência como a preocupação número um dos cidadãos nova-iorquinos. Os altos índices de criminalidade são citados também pelas pesquisas como principal motivo para o êxodo por aqueles que têm decidido deixar a cidade, tanto indivíduos como corporações. (FG)

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: FERNANDA GODOY
Editoria: MUNDO Página: 2-6
Edição: Nacional Tamanho: G 269 JAN 1, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
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Polinter abre investigação

Da Sucursal do Rio
O delegado Luis Mariano dos Santos, da Polinter, vai investigar as denúncias de corrupção por determinação do secretário de Polícia Civil, Nilo Batista. A investigação começa com os depoimentos dos árbitros Cláudio Cerdeira, autor das primeiras denúncias, e Reginaldo Matias, que prometeu uma lista de corruptos.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: ESPORTE Página: 4-1
Edição: Nacional Tamanho: M 53 JAN 1, 1994
Observações: SUB-RETRANCA

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Filipinas combatem corrupção policial; Narcotráfico 'lavou' US$ 14 mi em Caracas

Filipinas combatem corrupção policial
O governo das Filipinas anunciou a prisão de 621 policiais acusados de sequestros, assaltos, assassinatos, violações dos direitos humanos e outros crimes cometidos em 1993. Outros 5.000 estão sendo investigados.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-9
Edição: Nacional Tamanho: G 271 JAN 4, 1994
Seção: COLUNÃO






Hipocrisia, mentira e violência



Num ambiente onde as relações são distônicas (individualismo) podem ocorrer distorções leves, médias ou profundas, gerando cargas reativas na mente, ou seja, comportamentos anômalos. A “programação anômala” se refere às distorções de tratamento e formação que o indivíduo experimenta no ambiente familiar e que se continua pelo meio social. Portanto, o conjunto de distorções (mentira, chantagem, fraude, hipocrisia, dissimulação, etc.) com as quais o homem civilizado contaminou suas relações afetivas, seu princípios e valores na convivência mútua, são fatores que estimulam a disfunção mental - predisposição ao comportamento reativo - isto é, alterações do comportamento que se constituem nos maiores problemas para nós e para a convivência. Quando falamos em mimetismo ou camuflagem estamos nos referindo ao hábito de esconder ou reter pensamentos sentimentos ou emoções. Esse hábito faz com que os conteúdos emocionais não se manifestem naturalmente pela fala e pelo gesto. A fala e o comportamento passam a usar códigos reativos para expressar esses conteúdos. Os comportamentos reativos desorganizam a mente e o convívio e ativam a violência. As pessoas distônicas são aquelas que não se sentem seguras na convivência com outras pessoas, mesmo as mais íntimas.

Notícias:
Adultério derruba ministro britânico
Tim Yeo, do Meio Ambiente, renuncia um dia depois de dizer que não deixaria o cargo
De Londres
Um caso de adultério provocou ontem a renúncia do ministro do Meio Ambiente do Reino Unido, Tim Yeo. Há 11 dias ele lutava para se manter no cargo, após admitir ter tido uma filha numa relação extraconjugal. O escândalo causou embaraço para o governo do premiu John Major, que está realizando uma cruzada pelo retorno a valores tradicionais da sociedade.
O ministro, que é casado e tem dois filhos adultos, teve uma breve relação com Julia Stent, 34, vereadora num distrito de Londres. O caso aconteceu durante a convenção do Partido Conservador em 1982. Stent, que é solteira, ficou grávida e deu à luz uma menina em julho de 1993.
Yeo admitiu ter agido "tolamente", mas afirmou que uma questão privada não deveria influenciar no destino de um ministro. "Minha vida privada jamais afetou meu trabalho como ministro", afirmou. Com o apoio de sua família e de Stent, que não se pronunciou nesse período, ele esperava poder manter seu cargo. Apesar de adultério ser um problema grave para um ministro no Reino Unido, o que obrigou Yeo a renunciar foi a imagem de hipocrisia que ele transmitiu. Num momento em que o governo defende a volta a valores conservadores e ataca as mães solteiras como "um dos maiores problemas sociais de nossos tempos", espera-se que um ministro dê exemplo, não que se veja envolvido num escândalo como esse.

"Estávamos preocupados com as críticas e a decepção expressadas por membros do partido e pedimos a Yeo que refletisse sobre essas opiniões", disse uma colega de partido do ministro. Em sua carta de renúncia, Yeo disse que renunciava "com profunda tristeza". O premiê Major respondeu que lamentava a perda do "talento de um eficiente ministro".
Ironicamente, foi do Partido Tralhista, de oposição, que veio o maior apoio a Yeo. Os trabalhistas defendem que a vida privada de um político não deve ter repercussões na vida pública. Yeo se soma à lista de políticos conservadores vítimas de aventuras amorosas fora do casamento. O último caso ocorreu em 1992, quando David Mellor, então ministro da Cultura e amigo pessoal de Major, renunciou quando se descobriu que ele teve um caso com uma atriz.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: HUMBERTO SACCOMANDI
Editoria: MUNDO Página: 2-1
Edição: Nacional Tamanho: G 441 JAN 6, 1994
Crédito Foto: Reuter
Adultério derruba ministro britânico

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Calcinhas

"Para Luhmann, sociólogo alemão, o que norteia o interrelacionamento humano é a hipocrisia. Não estamos fazendo a exaltação da hipocrisia, mas constatamos que sem ela a convivência no mundo seria impossível. Numa terra em que a maior glória de artistas, esportistas, modelos e muitas outras profissionais é posar nua, na próxima vez que nosso comandante for ao Sambódromo, deverá munir-se de um detector de calcinhas. Gritam padres e frades, políticos, professores, grita o povo. Ora, santa hipocrisia..."
Anamaria Lowenthal (São Paulo, SP)
"A grande lição que fica sobre tudo que se viu e tudo que se falou sobre o episódio do Sambódromo é de que, salvo raras exceções, nós temos um governo ingênuo, uma sociedade hipócrita e uma imprensa canalha!”
Sérgio Malta (São Paulo, SP)


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: PAINEL Página: 1-3
Edição: Nacional Tamanho: G 1229 FEB 25, 1994
Seção: PAINEL DO LEITOR



Guerra e violência


As guerras sempre existiram e acompanham o homem desde a pré-história. Há dois tipos fundamentais de guerra: a guerra ritual e a destrutiva. Nas comunidades naturais o ritual da guerra serve a propósitos como: comércio, casamento e manutenção da autoconfiança grupal. Nas sociedades reativas elas possuem motivações econômicas (indústria bélica), religiosas (fanatismo), políticas (anexação de território, objetivos eleitorais) ou simplesmente como forma de descarregar reatividade acumulada (belicosidade).

Notícias:

'Fogo amigo' matou 35 americanos no Golfo
Os americanos têm um nome específico para os mortos por engano durante guerras. São as vítimas de "fogo amigo".

Na guerra contra o Iraque (1991), morreram 35 soldados americanos e 72 ficaram feridos por "fogo amigo", 17% de todas as baixas dos EUA. Os americanos mataram ainda nove britânicos. Especialistas calculam que um em cada 50 americanos morto na 2ª Guerra, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã foi atingido por suas próprias tropas ou por aliados. A tendência é piorar, segundo analistas militares.

"A estrutura da guerra está mudando fundamentalmente... o tempo dos combates caiu muito e a margem entre morrer ou ser morto é de uns poucos segundos", diz Tony Cordesman, do Centro Wilson de pesquisa (Washington).

Um tempo tão curto torna quase impossível para o piloto de um caça verificar o alvo com seus próprios olhos antes de atirar.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-12
Edição: Nacional Tamanho: M 149 APR 15, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
Das agências internacionais

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FIM DE GUERRA

Ao assinarem um acordo de paz cuja elaboração durou cinco anos, a guerrilha e o governo da Guatemala selaram o fim de um sangrento período na história de toda a América Central. A guerra civil guatemalteca, com um trágico saldo de 100 mil mortos e mais de 40 mil desaparecidos, era o último confronto armado da região, parte de um longo embate ideológico que se fez presente durante as últimas quatro décadas.

Sob a influência da tomada do poder em Cuba por Fidel Castro, a opção pela guerrilha disseminou-se entre países centro-americanos como uma alternativa para combater ditaduras personalistas e violentas.

Na Nicarágua, a ação foi bem-sucedida, com a vitória dos sandinistas, em 1979, encerrando a sangrenta ditadura de Anastacio Somoza. Em El Salvador, a FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional) chegou a controlar parte do país, mas nunca tomou o poder.
Independentemente do resultado de suas operações militares, ao longo dos anos os movimentos guerrilheiros acabaram por cessar ou modificar suas atividades. Vitoriosos ou não, tiveram de se curvar às pressões para que abandonassem o seu caráter militar, mediante o igual comprometimento de seus oponentes com o fim das hostilidades.

Os sandinistas, após uma década no poder e enfraquecidos pela ação dos contra-revolucionários, apoiados pelos EUA, realizaram eleições livres, em que foram derrotados. Em El Salvador, os guerrilheiros da FMLN, depois de um acordo de paz, adotaram a via política pacífica.

O mesmo destino chega agora à Guatemala. Os integrantes da guerrilha URNG (Unidade Revolucionária Nacional da Guatemala) pretendem entregar as armas e participar pacificamente da vida política do país. Tal desfecho poderá ter inclusive influência sobre conflitos semelhantes que ainda persistem em países como Peru, Colômbia e México.

Virada essa página de violência e intolerância, que teve sua população civil como a maior vítima, espera-se que toda a América Central consolide o regime democrático, que aos poucos se fortalece na região.


Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2 1/46
Edição: Nacional Tamanho: Jan 1, 1997
Seção: EDITORIAL
Assuntos Principais: GUATEMALA; GUERRILHA; CONFLITO

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Do velho ao novo Leste Europeu

O Leste Europeu, expressão mais política do que geográfica, vive hoje uma situação muito parecida à do pós-Segunda Guerra.

Na Conferência de Yalta (1945), definiu-se o predomínio soviético na Europa centro-oriental. O socialismo foi, na maioria dos casos, imposto pela URSS em meio à expulsão dos nazistas.
Já na Albânia, Tcheco-Eslováquia e Iugoslávia, os próprios Partidos Comunistas implantaram o socialismo.
A Iugoslávia desenvolveu um socialismo peculiar, fora da influência soviética.
A URSS reprimiu as tentativas de desobediência à sua chefia na Polônia e na Hungria (1956) e na Tcheco-Eslováquia (1968 - Primavera de Praga).
Dessa forma, procurou manter os países do bloco subordinados à sua política e linha ideológica.
A "glasnost" (transparência) e a "perestroika" (reestruturação) de Gorbatchov levaram ao fim da URSS e do bloco socialista.
As antigas estruturas socioeconômicas foram desmontadas, agravando as desigualdades, desemprego, inflação, conflitos étnicos e tendências separatistas. A transição não levou, necessariamente, à democracia.
A desintegração do bloco socialista, após 1989, deu-se por várias vias: negociações entre as autoridades e a oposição (Polônia, Hungria e Bulgária); revolução popular violenta (Romênia); manifestações de massa pela democracia (Alemanha Oriental e Tcheco-Eslováquia).
Na Albânia, país mais fechado do bloco, pressões sociais e reformas provocaram a queda do stalinismo.
Na ex-Iugoslávia, explodiram os antigos problemas étnico-religiosos, desencadeando violenta guerra civil.
A queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha tornaram-se o maior símbolo do fim da "Cortina de Ferro".
No entanto, as reformas não avançaram no ritmo desejado em alguns países, gerando o declínio do prestígio do governo.
Na Polônia, Walesa não foi reeleito presidente. Na Rússia, os comunistas venceram as eleições legislativas, embora o presidente Ieltsin fosse reeleito.
Na era da globalização, a Rússia e o "novo" Leste Europeu convivem com o pior do socialismo e do capitalismo: atraso, burocracia, desemprego, inflação.
Essas dificuldades podem trazer de volta um "velho fantasma": o socialismo, agora sem a URSS.
Maria Odette S. Brancatelli e Cinília T. Gisondi Omaki são professoras de história do Colégio Bandeirantes.

Origem do texto: Especial para a Folha
Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: FOVEST Página: Especial-7 1/496
Edição: Nacional Jan 2, 1997
Seção: ATUALIDADE
Autor: MARIA ODETTE S. BRANCATELLI; CINILIA T. GISONDI OMAKI
Observações: FOVEST 97; PÉ BIOGRÁFICO




Crianças abandonadas e violência



A família é o centro receptor e transmissor de informações e conhecimentos do meio social. Através dela os sentimentos, princípios e valores circulantes na sociedade, são reproduzidos e irradiados para todos os membros que a compõe. As crianças e adolescentes recebem esses sinais através da palavra e do comportamento dos adultos e também através de percepções não emitidas por eles (percepção intuitiva). As palavras podem não ser coerentes com o comportamento. Nesses casos os filhos percebem e, usando o seu próprio discernimento, podem julgar se estão sendo convenientemente usados ou não. Dizemos que a família é a célula do tecido social. É dentro dela que nascemos e crescemos. É dentro dela que nossos filhos, netos e bisnetos nascem e crescem. Que outra instituição conseguiria desempenhar normalmente as funções de proteção, educação e socialização dos indivíduos?

A expressão “menor abandonado” significa: criança desvinculada do núcleo familiar; com família desestruturada. O que é família estruturada ou desestruturada? Quando a mente, a família ou a sociedade está desestruturada, essa condição altera o comportamento?

Parece pouco sensato generalizar sobre atos violentos cometidos por crianças e adolescentes. A carga reativa (tensões internas) acumulada, pode resultar em comportamento violento na medida em que sua intensidade, somada aos mecanismos específicos determinados pela constituição individual atingir o limiar crítico dos processos mentais que controlam os impulsos destrutivos e a administram na relação. Mas o ambiente, gerador de tensões, é de grande importancia para a sua prevenção.

Quando uma criança ou adolescente não consegue ter seu espaço no interior da família, se dirige para as ruas onde tenta se refugiar do caos familiar. O que encontra nesse meio, todos já sabemos: a violência.

Notícias:

Analista questiona 'cura' de criança violenta
Especialistas divergem sobre o que leva um menino de 10 anos a torturar animais ou cometer pequenos furtos
Uma criança de 10 anos, como o personagem de Macaulin Culkin em "O Anjo Malvado", jamais seria diagnosticada como psicopata, apesar do seu comportamento claramente anti-social. "Um diagnóstico como esse só se dá a um maior de idade. Como a criança está em formação, você acredita que pode mudar essa personalidade", diz o psiquiatra infantil Francisco Baptista Assumpção. "Mas eu, pessoalmente, acho que há algumas tentativas de abordagem terapêutica que não adiantam", acrescenta.

O caso do personagem de Culkin é considerado extremo e raríssimo pelos especialistas ouvidos pela Folha. Todos concordam que a agressividade é um impulso inato à espécie humana. A grande discussão é sobre como essa agressividade é "modelada" e se desenvolve ao longo da infância –em resumo, por que a agressividade de uma criança pode evoluir para a perversidade e para o chamado comportamento anti-social.

Terapeutas relatam casos de crianças com menos de 12 anos (não penalizáveis pela lei) acostumadas a cometer atos que, praticados por um adulto, seriam considerados crimes ou contravenções. A tortura de animais, especialmente gatos, está no topo da lista. Também não são incomuns os registros de atos de vandalismo (riscar veículos com uma chave, por exemplo) e de pequenos furtos. Mais raros são os casos de assassinatos cometidos por crianças.

Num extremo, há terapeutas que acreditam no ambiente familiar como formador primordial, senão único, da personalidade de uma criança. No extremo oposto, há os defensores da linha biológica, que acham que a criança é o que ela é porque nasceu com determinadas características.
Nesse duelo de teorias, Francisco Assumpção, 42, que é livre-docente do departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, defende um meio termo. "O caráter da criança vai ser resultado da formação ambiental mais a sua hereditariedade genética”.
O psiquiatra cita os casos de duas crianças de 12 anos que acompanhou. Ambas praticavam requintadas maldades com animais, eram violentas com os amigos e já tinham vida sexual homo e heterossexual. Um dos meninos morava com a mãe numa favela. O outro, de classe média, vivia com uma família considerada estruturada (pai, mãe e irmãos).

O menino pobre foi encaminhado a uma escola bem organizada, onde passava o dia inteiro. O outro foi para uma nova escola particular, passou a fazer psicoterapia e a sua família também.

Dois anos depois, o menino pobre estava trabalhando num supermercado e não exibia mais os sintomas de antes. O outro, continuava com os mesmos sintomas, foi expulso da escola e, anos mais tarde, deu um tiro numa namorada. "Com todas as condições, ele não mudou nada. Há situações em que o ambiente parece não influenciar", conclui Assumpção.

O psicanalista Bernardo Tanis, 37, professor de psicoterapia psicanalítica da criança no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, diz que é importante distinguir a agressividade, que considera natural, de comportamentos anti-sociais, como vandalismo e furtos, praticados por crianças com menos de 12 anos. "A agressividade, pensada como um aspecto inerente à condição humana, espontânea, não contém maldade. É uma manifestação não necessariamente destrutiva”.
Os pais devem se preocupar, segundo o psicanalista, com crianças de um segundo tipo, cuja agressividade é decorrente de alguma frustração ou privação. Tanis acredita que o comportamento anti-social de crianças está associado a privações sociais severas na infância. "Ou também privações afetivas: pais que nunca olharam para o filho e o deixaram com a babá, por exemplo", diz.

Mais otimista que Assumpção, Tanis acha que, com auxílio terapêutico, "essas crianças podem compreender que frustrações elas estão tentando compensar com os seus atos".

A terapeuta de família Lidia Aratangy, 53, acha que parte dos problemas das crianças surge da repressão à agressividade com tapa. "Bate-se muito em criança e isso é muito ruim. É um contra-senso. Agressividade se resolve com abraço", diz a psicóloga.
(Mauricio Stycer)

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: MAURICIO STYCER
Editoria: COTIDIANO Página: 4-3
Edição: Nacional Tamanho: G 646 FEB 27, 1994
Chapéu: 'ANJOS MALVADOS'
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Hermógenes e Reinaldo, mortos com 15 tiros

Especial para a Folha
O tempo e o acaso criaram o racismo científico no século 19. Desde então, milhões de seres humanos passaram a descrever-se como "negros" e "brancos", e os brancos a humilharem os negros, por acreditarem que são humanamente superiores a eles!

Poucos parecem ver que negros são tão "negros" e brancos são tão "brancos" quanto peles-vermelhas são "vermelhos" ou amarelos são "amarelos". A cegueira do preconceito é autocomplacente e consentida.

O tempo e o acaso tornaram o Brasil uma das mais violentas sociedades capitalistas modernas. Aqui, crianças morrem de fome ou, a golpes de miséria e abandono, convertem-se em pequenos assaltantes ou marginais ferozes. Na maioria são negras e, depois de cuspidas nas ruas e favelas imundas, são aniquiladas como ratos, por bandos de extermínio.

O tempo e acaso fizeram com que Hermógenes de Almeida Silva Filho e Reinaldo Guedes de Miranda nascessem "negros" no Brasil, lutassem pelo direito das minorias, participassem da Comissão que investiga o assassinato de adolescentes na Candelária e fossem trucidados com 15 tiros de pistola 9 mm, na madrugada de domingo, 12/06/94.

Por fim, o tempo e o acaso fizeram com que este horror acontecesse em tempos de Copa do Mundo, onde quase todos - é natural - só têm olhos e ouvidos para futebol. É a "história feita destino pessoal", diria Hannah Arendt.

Mas, continuo com Arendt, se não formos "desses rematados oportunistas que sempre aceitam o "aqui e agora", a história não pára neste funesto episódio. Que cultura é esta; que país é este? Uma escola de bufões? Estes homens morreram por aquilo que diz respeito a todos! Por que o silêncio em torno de suas vidas e memórias? Por que noticiar as mortes em fundos de jornais, como anônimos fatos policiais? Onde está nossa televisão, sempre prestes a cair em "orgias patrióticas" por qualquer "vitória brasileira" nos esportes! Onde estão as matérias barulhentas e chorosas dos horários nobres, feitas quando a tragédia atinge, infelizmente, os ricos e famosos? Morte de "negros", lutando por justiça, não vende automóveis de luxo ou produtos de limpeza? É isto? Então, o que queremos com isto? Apontá-los como tolos que morreram por nada e por nenhuma causa? Ou queremos mostrar aos nossos filhos que o desprezo e o esquecimento são o destino dos que encarnam nossos ideais morais, enquanto o reconhecimento é privilégio dos que têm sucesso publicitário e dinheiro? Como podemos lamentar o descrédito na "política", na "ética" e na "lei", se ocultamos do olhar de todos aquilo que é a mais alta expressão da dignidade e heroísmo políticos: morrer pelo bem comum! Um povo sem heróis é um povo infeliz; um povo que não sabe reconhecer seus heróis é infeliz e estúpido!

Não penso na canalha cínica que seqüestrou esta nação. Ou seja, à corja de traficantes, corruptos e vendidos de toda sorte ou naqueles empresários brasileiros que posam de vítimas do Estado enquanto "exigem", com a maior desfaçatez, que a sociedade pague os lucros inflacionários que perderam e querem manter, com ou sem inflação! Esta ralé é incorrigível. A solução é a cadeia. Penso nos que ainda querem fazer deste lugar um lugar digno de se viver. Por que comportar-se como ovelhas diante de chacais? Há pouco a Itália, sacudida pelos escândalos da Máfia e da democracia cristã, saía às ruas, em Palermo e outras cidades, gritando: "A Itália é nossa e não da Cosa Nostra!" Onde estão o parlamento, a universidade, os intelectuais, os partidos políticos, as associações, os grupos de cidadãos, os "cara-pintadas", que não vêem que mortes como estas são algo muito mais sério do que troca de moedas ou de caras em Brasília? Quem pode governar um país onde Hermógenes e Reinaldo são assassinados por quem foram e como foram, em pleno Rio de Janeiro, e dias depois, a polícia vem a público dizer que se tratou de um crime passional!

É tudo; e como é pouco! Estamos aprendendo a viver em guetos, cantando como rãs em charcos. O cerco da marginalidade se estreita. E ao chegar a nossa vez, vamos idiotamente perguntar o que outros algum dia perguntaram, quando resposta alguma fazia mais sentido: como Hitler ou o Cartel de Medellín tornaram-se possíveis? Nesta hora, talvez Hermógenes e Reinaldo venham a ser lembrados. Só que não haverá "Dia D", onde não existe desejo de libertação. Não estaremos em luta contra nazistas, stalinistas ou qualquer outro totalitarismo que se venha, por acaso, a inventar. A "Normandia ocupada" está em cada um. Está no conforto bovino que nos prende à indecência da especulação, do consumo, do desperdício, enquanto homens como nós morrem por nossa honra e por nossa vida. Se o "basta!" não chegar a tempo, logo logo virá o "tarde demais".
JURANDIR FREIRE COSTA é psicanalista e professor de Medicina Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. É autor de "Inocência e Vício - estudos homoeróticos"


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: JURANDIR FREIRE COSTA
Editoria: MAIS Página: 6-3
Edição: Nacional JUL 3, 1994
Seção: OLHO CLÍNICO
Observações: PÉ-BIOGRÁFICO

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Velhice e violência



Dissemos que o espaço vital necessita de “desbastes” periódicos das populações animais e vegetais para que a Vida possa circular sem problemas. Os seres vivos nascem para viver e reproduzir, mas não podem ocupar o espaço vital indefinidamente. Morrem para ceder espaço a outros que nascem! Mas não é fácil aceitar essa verdade cartesiana quando somos nós os candidatos à velhice.

A sabedoria da natureza é pródiga quando proporciona um tempo relativamente longo para que possamos ir tomando consciência progressiva de que precisamos ir nos despedindo da Vida aos poucos. O envelhecimento vai nos “despreparando” biológica e psicologicamente, de forma gradual, para as atividades vitais. A história inexplicável da Vida se inicia na concepção e se encerra na Morte, porém, a velhice é uma oportunidade de podermos fazer uma avaliação desse percurso. Uma pessoa que ultrapassou os cinqüenta anos viveu durante meio século. Esse tempo seria o suficiente para que essa pessoa, agradecida por esse grande privilégio, se sentisse feliz e tranqüila. Muitos nem nascem, são abortados. Outros morrem na infância, adolescência e na juventude. Por que, então, se sentir triste por ter ultrapassado meio século? Não seria um bom motivo para ficar alegre?

Notícias:

Família é melhor remédio
Da Reportagem Local
Especialistas afirmam que a receita de saúde ideal para o idoso é mantê-lo junto à família. "A pessoa deve ficar em casa", diz Eurico de Carvalho Filho, 60, professor de geriatria da Faculdade de Medicina da USP.

Na sua opinião, muitos dos idosos que estão em casas de repouso "estão insatisfeitos" e só permanecem lá por falta de uma família ou porque imaginam que estão atrapalhando os filhos.
O professor observa que as pessoas, à medida que que envelhecem, tendem a ficar mais caseiras e a diminuir seus relacionamentos. "É fundamental manter uma vida social", afirma. Segundo ele, a maioria das pessoas se adapta bem à velhice, convivendo com pequenos passeios diários e o contato com os netos. "Mas uma minoria não aceita o envelhecimento”.
O geriatra Mário Mosca, 49, diz que o idoso sadio não precisa de atividade ou espaços especiais. "Seria uma forma de segregá-lo”.

Para as pessoas dependentes, as casas de repouso afirmam que oferecem serviços de enfermagem 24 horas.

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: AURELIANO BIANCARELLI
Editoria: COTIDIANO Página: Especial B-1
Edição: São Paulo Tamanho: G 198 APR 6, 1994

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Pintora troca tela por TV

Da Reportagem Local
A artista plástica Anita Maiuri não diz a ninguém quantos anos tem. "Sou muito vaidosa", justifica. Até o ano passado, ela mantinha um ateliê e uma pequena escola de pintura no seu apartamento da rua Mela Alves (Jardins). Anita conta que já participou das bienais de Roma, Paris e São Paulo.

Há dois meses está na casa de repouso Danúbio Azul, na rua Avanhandava, 814, (tel. 256.1480). Paga cerca de 300 URVs por mês para conviver com 18 outras mulheres. A casa é comandada por Nilda de Oliveira Vasques, 57, que há 40 trabalha com idosos.

"Estou apenas repousando", diz Anita. "Logo saio daqui, arrumo um apartamento e monto de novo meu ateliê." A velhice não a agrada muito. "Prefiro morrer a ficar com cara de velha idiota, que nem anda nem fala”.
Anita tem olhos verdes e cabelos brancos. "As pessoas dizem que sou muito bonita, e eu acredito. Tive muitos namorados, até sobrou”.

Os temas de suas pinturas são marinhas, paisagens e flores, principalmente rosas. Sem espaço para seu cavalete e pincéis, ela passa a tarde vendo TV. "Aqui não tem nada que me inspire. Só tem velhice”. (AB)


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: AURELIANO BIANCARELLI
Editoria: COTIDIANO Página: Especial B-1
Edição: São Paulo Tamanho: G 197 APR 6, 1994
Observações: SUB-RETRANCA; VIA SP

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Sexo entre idosos é ilimitado, diz terapeuta

Da Reportagem Local
Felicidade sexual entre casais com mais de 70 anos não é história da carochinha.

"Conheço cada vez mais casos", afirma uma especialista no assunto, a psicoterapeuta Ana Perwin Fraiman, que acaba de lançar o livro "Sexo e Afeto na Terceira Idade".

"Os casais felizes sexualmente aos 70 anos são aqueles que aprenderam uma linguagem sexual mais madura, cheia de malícia e provocação, menos ansiosa, e mais difusa pelo corpo todo", afirma Ana Fraiman.

Especializada em gerontologia (estudo dos problemas dos idosos), Ana Fraiman, 47, dá orientação psicoterápica individual e a grupos de maiores de 55 anos.

No Instituto Kaplan, uma entidade sem fins lucrativos que oferece atendimento na área de sexologia a pessoas de baixa renda, Ana Fraiman tem hoje um grupo de nove pessoas (seis homens e três mulheres).

Entre os que declaradamente procuram apoio, os principais problemas masculinos são a perda de ereção e a dificuldade de conseguir uma ereção. Quando a razão é clínica, o paciente é encaminhado para tratamento.

Na maioria das vezes, não é. "Estados depressivos levam facilmente à inapetência sexual. Um dos principais catalisadores é a aposentadoria", conta Ana Fraiman.
Entre as mulheres, as principais queixas são frigidez, desinteresse sexual, medo de ter relações com homens e dificuldade em alcançar o orgasmo. Segundo Ana, é "comovente" ver o interesse de mulheres com mais de 60 anos, na maior parte das vezes viúvas, em começar a aprender a lidar com a própria sexualidade.

"Elas me perguntam se os velhos também “ficam”. Muitas querem falar com os netos sobre sexo. É também grande o interesse das mulheres em aprender direitinho a se masturbar", afirma Ana. Em suas palestras a idosas, Ana costuma afirmar: "Pare de ficar se amolando com pelanca, varise, banha e descubra que o seu corpo é vibrante”.

"Muitas mulheres hoje na casa dos 50 anos aprenderam a tomar banho com camisolão. Então, elas precisam aprender a massagear o próprio pé, dormir nua, reaprender a ter prazer", afirma a psicoterapeuta.

Para uma mulher viúva, encontrar um novo parceiro não é fácil, diz Ana. "Na idade jovem, as pessoas podem fazer sexo sem afeto. Na velhice, isso é impossível", conta.

Ao encontrar um parceiro, a idade obviamente vai impor limites físicos, mas isso não é um problema, na opinião da psicoterapeuta.

"Não se trata tanto de um sexo de posse, mas de doação, bastante mais sutil e de certa forma bem mais demorado”.


Fonte: Folha de São Paulo
Autor: Ana Perwin Fraiman
Editoria: COTIDIANO Página: 4-10
Edição: Nacional Tamanho: G 418 JUN 12, 1994
Chapéu: NAMORO DEPOIS DOS 70
Selo: DIA DOS NAMORADOS
Assuntos Principais: SEXUALIDADE; IDADE




Crime organizado e violência



Quando falamos sobre a mente dissemos que todo excesso de energia tensional (nódulos reativos) tem tendência de se descarregar em qualquer direção (para o comportamento ou para dentro do corpo) com a finalidade de reequilibrar o organismo. Cada indivíduo pode conter (reprimir) ou expressar (descarregar) essas tensões. O modo de vida de uma pessoa em seu grupo social é determinado pela estabilidade cultural da sociedade, que forma os hábitos e costumes circulantes (sentimentos, princípios e valores), que determinam os comportamentos; que originam a qualidade da convivência; que promovem o bem-estar ou mal-estar; que facilitam o equilíbrio ou o desequilíbrio psíquico e orgânico de cada um; e que promove a união (harmonia) ou reatividade (conflito) entre os membros no grupo. A sociedade humana se comporta como um organismo que, quando em desequilíbrio, pode produzir células destrutivas (indivíduos reativos) que se organizam em forma de tumores. Crime organizado é isso: a reunião de indivíduos portadores de comportamentos reativos atuando destrutivamente no interior de um organismo social doente.

Com a desorganização da estrutura social e a inversão dos valores que permeiam a convivência, os delitos e atos violentos assumiram uma estrutura comparável á das organizações empresariais modernas, envolvendo indivíduos de diferentes classes sociais, onde o resultado final que interessa é o lucro alto. Qualquer profissão respeitável ou cargo de representação de alto nível estão sujeitos á contaminação por pessoas reativas.

Notícias:

São José dos Campos tem crime organizado

Da Reportagem Local
O crime organizado preocupa a Polícia Civil de São José. Nos últimos três meses, grupos profissionais promoveram assaltos considerados audaciosos, utilizando armamentos pesados, sistemas de radiocomunicação e "uma certa dose de discrição", afirma o delegado regional José Celestino Joaquim, 56. Neste período, pelo menos quatro assaltos deixaram as investigações na estaca zero.

O delegado defende duas teses para explicar a suposta "profissionalização". Segundo ele, os princípios do crime organizado de centros como Rio e SP estão sendo assimilados e há a facilidade de fuga pelas vias de acesso à cidade, como a Dutra e rodovia dos Tamoios ou D. Pedro (Jacareí-Campinas).

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: COTIDIANO Página: 3-2
Edição: Nacional Tamanho: M 111 JAN 31, 1994
Seção: VIA BRASIL
Crédito Foto: José Gonzalez/Folha Imagem


Facções disputam mercado de Tóquio

Da enviada especial a Tóquio
Depois de uma trégua que durou mais de um ano, as duas principais facções da Yakuza no Japão voltaram a se enfrentar. A Yamaguchi-gumi (com cerca de 10 mil membros) e a Kyokuto-kai (aproximadamente 4.500) estão novamente em pé de guerra. A disputa desta vez é pelo mercado de Tóquio, historicamente dominado pela segunda quadrilha.

No ano passado, a polícia contabilizou 37 tiros disparados em brigas de quadrilhas Yakuza - um aumento considerável, levando-se em conta que em 1992 (ano em que entrou em vigor a nova lei contra o crime organizado no país) esse número foi de 17.

A área de domínio da Yamaguchi-gumi é a cidade de Osaka (região central). Em 1980, a organização tentou expandir seu território incluindo Hokkaido, a ilha mais setentrional do Japão.

Vestindo blazers brancos e camisas pólo pretas, quase 200 membros da Yamaguchi-gumi voaram para Sapporo, capital da ilha, a fim de inaugurar a filial da quadrilha. Foram recebidos no aeroporto por 800 integrantes de sindicatos rivais.

O embate só não ocorreu graças à intervenção de policiais da força antimotim. Os membros da Yamaguchi-gumi foram enviados de volta a Osaka no dia seguinte em vôo da All Nippon Airways. Todos no mesmo avião. (TO)

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: THAÍS OYAMA
Editoria: COTIDIANO Página: 4-8
Edição: São Paulo Tamanho: G 205 FEB 20, 1994
Observações: SUB-RETRANCA
Chapéu: GUERRA
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Sexo e violência



É sabido que o desejo e o amor levam ao sexo, que o sexo leva à Vida, que a vida exige e determina a organização de uma Família. Não temos alternativas: ou ficamos sós ou produzimos uma Família.

A primeira grande característica do sexo é ser individual - cada indivíduo tem seu sexo. A segunda é ser diferenciado - só há dois sexos: masculino e feminino.
Parece que a natureza propositadamente projetou duas criaturas inacabadas, isto é, feitas só pela metade; duas bandas que isoladamente não tem sentido qualquer, mas, quando reunidas, se completam e se integram ganhando sentido e função.

Sexo é isca atraente e gostosa que fisga homens e mulheres para, igualmente, colocá-los no cesto familiar e despachá-los para o mercado social. Ninguém fisga ninguém, ambos são fisgados e gostam de ser. Homens e mulheres são protagonistas na atividade sexual, mas não são seus criadores. São, porém, os inventores da idéia que associa o sexo ao pecado e à culpa. Quem inventou a idéia de pecado? Algum esperto que pensou em tirar algum proveito disso ou um fanático que resolveu se tornar inimigo do prazer, da família e da sociedade?

Manter a idéia de "sexo sujo" (pecado) deve ser importante para os que querem preservar a mentira do pecado. Homens e mulheres, escravos dessa idéia, terão sempre uma vida sexual pobre e marginalizada e se manterão fervorosos adeptos e leais colaboradores da castração religiosa e do brasão da falsa moralidade. Nas doenças mentais e nas neuroses graves de crianças, adolescentes e adultos sempre surge esse brasão e essa bandeira tremulando no alto das cabeças doentes, como se fossem as marcas subversivas à Ordem Natural. O sexo nas sociedades civilizadas é visto como um mal necessário, uma espécie de assunto proibido para crianças e adolescentes. Um tabu.

Notícias:

Turismo sexual 'explode' no verão
Alemães que desembarcam em Recife contam com rede formada por cerca de 2.000 meninas
Da Agência Folha, em Recife
As férias de verão devem atrair a Recife (PE) cerca de 400 mil turistas, parte deles estrangeiros interessados em algo mais além de sol e praias: mulheres brasileiras. É nessa época que aflora na região o chamado "turismo sexual".

Segundo Ana Vasconcelos, presidente da Casa de Passagem, entidade de apoio a prostitutas e meninas carentes de Recife, pelo menos 2.000 garotas com idades entre 13 e 20 anos integram a rede de comercialização do sexo com turistas de outros países.

A maioria dos "turistas sexuais" vem da Alemanha. A estrutura de agenciamento inclui motoristas de táxi e meninos de rua, que agem como intermediários nas negociações. O acerto final costuma ocorrer em restaurantes, na praia ou nas proximidades dos hotéis onde os turistas se hospedam. O programa é cotado em US$ 100. Para ficar com uma menina por todo o período de permanência na cidade, o turista paga US$ 500.

As meninas, além de dinheiro, ganham roupas, passam a freqüentar locais que desacompanhadas não teriam acesso e, mais importante, têm direito a sonhar com um casamento ou com uma viagem ao exterior. A grande maioria das garotas envolvidas no esquema vem de camadas sociais de baixa renda. "Não há alternativa para essas adolescentes", diz Ana Vasconcelos. "A própria família estimula os encontros. É a forma que encontram para sobreviver numa sociedade que nada faz por elas".

Fonte: Folha de São Paulo
Autor: FÁBIO GUIBU
Editoria: COTIDIANO Página: 4-1
Edição: Nacional Tamanho: G 262 JAN 2, 1994

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Ladrão levou 1.200 calcinhas no Japão
Ele agia em vestiários escolares

A polícia japonesa anunciou a prisão de um ladrão de calcinhas. Yoichi Ishihara, 29, invadiu vestiários femininos em escolas de Tóquio mais de 300 vezes. Conseguiu mais de 1.200 calcinhas, guardadas em seu apartamento.

Ishihara disse que começou a roubar por hobby. Mas depois descobriu o valor que as calcinhas usadas têm para os fetichistas e iria vendê-las. Cada calcinha pode chegar a custar US$ 9 (cerca de CR$ 2,9 mil). Máquinas de produtos pornográficos chegam a cobrar várias vezes este valor. Um dos best-sellers da indústria do sexo são estudantes com roupas da Marinha e calcinhas brancas.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-9
Edição: Nacional Tamanho: M 112 JAN 6, 1994
Das agências internacionais

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Mulher que castrou marido revela à corte detalhes de espancamento

De Washington
Lorena Bobbitt, 24, a manicure que cortou o pênis do marido, John Wayne Bobbitt, descreveu ontem ao júri que a está julgando diversos incidentes em que alega ter sido espancada por ele. A defesa afirma que a agressão de Lorena, em junho do ano passado, só ocorreu por ela ter sido submetida pelo marido a anos de agressões físicas e sexuais.
Ela também se definiu como uma mulher de família muito católica, que condena o sexo antes do casamento, o aborto e o divórcio. "Para mim, o divórcio é uma humilhação, uma vergonha". Ela está se divorciando de John, após quatro anos e meio de casamento.

John Bobbitt, 26, negou ao júri todas as denúncias de violência contra a mulher. Em novembro, ele foi absolvido da acusação de estupro marital. John teve o pênis reimplantado e os médicos que o operaram dizem que ele vai voltar a ter funções sexuais ainda este ano.

As contas médicas de John estão sendo pagas com contribuições arrecadadas pelo radialista conservador Howard Stern, que já chegaram a US$ 260 mil. Os advogados de Lorena são pagos por entidades feministas.

Vizinhos e amigos de Lorena prestaram depoimentos ao júri, em Manassas, Estado de Virgínia, região metropolitana de Washington, para ratificar as acusações de que ela era espancada com frequência pelo marido.

Se for considerada culpada, Lorena Bobbitt pode pegar até 20 anos de cadeia e ser deportada de volta para o Equador. O júri, de sete mulheres e cinco homens, pode começar suas deliberações hoje.

Fonte: Folha de São Paulo
Editoria: MUNDO Página: 2-9
Edição: Nacional Tamanho: G 262 JAN 13, 1994
Crédito Foto: France Presse


Trabalho e violência



O conceito de trabalho varia com a cultura a que o individuo pertence. Normalmente é sentido entre nós como um pesado fardo que temos de carregar durante a vida.

Na década de 60 o mundo estava polarizado, era a época da “guerra fria”. De um lado os EUA representavam o imperialismo e a ex-URSS, o comunismo. Estávamos na faixa entre os dezesseis e os vinte e seis anos. Ficávamos curiosos para compreender o que havia por de trás das acusações mútuas entre os lados. Passamos um tempo lendo publicações no consulado dos EUA da nossa cidade. Íamos também às reuniões do Partido Comunista onde nos ofereciam panfletos e livros falando sobre o comunismo. Não foi difícil descobrir que ambos os lados faziam intensa propaganda das suas idéias mostrando apenas o lado positivo delas e acusando o outro lado.

Brandindo as suas bandeiras e os seus “slogans”, ambos, democratas e comunistas, falavam do trabalho como sendo a base necessária para se construir uma nação forte e poderosa. Diziam os norte-americanos que muito trabalho em ambiente livre e democrático era o responsável pela construção da grande nação americana.

Os marxistas falavam sobre o absurdo de uma sociedade de classes, onde os mais fortes exploram os mais fracos; onde a mais-valia (o lucro) servia como objeto dessa exploração. O capitalismo selvagem gerava a fome, a miséria e prostituía a dignidade dos cidadãos.

A identificação ideológica tendia mais para o lado do discurso dos comunistas. Eles prometiam uma sociedade igualitária onde não haveria classe dos ricos e dos pobres. Diziam que chegaria o dia em que o mundo seria socialista e que o povo só necessitaria trabalhar quatro horas diárias para manter garantidos a economia e o bem-estar das pessoas. Embora nossa simpatia estivesse mais voltada para os marxistas, na verdade, não estávamos convencidos. Ricos e pobres de um lado e ausência de liberdade de expressão de outro? Não dava para entender.

Quando em 1971 começamos a visitar aldeias indígenas ficamos espantados. Ali estava, sem discursos, livros e panfletos, uma sociedade sem classes sociais, sem divisão entre ricos e pobres. Uma sociedade alegre, de riso solto. Só trabalhavam, em média, três horas por dia. Ninguém reclamava e todos tinham o que comer. Não conheciam a fome, os mendigos e os magnatas; acumulavam alimentos apenas para garantir a comida na temporada chuvosa, quando a caça, a pesca e a agricultura se tornavam mais difíceis.

Estava acontecendo diante dos nossos olhos um espetáculo novo: uma sociedade verdadeiramente comunista e democrática ao mesmo tempo. Um tipo de sociedade que comunistas e democratas prometiam, desejavam, mas não conseguiam ter.

Trabalhavam sem planos econômicos, sem receber ordens, com satisfação e apenas três horas diárias! O resto do tempo estava reservado para conviver, cantar, dançar e conversar; fazer festas e jogos onde adultos, crianças e adolescentes participavam igualmente.

A partir dessa época passamos a visitar com mais freqüência as aldeias para compreender melhor os seus modos de viver, e aprender esse tipo de organização social tão novo para nós. Compramos livros de Etnologia (estudo das culturas), conversávamos com missionários e com outras pessoas, que conheciam há mais tempo seus costumes. Ficamos realmente curiosos pelo fato de eles não saberem explicar suas práticas e suas formas de organização social, religiosa, política e econômica assim como nós fazemos. Só sabiam praticá-las e achavam isso muito natural. Não precisavam, como nós, explicar e entender tudo, escrever e ler, justificar e argumentar, debater e discutir. Estavam simplesmente interessados em viver e conviver.

Muito depois percebemos que essas explicações estavam integralmente contidas nos seus mitos, hábitos, religiosidade e tradições, tendo como base a utilização do conhecimento intuitivo. Bastava saber ler as suas práticas do dia-a-dia para entender tudo. Com o passar do tempo compreendemos que o trabalho para eles era tão importante como qualquer outra atividade. Trabalhar representava uma necessidade da vida, mas nunca o objetivo da vida A vida era praticada (sem teorias) no conjunto dos momentos; trabalhar era apenas um desses momentos. Tão importante como conversar, cantar, dançar, comer e contar piadas e estórias.

Muito diferente do que nós aprendemos, onde trabalhar, estudar, acumular dinheiro e consumir sempre foi o lema e o objetivo maior. Realmente ficamos muito confusos nessa época. Como mudar tudo o que havíamos aprendido? Será que estavam todos delirando ou, o que víamos, era real mesmo e existia?

Foi muito difícil compreender tudo isso e com certeza resistimos muitas vezes em aceitar esses costumes. Sentíamos inveja e admiração num só tempo. Quando soubemos que essa prática já vinha ocorrendo há muitos milhares de anos ficamos mais incrédulos ainda. Não era possível! O trabalho, o lucro, o poder e a grandeza que nos haviam ensinado estavam completamente desmoralizados e arruinados diante dos nossos olhos. Fomos enganados por capitalistas e comunistas.

Vivemos alienados durante muitos anos acreditando nas mentiras e promessas do homem civilizado. Que vergonha! Ter que reaprender a verdadeira essência da vida através do exemplo de um grupo de selvagens? Adoráveis e sábios selvagens que, silenciosamente, sem discursos e sem livros, nos ensinavam uma forma nova e revolucionaria de sentir e pensar como um homem livre! E eles nunca se aproximaram de nós para nos convencer a respeito de ideologias políticas ou religiosas.

Essa “‘descoberta” nos obrigou a repensar a civilização ocidental, a família ocidental e a nós mesmos. Agora possuíamos duas referências para refletir: a do homem primitivo e a do homem civilizado. O que era, na verdade, ser selvagem e primitivo e ser civilizado? Meras palavras? O que poderia haver de bom e de ruim nas duas condições? Como e por onde começar a repensar os conceitos de progresso e desenvolvimento?

Prestando atenção na vida indígena e comparando-a com a nossa, começou a ficar cada vez mais fácil compreender sob que bases estão assentados os nossos comportamentos e as nossas instituições; o que sustenta as nossas crenças, valores e princípios.

Albert Einstein tinha razão, a teoria da relatividade foi um avanço. Não existe o “absoluto”, o único, o perfeito. Só comparando e relacionando é possível compreender e estabelecer as diferenças. Só assim podemos optar e escolher livremente.

A obsessividade pelo trabalho excessivo e pelo lucro excessivo é, sem dúvida, um condicionamento civilizado, uma compulsão de sobreviver no cáos materialista. Percebi que comunistas e capitalistas eram materialistas, “farinha do mesmo saco”. Pensavam e explicavam a vida, mas não sabiam viver e conviver. Que mundo desenvolvido é esse que não consegue por ordem na própria casa e vive de fantasias e de discursos cheios de mentira e contradição?

Atualmente esses discursos ideológicos estão praticamente extintos posto que o tempo não perdoa ilusões e mentiras. Domenico de Masi diz com propriedade em sua obra “O Futuro do Trabalho - fadiga e ócio na sociedade pós-industrial” que: “... Do nascimento à morte, de dia e de noite, somos ativos, com o corpo e com a mente. A gente se move, agita, pensa, recorda, imagina, fantasia. Em algumas dessas atividades prevalece a fadiga, a dor, o desgosto, a rotina, o pesar; se pudéssemos, pararíamos imediatamente com elas. Se não paramos é porque somos forçados pela necessidade, pelas ameaças, pelo hábito, pela falta de coragem ou de imaginação. São essas as atividades que geralmente chamamos de “trabalho”...”.

A fábula da formiga e da cigarra sempre foi uma mentira deslavada, uma estória para idiotas. A formiga representando o operário-padrão e a cigarra o vagabundo cantor que perde seu tempo sem trabalhar. Uma mensagem disfarçada que induz para o trabalho excessivo e para a produção desenfreada, visando à acumulação de bens materiais. As crianças e jovens, ao perceberem a mensagem, tendem a se identificar com a formiga (ser produtivo). Mas se se identificam com a cigarra (ser improdutivo), podem sentir-se marginalizados e ridicularizados, ou seja, só é bom quem trabalha muito como a formiga diz a mensagem alienadora.

É fácil desmascarar esse mito civilizado através dos livros de entomologia (estudo dos insetos) e de algumas visitas a hospitais e clínicas superlotadas de homens e mulheres estressados, estafados e neurotizados pelo trabalho excessivo.

Na verdade nem a formiga nem a cigarra trabalham muito ou ficam ociosas; ambas trabalham o suficiente para viverem. Esses e outros animais não aprenderam a acumular bens materiais por ganância ou ambição. Nem índios nem insetos conhecem a aposentadoria, promessa enganadora de uma vida despreocupada, farta e feliz, inventada pela civilização branca.

Outra hipocrisia reside no fato de se tomar como exemplo a vida das abelhas. Essa farsa tenta impingir a idéia de que as abelhas são operárias dedicadas que trabalham muito, acumulam mel e são obedientes à sua rainha (modelo do sistema civilizado).

Em outras palavras: enquanto a rainha fica ociosa e desfruta dos prazeres, as operárias trabalham como escravos, obedecem e nada reclamam.

Esse seria o “processo natural” que todos deveriam assimilar: o Estado e a classe dominante (rainha) controlando os trabalhadores (operárias) através do comando ordem-obediência (organização da colmeia). Nessa concepção a maioria das abelhas seria constituída de seres produtivos e obedientes que acumulam, e a rainha seria o ser parasitário e poderoso que desfruta desse trabalho.

A mentira cai por terra duplamente porque esses insetos agem por instinto e não por raciocínio lógico. Ademais, quem cria as abelhas para delas roubar o mel: é a rainha ou o homem apicultor? Quem tiver interesse em compreender melhor a vida das abelhas tirará suas próprias conclusões. Verá que elas não aprenderam os costumes civilizados. Basta ler alguns livros que explicam esses assuntos. No dia em que o homem começar a comer fungos e madeira podre, vamos sentir muita pena das formigas e dos cupins.

Muitas obras escritas sobre índios como “O Bom Selvagem”, de Jean Jacques Rousseau, deturparam e tornaram românticas e irreais a complexa e pouco conhecida diversidade dessas culturas. Jean Jacques Rousseau, ao que se sabe, nunca visitou um grupo indígena e não conhecia as técnicas etnográficas modernas. Aliás, muitos doutores de gabinete que defendem teses científicas citam sempre esse autor, talvez, quem sabe, por simples comodismo ou por se sentirem plenos na matéria. Será que se sentem mais sábios que os “selvagens”?

Ouvimos muitas pessoas afirmarem que os índios são preguiçosos e indolentes. Não é nossa intenção defendê-los, porque já temos nossas idéias sobre este assunto e porque não temos procuração deles para isso. Nem achamos que trabalhar muito seja bom; pelo contrário, achamos uma grande burrice. Aliás, os burros de carga não falam sobre isso, mas de vez em quando empacam.

Trabalhar muito é para as máquinas; trabalhar o suficiente é para os homens; ficar assistindo e sentindo inveja é próprio dos invejosos. Acreditamos que é por isso que os brancos querem eliminar os índios e sua cultura, para não se sentirem inferiores e irracionais, após terem destruído o seu próprio modelo cultural. Se trabalhar muito fosse bom não existiria tanto feriado e dia santo, não haveria férias, não ocorreriam greves, nem aposentadoria, nem acidentes de trabalho. Trabalhar é um ato construtivo movido pelo prazer, pelo interesse e pela responsabilidade, uma condição natural da espécie.



Violência na família




Como é possível admitir o conceito de comportamento reativo sem abordar, ao mesmo tempo, o indivíduo, a família e a sociedade como um corpo só?

O nosso primeiro núcleo afetivo é a família, grupo que nos gerou, com o qual exercitamos nossas primeiras relações e que estará fortemente gravado em nosso psiquismo para toda a vida. A qualidade dessas relações e do “clima familiar” será sempre de grande influência sobre nós. A família é a primeira instância do poder, do afeto e da violência que o indivíduo civilizado experimenta. É através dela que são sentidas as primeiras restrições, limites e proibições (repressões) da vida social. O homem depende do seu grupo social. A família, como unidade social, cumpre a função de modelar o indivíduo para viver em sociedade e, ao mesmo tempo, é influenciada por ela. Os membros da família deveriam interagir por meio de comportamentos ativos (construtivos) e não de comportamentos reativos (destrutivos). Esses comportamentos é que determinam a qualidade da convivência familiar e social.

O comportamento reativo (destrutivo) dos indivíduos em uma sociedade é diretamente proporcional ao grau de insatisfação dos seus membros. Da mesma forma, podemos dizer que os membros de um grupo familiar apresentam comportamento ativo (construtivo) quando estão satisfeitos, aprovam as regras de convivência instituídas no grupo, e têm acesso fácil a elas através do diálogo.

Nossa família biológica não mais dispõe de uma rede sociocultural bem desenvolvida e integrada. Ela terá que encontrar formas alternativas para conseguir desempenhar normalmente suas funções de proteção, educação e socialização dos indivíduos, até que outras soluções apareçam para lhe dar apoio.

As pessoas agem ou reagem frente a situações do meio ambiente externo (família, sociedade, cultura) e interno (psiquismo individual). O intercâmbio entre esses meios é a forma singular da nossa existência e convivência, e a vida de cada um de nós circula entre esses dois pontos em busca de equilíbrio.

Podemos afirmar com segurança que a Identidade é o mais forte elemento da integração pessoal, que se exercita em três espaços distin¬tos e simultâneos: o mental (psiquismo), o meio social moldante (família) e o continente mais amplo (sociedade). Nos três o homem vive e convive, bem ou mal, mas com sua identidade preservada.

O Homem sempre viveu em grupos. Podemos compreender que, assim como o Sistema Nervoso Central (cérebro e medula) integram e organizam todas as partes do corpo, o Modelo Cultural (a cultura) organiza os indivíduos em famílias, grupos e sociedades.

Uma aparente contradição do grupo familiar está contida no seu principal papel e na sua mais importante função: gerar, proteger, nutrir e educar o indivíduo com o objetivo de prepará-lo para a futura separação do grupo que o originou e formar um novo grupo - outra família. Só assim é possível perpetuar a espécie e manter a vida humana em movimento.

Com o homem não poderia ser diferente embora, na esca¬la zoológica, seja o animal que mais tempo depende do grupo familiar pa¬ra se desenvolver. A função da família é, pois, de natureza centrífuga (de dentro para fora); quem quiser formar uma família, não pode permanecer eternamente na sua. Tem que sair. E é melhor que saia bem preparado.

Somos o retrato fiel da nossa família e da sociedade. Mas, por incrível que pareça, somos dotados da capacidade de provocar mudanças em nós mesmos e ao redor, no ambiente em que vivemos.

O que é a política, a ciência, a economia, a educação, o casamento, a família senão um conjunto de reações ativas e reativas entre pessoas. O mundo civilizado é uma teia de interesses onde a verdade, nem sempre, é facilmente encontrada. A própria descoberta científica é muitas vezes omitida ou falsificada para servir a interesses pessoais, de grupos ou de países.

As crianças e adolescentes das classes média e alta são diferentes dos meninos de rua porque ainda con¬tam e usufruem bens materiais, têm família, embora não consigam es¬tabelecer um bom contato com ela. Agridem-se entre seus grupos rivais e também à sociedade. Não conseguiram completar seu desenvolvimento adulto dentro de casa e, por isso, se sentem revoltados. Zombam da sociedade atual considerando-a “desatualizada”. Agridem ou tentam agredir essa sociedade que esmaga suas famílias sobrecarregando-as de tributos, trabalho e fantasias de consumo.

Desde o início deste trabalho procuramos mostrar que as distorções em nosso modo de viver e conviver atingem e alteram a Organização Social, a Família e o Indivíduo. Dissemos que esses três planos da convivência estão interligados e se influenciam mutuamente. Se aceitarmos que o indivíduo é a unidade de qualquer grupo social, teremos que aceitar que seu comportamento é o motor das relações sociais e que seu psiquismo é o ponto de origem onde tudo se inicia.
CAPÍTULO VII

Psicose e sanidade
(mecanismos de intermediação)

A mente vive de resolver problemas que a realidade da convivência está sempre propondo. Os programas (módulos mentais) escritos pela genética e adaptados pelas aprendizagens individuais são obrigados, com freqüência, a tomar uma decisão fundamental: “Faço o que dizem ou faço o que quero?” Em outras palavras: “sigo as normas do grupo ou as minhas próprias idéias?” Essa decisão é tão importante que, muitas vezes, acaba por determinar comportamentos reativos (descargas), desequilíbrio mental (dissociação) ou formação reativa (repressão), se não for resolvida apropriadamente. É diferente de outra questão ligada ao instinto de preservação: “saio da frente do carro ou espero ele passar primeiro para depois decidir?” A primeira questão se liga á complexa situação do convívio, enquanto a segunda já está escrita no programa genético (DNA). Não precisa ser pensada.

Conviver é usar todas as nossas experiências inatas ou adquiridas para encontrar uma solução inteligente ou uma resposta temporária, frente aos dilemas que a vida em sociedade nos apresenta. É como dizer: “Viver eu quero, conviver é preciso!” Mas é preciso também ter a capacidade de fazer uma avaliação correta do ambiente e das relações. Se no ambiente onde se vive, os sentimentos, princípios e valores são verdadeiros, nossa resposta é ativa (sintônica); se em outro ambiente os sentimentos, princípios e valores são falsos, nossa resposta é reativa (camuflada). Nossa mente é tão adaptativa quanto o nosso corpo, com a diferença de ser mais rápida.

A teoria evolucionista nos diz que vivemos lincados (sintonizados) com o ambiente, num processo de adaptação permanente. E mais: que nossa sobrevivência como espécie depende de mecanismos estabilizadores que intermediam essa relação interativa. Se esses mecanismos falham ou se tornam incompetentes para apresentar respostas adequadas, nosso destino é desaparecer como espécie e como indivíduo.

Já vimos que uma sociedade é antropocêntrica quando situa a figura do homem (e sua convivência) no centro dos interesses do grupo e que o resultado desse tipo de organização é a formação de sociedades naturais, onde a solidariedade entre seus membros e o respeito pelas normas fortalece a coesão do grupo. Precisamos dizer agora que esse tipo de convivência facilita a sintonia entre indivíduos, pois o valor central é o coletivismo, isto é, o bem-estar dos membros do grupo. Poderíamos, então, chamá-las de sociedades sintônicas. Nesse caso, os sentimentos, princípios e valores podem expressar-se livremente, do jeito como se originaram no psiquismo. Não precisamos camuflar, reagir ou reprimir e, não havendo acúmulo interno de tensões, quase toda a energia da emoção é liberada no gesto, ato ou palavra. O resultado é: estabilidade mental, tranqüilidade, bem estar.

Chamamos de ergocêntrica a uma sociedade que situa o trabalho (e os bens produzidos por ele) no centro dos interesses do grupo, onde a competição excessiva entre seus membros e o desrespeito pelas normas, produzem resultados que desorganizam a convivência; esse tipo de convivência cria uma distonia entre indivíduos e, o valor central é o individualismo, isto é, o bem-estar individual dentro do grupo. O resultado desse último tipo de organização é a formação das sociedades de classes, onde a competição é desenfreada. Poderíamos, então, chamá-las de sociedades distônicas. Nesse caso, os sentimentos, princípios e valores não podem expressar-se livremente, do jeito como se originaram no psiquismo. Aprendemos a camuflar, reagir ou reprimir, o que resulta em acúmulo interno de tensões; grande parte da energia da emoção é retida no gesto, ato ou palavra. O resultado é: instabilidade mental, intranqüilidade, mal estar.

Em medicina a expressão “distonia neuro-vegetativa” se refere aos desvios ou alterações refletidas em diferentes órgãos importantes da economia orgânica, originados por fatores disfuncionais ocorridos na regulação cerebral e ocasionados por situações tensionais da mente.

É nesses grupos humanos, que transformaram suas relações internas e ambientais numa parafernália de formações reativas, que os elementos de intermediação interferem com maior freqüência, para restabelecer os mecanismos estabilizadores da mente. Esses desvios no comportamento humano se dão em condições antinaturais, e não só refletem suas anomalias para o psiquismo e para o corpo, como também para a interação com outros indivíduos e com o ambiente, porque todos percebem quando sua sobrevivência, seus direitos, seus desejos pessoais e sua necessidade de convivência em grupo encontram-se limitados ou alterados pela organização social. A esses desvios de comportamento chamamos de Comportamento Reativo.

Todos nós, quando experimentamos situações com as quais não estamos adaptados, atuamos reativamente na tentativa de readaptar nossas respostas ou mudar a situação alterada. Nesses períodos, não só a nossa agressividade se altera como todo o organismo reage, podendo produzir o que conhecemos como: descontrole emocional, fúria, pânico, etc.

Essas alterações podem ser mediadas por outros mecanismos que nos dão uma falsa idéia de normalidade desde que camuflem parcialmente as descargas fortes desencadeadas pelos fatores que a iniciaram, fazendo com que os distúrbios transmitidos para o comportamento pareçam menos intensos. Porém, a parte que não se descarregou fica retida e passa a refletir-se para diferentes órgãos do corpo; outra parte fica na mente, de forma acumulada, dando origem ao que conhecemos como “comportamento neurótico” (depressão, ansiedade, obsessividade, etc). Quando aumentam, podem alterar a estabilidade psíquica, produzindo alterações graves do psiquismo, ainda hoje conhecidas como doenças mentais (comportamento reativo grave). Esses mecanismos mediadores é que determinam a manifestação ou conversão das tensões, originando aquilo que chamamos de doenças psicossomáticas, neuroses, psicopatias e psicoses.

Os grupo naturais possuem unidade grupal (tradição de grupo) sustentado por seu eixo cultural de integração, ou seja, pelo seu reconhecimento entre os membros como “um todo com identidade”, com hábitos e costumes aprovados pelo senso comum e pelo objetivo comum direcionado para a vida coletiva. Essas características são importantes para se entender um grupo como “organismo social integrado” e como uma “unidade com personalidade e identidade própria” dentro do universo social. Nesse caso, é de se supor que a “sintonia nas relações” é fator importante e responsável pelo equilíbrio físico e mental do indivíduo e do grupo, que o entende como bem estar.

Mecanismos estabilizadores e desestabilizadores

Sintonia

O que é sintonia?
Para facilitar a compreensão desse conceito, vamos subdividi-lo em duas partes:
Homossintonia: Na homossintonia (sintonia adequada) o cérebro estaria recebendo do seu circuito primário (família) todos os estímulos desejáveis para processar e imprimir programas básicos de alta definição. Estaria sendo preparado para desempenhar bem suas funções com o circuito secundário (sociedade), com o qual permaneceria conectado sempre, gerando um novo ciclo de programações sintônicas. É o equilíbrio resultante das relações positivas e construtivas entre indivíduos, que beneficiam o próprio indivíduo, a família, o grupo social e o meio ecológico. Seria fator de harmonia do meio, determinante para a manutenção do desenvolvimento equilibrado do psiquismo, da estabilidade familiar e do modelo cultural.

Heterossintonia: Na Heterossintonia (sintonia inadequada) ocorreria o contrário. A sintonia desejável que deveria haver com o circuito primário (família) não se processou de forma correta e a impressão dos programas básicos “borrou”, ou seja, sofreu distorções leves, médias ou profundas, gerando programas básicos de baixa definição na mente ou, mesmo, programas anômalos. A sintonia desejável que deveria haver com o circuito primário (família) e com o circuito secundário (sociedade), é feita através de comportamentos reativos de caráter destrutivo e que aumentam os conflitos e deterioram as relações.

Na verdade, a SINTONIA é a verdadeira expressividade, ou seja, a forma fiel e espontânea de unirmos palavra e voz ao sentimento e pensamento de forma aberta, sem constrangimento ou mentira. Um jeito livre de expressão, que não acumula tensão; que conduz a emoção e a idéia para ser compreendida pelas outras pessoas tal como foi criada no psiquismo. Sem camuflagem!

Sintonia ou expressividade é forma de descarregar para fora o excesso de tensões e manter-se em equilíbrio, isto é, sentir-se tranqüilo e leve. Precisamos aprender a expressar esses conteúdos emocionais escondidos atrás dos comportamentos reativos para diminuir as tensões do psiquismo. Os códigos reativos são muitos e complexos porque a imaginação e as fantasias humanas são inesgotáveis.

Conclui-se, então, que o cérebro humano representa no organismo um “centro receptor-processador-transmissor” da mais brilhante engenharia natural e que passaria de forma imponente pelos mais rigorosos controles de qualidade humanos até hoje existentes. Seu único ponto fraco residiria no fato de depender de estímulos qualitativamente saudáveis, gerados pelo circuito primário (família) e pelo secundário (sociedade) nos primeiros anos do seu desenvolvimento programático. Ora, sabemos que todo computador só funciona normalmente se for coordenado por um programa básico que o faz funcionar (Sistema Operacional) e sob o qual estão sujeitos todos os outros programas existentes. Qualquer “bug” (defeito) existente no sistema operacional provoca uma instabilidade em todo o sistema “travando” ou provocando erros no funcionamento de todos os outros programas. De forma semelhante funciona o psiquismo (sistema operacional do cérebro). Como o psiquismo individual, desde o inicio, sofre intensa e contínua influencia do grupo familiar (programas básicos) e do grupo social, ficará fortemente impregnado pela qualidade dos “programas” que aprendeu.

O conceito bastante comentado de Inteligência Emocional ou Quociente Emocional (QE), na verdade, se refere a essa qualidade ou estabilidade do psiquismo que facilita o seu funcionamento, permitindo melhor desempenho e maior rendimento nas atividades do indivíduo.

Os conceitos de homo e heterossintonia são concepções abstratas que ajudam a compreender a origem e o desenvolvimento dos comportamentos ativos e reativos. A expressão “programas básicos” significa o tratamento e a formação que o indivíduo recebe dentro de sua família. A “programação anômala” se refere às distorções de tratamento e formação que o indivíduo experimenta no ambiente familiar e que se continua pelo meio social.

Nos casos onde os sentimentos, princípios e valores não podem expressar-se livremente, do jeito como se originaram no psiquismo, camuflamos, reagimos ou reprimimos essas cargas de energia (sinais eletroquímicos), o que resulta em acúmulo interno de tensões; grande parte da energia da emoção é retida no gesto, ato ou palavra. O resultado é: instabilidade mental, intranqüilidade, mal estar. Vamos representar esse tipo de mediação por dois conceitos: o mimetismo psicossocial e a sinalização.



Mimetismo psicossocial



É o conjunto de distorções (mentira, chantagem, fraude, hipocrisia, dissimulação, etc.) com as quais o homem civilizado contaminou suas relações afetivas, seu princípios e valores na convivência mútua. São esses fatores as raízes do comportamento reativo, isto é, de todas as alterações do comportamento que se constituem nos maiores problemas para nós e para a convivência. Quando falamos em mimetismo ou camuflagem estamos nos referindo ao hábito de esconder ou reter pensamentos sentimentos ou emoções. Esse hábito faz com que os conteúdos emocionais não se manifestem naturalmente pela fala e pelo gesto. A fala e o comportamento passam a usar códigos reativos para expressar esses conteúdos.

Ora, a forma que o organismo utiliza para se livrar dos resíduos tóxicos do corpo, isto é, das fezes, da urina e do suor, é expulsá-los, colocá-los para fora. Com o psiquismo ocorre coisa semelhante: ele precisa livrar-se do excesso de tensões emocionais, ou seja, do acúmulo de cargas tensionais retidas no dia a dia, que prejudicam o seu equilíbrio e funcionamento normal. Então, expressar ou manifestar essas emoções através de palavras e gestos é como livrar-se do excesso. Reprimi-las significa aumentar essa tensão e acumular “núcleos reativos de insatisfação e irritação”. Camuflar e reter sentimentos, princípios e valores é o mesmo que facilitar o acúmulo de tensões e ficar “estressado”.



Sinalização



Vivemos mergulhados no mundo das nossas representações mentais, dos nossos desejos e impulsos. Quando nos sentimos felizes vemos o mundo e as pessoas felizes; quando estamos tristes, o mundo e as pessoas parecem estar igualmente mais tristes. As linguagens em código usadas pelo psiquismo são complexas e infinitas porque temos as capacidades de criar, intuir, interpretar, raciocinar, associar diferentes idéias, deduzir, e tantas outras habilidades que ainda desconhecemos.

Quando essa linguagem em código sai da profundidade do psiquismo e passa a aparecer no comportamento é chamada de sinalização de relação (depressão, ansiedade, isolamento). Como se fosse uma forma de sinalizar para os outros o que está nos incomodando por dentro. Quando essa linguagem em código sai da profundidade do psiquismo e passa para o corpo é chamada de sinalização física (somatismo). Como se fosse uma forma de sinalizar através do corpo o que está nos incomodando por dentro. Quando essa linguagem em código sai da profundidade do psiquismo e passa para o ambiente é chamada de sinalização de deslocamento (agressões ao patrimônio, aos animais e ao ambiente). Como se fosse uma forma de deslocar para objetos, animais e ambiente o que está nos incomodando por dentro. De um modo geral chamaremos a todas essas formas de mediação da estabilidade mental, de sinalizações.

Se o cérebro permanecesse ligado continuamente acabaria por esgotar-se e a mente se desestabilizaria. Assim como um televisor que, ao ser desligado, mantém seu aquecimento através de uma pequena lâmpada vermelha acesa para manter o circuito aquecido e retornar as imagens rapidamente ao ser religado, o sono e outros fenômenos que conhecemos são recursos importantes para nos manter física e mentalmente funcionando em regime de economia por ciclos ou períodos de maior ou menor atividade.

Há várias formas de escapar da realidade quando esta se mostra insuportável. Vejamos algumas dessas formas:



Fugas provisórias



Em ocasiões de forte injúria cerebral ou choques emocionais (traumatismos cranianos, traumas psicológicos, etc), a mente é desativada temporariamente e desmaiamos. Isso nos ajuda a proteger a configuração mental para restaurá-la, mais tarde, em condições favoráveis. Além do sono, forma conhecida de reabilitação física e mental, as fantasias e as pequenas “distrações” do dia-a-dia são alternativas de recomposição da mente.

A conduta tóxica, comportamento reativo através do qual é possível, mesmo transitoriamente, se expressar e “cair fora” do caos social é possibilitada pela introdução excessiva de substâncias tóxicas no organismo. É apenas uma das formas de fugir dos vínculos sociais insuportáveis. Enfim, as necessidades de incorporar ao pessoal o que o social não supre. O prazer de viver com os outros tem sido substituído pelo prazer de fazer, de ganhar, de colecionar, de falar, de contar, de pensar e de mandar. Estamos continuamente desenvolvendo nossa necessidade tóxica de adquirir objetos, usufruir comodidades, perseguir ideais, consumir alimentos, remédios e drogas. A conduta tóxica está muito mais representada pelo consumo abusivo e desritualizado do que pela qualidade ou natureza química da substância ou da atividade individual.

Outra forma de fuga conhecida se dá através do misticismo alienante (fanatismo). Essa forma discriminatória com roupagem pseudoreligiosa divide os indivíduos em dois grupos separados: os pecadores e os “candidatos a santo”. As condições, muitas vezes, cruéis da realidade social desperta um universo místico artificial na mente, que induz às fantasias de “salvação e redenção da alma”, produzindo, como nas drogas, um bem estar efêmero e completamente desvinculado da realidade circundante. Talvez seja a razão que explique a disseminação assombrosa dos diferentes tipos de agremiações religiosas e seitas na atualidade que, além do espírito, prometem também recuperar o êxito nos negócios, no amor, na projeção social e reproduzir todos os milagres possíveis da divagação mental de alguns espertos.

A formação reativa é uma crise de expressividade. Uma conversão das energias tensionais acumuladas que precisam encontrar um objetivo expressivo para se consolidar no plano real. Um desvio provisório das tensões reprimidas que, por diferentes razões das normas de convivência não encontram uma saída satisfatória. As chamadas síndromes conversivas (pitiatismo) são o represamento da liberdade de expressão da mente, que acaba por se derramar pelo corpo e pelos comportamentos exóticos. Uma ambigüidade mental generalizada.

Psicose, neurose e irritabilidade ou nervosismo são formas de conceituar os processos reativos da mente segundo diferentes graus de intensidade reativa. Quem orienta para esse acúmulo gradual das cargas reativas são as sinalizações, formas codificadas de manifestação. Não é possível atingir níveis elevados de dissociação mental sem passar pelos processos de sinalização; talvez as formas codificadas sob as quais elas se apresentam, dificultem nossa percepção. A codificação da expressividade é comum nos estados psicóticos, e mais comuns ainda nas nossas relações diárias.

O processamento mental parece estar sujeito a ajustes e reajustes freqüentes para se adaptar às mudanças que ocorrem a cada momento. São como os “upgrades” (atualizações) dos programas de computador que funcionam melhor quando rodam em versões mais recentes. Somos diferentes das máquinas mas também apresentamos “bugs” (falhas). Vivemos deslizando entre a razão e a ilusão e somos um pouco de tudo. Como o dito popular: “De poeta, de médico e de louco todos nós temos um pouco”.

Diagnóstico e natureza causal



Diagnosticar em Medicina é sinônimo de identificar a(s) causa(s). Fatores causais possuem natureza diversa. Quando apenas um fator simples determina a manifestação corporal (sinais, sintomas) e constitui um quadro clínico, como por exemplo, na tuberculose, essa identificação torna-se fácil. Fácil porque já conhecemos o agente etiológico e sua natureza física e biológica. Nesse caso compreendemos que as reações de defesa do organismo se organizam para eliminar o elemento estranho ao corpo. As reações de defesa orgânica a fatores físicos e biológicos (imunoreação) são bem conhecidas e de interpretação relativamente fácil.

Quando, porém, atua um conjunto de fatores de naturezas diferentes (físicas e mentais), a expressão dessas alterações orgânicas se complica e somos obrigados a avaliar o grau de influência que cada fator possa estar determinando no quadro geral da expressão manifestada. Nos casos em que essa etiologia é francamente virtual (mental), saímos do campo objetivo dos fenômenos orgânicos de defesa e passamos para uma esfera de natureza subjetiva. A complexa tarefa de determinar esses fatores causais passa a não mais contar com as facilidades usuais do raciocínio diagnóstico objetivo, facilitado pelos métodos complementares e pelos equipamentos desenvolvidos pela alta tecnologia. Entramos, então, no mundo virtual das crenças, hipóteses, modelos, ideologias, isto é, no plano das interpretações, das suposições conduzidas pela imaginação. Como organizar e classificar dados virtuais? Como utilizar metodologia científica precisa e medir a importância dos fatores causais?

Essa parece ser uma questão das mais difíceis com as quais nos defrontamos. Se cada indivíduo possui uma configuração mental personalizada, aprendizagens e interesses diferenciados e linguagem emocional própria, como organizar os dados para avaliar os componentes que influenciam o resultado final da expressão manifestada? Se, ainda, sabemos que essa manifestação pode ser produto de cargas reativas que se expressam simbolicamente em códigos e que esses códigos provêm de um plano inconsciente não percebido pelo próprio indivíduo, como ficamos? Eu acho que... Parece que... É possível que... Essas são as respostas que temos atualmente, meras hipóteses!

As únicas razões aceitáveis para organizar um sistema de classificação das alterações do comportamento, ainda chamadas de “doenças” mentais e neuroses, podem estar presas a duas necessidades práticas:

• Facilitar a manipulação burocrática dessas alterações, sob termos padronizados, no exercício profissional diário.
• Facilitar a ordenação dessas manifestações sob conceitos já conhecidos e copiados das doenças físicas.

Na segunda hipótese, significa negar sua natureza virtual, tratando-a como se fora de natureza física. Ora, seria o mesmo que admitir a possibilidade de restaurar um programa de computador que apresenta falhas, utilizando chaves de fenda, parafusos e outras ferramentas.

Já dissemos que o comportamento reativo dissociativo (esquizofrenia) ainda é considerado como doença. A proposição que ainda perdura é dividi-la em formas de manifestação. Assim teríamos a esquizofrenia nas formas:

• Hebefrênica – predomínio de desorganização do pensamento e do comportamento;
• Catatônica – predomínio de sintomas motores, que vão de uma agitação intensa até a completa falta de movimento.
• Paranóide - predomínio de alterações do pensamento, com a presença marcante de delírios;
• Indiferenciada – com manifestação mista das anteriores e
• Residual – sintomas presentes, porém não de forma intensa, após período de crise ou crises das anteriores.

Se olharmos com cuidado veremos que essa diferenciação em formas, se restringe apenas ao predomínio da manifestação de alguns elementos presentes na mente sobre outros, na ocasião da observação. A forma indiferenciada fala da “manifestação mista das anteriores”, isto é, que elas podem alternar-se em períodos de tempo indeterminados. A residual nos informa que cargas reativas que não foram resolvidas podem aparecer com intensidade mais fraca fora dos períodos de crise. O que isso nos ajuda na prática e o que podemos utilizar dessas informações? Quais os fatores causais envolvidos que determinam esse tipo de dissociação mental? Como evoluem, através de que mecanismos percebemos a sua origem e quais as etapas que percorrem até explodirem em crises? Como no caso da febre, que nos sinaliza a possibilidade de uma provável infecção, quais os sinais que indicam sua progressão e seus fatores predisponentes?

Enquanto permanecermos atrelados a conceitos como “doença” mental que pressupõe mecanismos da mesma natureza etiológica das doenças físicas, estaremos fazendo as mesmas perguntas sem respostas. O cérebro é um órgão físico que atende a duas naturezas diferentes. O mental é um plano não-físico e deve funcionar sob parâmetros próprios de configuração. Se um dia conseguirmos compreender melhor as sutilezas desse funcionamento, estaremos de frente para um novo dilema ético: Como reconfigurar uma mente facilitando essa restauração, conduzida e determinada pelo próprio indivíduo, sem interferências de interesses estranhos aos sentimentos, princípios e valores do próprio dono?

Ainda não sabemos explicar convenientemente porque, na construção e interação dos organismos vivos, a natureza lançou mão de mecanismos que se utilizam desde os diferentes tipos de proteínas, passando pelos processos bioquímicos mais diversificados e indo até “comandos” imateriais de natureza estimuladora como a saudade, o ódio e a generosidade. Mas, se assim foi feito, é porque assim pode funcionar até que novas mudanças sejam necessárias.

A proposição de conceitos como comportamento reativo, sinalização, sintonia e outros, é apenas uma forma de oposição aos termos atuais, mais prepotentes, que dão a sensação de que o conhecimento humano nessa área já está bastante avançado. Ademais, quando formulamos um diagnóstico de “doença mental” podemos ter a sensação de que chegamos ao ponto final da caminhada. O doente só precisa acreditar em nós e seguir a prescrição. Na verdade não temos condições de informar para ele ou para a família, o que realmente aconteceu em sua mente, pois a nossa, ainda não domina bem esses mistérios.

Mesmo os defensores das teorias medicamentosas de restauração das alterações da mente, sabem que as medicações utilizadas para os estados nervosos e mentais apenas auxiliam, no sentido de estabilizar a fisiologia do psiquismo. Não curam porque não conseguem atuar sobre as causas geradoras - extra-físicas e extra-químicas do mundo mental - que são as emoções, a aprendizagem, os sentimentos, os princípios , os valores, etc. Esses atributos são imateriais e não são atingidos nem se combinam com moléculas de substâncias químicas, como é o caso dos remédios. Não se modificam porque derivam da experiência afetiva individual e são armazenados no cérebro (de forma semelhante como são armazenados os arquivos de “softwares” num computador) não em forma de moléculas, mas em forma de dados, ainda pouco compreendidos por nós. Nossas experiências subjetivas são como arquivos complexos guardados em nossa memória em forma de energia.

Os medicamentos psiquiátricos, tranqüilizantes, ansiolíticos e antidepressivos, quando empregados por tempo prolongado, visando a cura das alterações do comportamento, não só impedem o funcionamento normal da mente, como rotulam e fazem com que o usuário acredite que é mesmo um doente; sua família também acredita e passa a discriminá-lo tratando-o com dó, vergonha ou irritação. Freqüentemente é escondido ou internado porque sua presença torna-se incômoda e pode representar “um defeito de família”, publicamente visível e negado, criticado e repudiado pela maioria das pessoas de casa e da rua. Se para as alterações do corpo escolhemos o termo “doença” - que dá idéia de lesão ou disfunção física - para as alterações do comportamento esse termo não se ajusta e torna-se inadequado.

Todos sabemos que a formulação dos diagnósticos psiquiátricos, psicológicos ou psicanalíticos depende da interpretação do observador, das suas intenções e das ligações que possa ter com interesses individuais ou de grupos. Quando se torna necessário para concretizar perseguições políticas, ou para firmar a ininputabilidade de criminosos importantes ele se reveste dos mesmos fundamentos precários existentes na clínica diária.

Quando o conhecimento é utilizado para classificar e descrever uma lista de estados alterados do corpo ou da mente (diagnóstico, síndrome, quadro clínico, classificação internacional de doenças), precisamos delimitar com rigor o “porquê”, o “onde” e o “como” esses fenômenos acontecem, abordagens e critérios, assim como a natureza do fenômeno investigado. Por exemplo, doenças físicas e alterações da mente podem ter origens completamente distintas ou podem ser o resultado mesclado de ambas as situações. Os fatores causais podem estar situados, na sua origem, em plano constitucional individual (genético), em experiência familiar, cultural, ou mesmo em criações produzidas pela imaginação criativa de cada indivíduo. Com essas considerações, podemos admitir que as manifestações da expressividade humana necessitem de uma compreensão que esteja apoiada no maior número possível de áreas do conhecimento que possuimos atualmente. Sendo assim, a medicina, a antropologia, a sociologia e todas as ciências conhecidas, teriam "função de ferramenta" facilitadora para uma melhor compreensão e aplicação das técnicas a serem empregadas em cada caso. Talvez, por essa razão, o emprego compartimentalizado do conhecimento científico tenha produzido lacunas na investigação. Casos como o das crianças e adolescentes que praticam crimes hediondos ou de pessoas de alta credibilidade que apresentam comportamentos incompatíveis com sua estória de vida, continuem a nos desafiar.

Da mesma forma, é uma temeridade depositar grande volume de poder em líderes políticos, religiosos ou militares. É preciso não esquecer que as funções mentais dos indivíduos são frágeis e instáveis. Uma simples mudança de status social ou uma obstrução de um vaso sanguíneo são suficientes para alterar o comportamento individual.


Esquizofrenia nas sociedades naturais (?)



Dissemos que um dos estímulos motivadores do comportamento, dentro de um grupo humano, é conhecido como etnocentrismo. Esse estímulo possui função integradora no grupo, uma espécie de auto-referência grupal, uma forma de identificar cada indivíduo como parte do todo; uma força que imprime no cérebro e que diz a esse indivíduo que o seu grupo é o melhor grupo entre todos os outros, e que, para sobreviver como grupo e manter a coesão grupal, precisa concentrar-se em si mesmo (autonomia) e ter vida própria. O etnocentrismo cria no indivíduo uma tendência de sentir e pensar sua cultura como referencial absoluto para todas as outras culturas. Essa tendência sustenta uma “verdade cultural” aceita em consenso: “o grupo é o indivíduo e cada indivíduo é o grupo” e “os outros não pertencem ao nosso grupo”, portanto, são estranhos a nós.

No plano mental, e em situações antinaturais, essa força estimuladora pode reverter e transformar-se num sentimento de desconfiança de caráter patológico (cisão) que não aceita o princípio da diversidade grupal e que passa a considerá-lo apenas como elemento oponente (persecutório) ao seu bem-estar individual. Essa estranha concepção se instala não apenas no universo mental, mas se reflete para elementos da realidade circunjacente; isto é, para humanos e não-humanos do ambiente (objetos, animais) modificando provisoriamente os conceitos preexistentes no acervo mental. Quando a reversão é pouco intensa, pode manter um certo grau de aceitabilidade, uma espécie de relação não confiável (comportamento esquizóide).

Esse comportamento parece ser universal e é percebido em tribos indígenas e nas relações intertribais. A direção que esse fenômeno toma nessas sociedades projeta-se com freqüência para a exterioridade grupal e mental. As explicações que essas sociedades naturais dão a esse comportamento estão contidas na extensão e conteúdo de sua cultura. Grupos sem contato freqüente com outros, de características diferentes, os vêem como “inimigos” em potencial. Tempestades, enchentes ou cataclismas naturais são entendidas como respostas enfurecidas de entidades espirituais da floresta que atacam e perseguem os humanos – através dos elementos da natureza - por alguma ofensa que tenham praticado contra a tradição do grupo. Esses comportamentos esquizóides, assim dirigidos, vêem o “anormal” e o “inimigo” no espaço exterior à configuração grupal, remetendo-o para fora da esfera mental dos indivíduos, uma espécie de proteção à organização geral (indivíduo/grupo).

Nesses grupos o indivíduo é protegido por explicações mitológicas ou mágico-místicas, como se o grupo não permitisse que qualquer dos seus membros fosse atingido por intenso sentimento de culpa ou que se sentisse sozinho numa situação anormal. Qualquer movimento de desvio do comportamento individual é tomado pelo grupo como uma questão grupal. Assim, acreditam que um ser da exterioridade (entidade espiritual) não está atacando um indivíduo, mas que almeja atingir o grupo através daquele indivíduo. Assim são sentidas as doenças físicas e mentais – uma forma de atingir o grupo através do indivíduo. Essa crença e esse modo de pensar e lidar com o individual, nos faz acreditar que a integração mental de uma sociedade natural a leva a construir seu modelo cultural deslocando o bem-estar dos indivíduos para o centro dos interesses gerais. Ou seja, tradição, hábitos e costumes são como manifestações exteriorizadas do mundo mental do grupo, isto é, de um modelo mental da cultura em benefício geral.

Ora, qual indivíduo desejaria destruir um sistema que o protege, mesmo nas condições em que se comporta reativamente para descarregar suas tensões?

É curioso notar que entre certos grupos indígenas as concepções de saúde e doença possuem sentido radicalmente oposto ao que conhecemos nas sociedades ocidentais. Nesses grupos Saúde significa uma condição padrão da Vida, de normalidade estável, enquanto Doença é considerada um desvio desse padrão normal, uma condição anômala da Vida, um acidente passageiro. A Vida é construída sob o parâmetro da Saúde e os desvios são acidentes efêmeros. Em outras palavras: Enquanto nossas atenções estão voltadas para a doença, eles a tratam como mero acidente ocasional e desfrutam a saúde como bem instituído. Será por outra razão que eles valorizam as pessoas enquanto estão vivas, enquanto nós só as valorizamos depois que morrem?


Esquizofrenia nas sociedades civilizadas



Certas pessoas agem de forma análoga aos grupos naturais da selva: defendem suas “verdades” com tamanha convicção, que podem sentir as verdades dos outros como formas de perseguição ou retaliação à sua integridade intelectual, à sua individualidade. Concordam teoricamente com o princípio da diversidade de opiniões e da liberdade de expressão, mas agem reativamente quando suas “verdades” são questionadas.

Nas sociedades que perderam seu eixo cultural, o sentido mental de grupo encontra-se enfraquecido ou desintegrado e a projeção dos elementos patológicos da cisão não encontram sentido para extravasar em direção à exterioridade. Voltam-se para o interior da mente individual produzindo graus diferentes de dissociação nos centros responsáveis pela unidade integradora da mente. Se observarmos com atenção a paisagem social civilizada, podemos acreditar que ela reflete certamente essa cisão na convivência entre indivíduos, e na sua forma de organizar-se (ou desorganizar-se?). Os comportamentos reativos podem ser, portanto, de tipo esquizóide, camuflado, codificado; que não podem se expressar livremente como são gerado na mente, como se sua exposição ao sol da realidade pudesse produzir algum risco ou perigo imaginário.


Dissociação


Se voltarmos no tempo e extrairmos dos papiros e dos textos bíblicos os ensinamentos propostos naquela época para restaurar a harmonia entre os homens, poderemos formular algumas questões interessantes:

• Por que essas civilizações desapareceram, mas ainda permanecem os costumes violentos e as desigualdades sociais como: prostituição, corrupção, pobreza e autoritarismo?
• Por que o desenvolvimento tecnológico e científico, assim como as religiões não conseguiram amenizar esses desvios nos costumes após tantos milênios?
• Por que as alterações de comportamento atingem atualmente níveis alarmantes de violência, englobando faixas etárias cada vez menores, como crianças e adolescentes que matam e cometem suicídios?

Responder essas questões seria a mesma coisa que perguntar se mente e sociedade não são as faces de uma mesma moeda. Onde o cérebro estaria representando apenas a matéria intermediária entre esses dois espaços virtuais. Essa correspondência parece ser tão íntima que, ás vezes, o próprio cérebro não a suporta e sinaliza para a estafa.

Apesar do longo tempo de experiência de convívio social, o homem demonstra ainda não ter encontrado fórmulas adequadas de organizar-se em sociedade. A mente humana parece ter sido arquitetada para cumprir duas funções importantes: a sobrevivência e a convivência. A primeira, garantida por um mecanismo automatizado (instintual), tem conseguido alcançar esse objetivo até agora. A segunda, gerenciada pelo livre arbítrio, dá mostras de ter se emaranhado por caminhos incertos nas tentativas civilizadas de organização. Ainda há tempo para repensar o conceito de civilização.




CAPÍTULO VIII

Problemas civilizados da atualidade


Atualmente estamos vivendo num mundo diferente. Tudo pode ser falso ou verdadeiro, dependendo do lugar onde nos encontremos, das pessoas com as quais convivemos ou do grau de dissociação da nossa mente. A maioria das condutas - nas relações - avança cada vez mais para um plano inseguro e dissociado (esquizóide). Tal sensação de incerteza dificulta saber onde existe verdade ou mentira nas manifestações humanas. Padrões lógicos de “falso” e “verdadeiro” não existem somente para orientar respostas aos comandos, nos computadores. A mente necessita também desses padrões bem definidos para se manter estável. A violência pode ser um dos resultados dessa instabilidade reinante, se admitirmos que nossa sobrevivência depende de um relativo grau de certeza.

A mente tensionada diminui a capacidade de interpretar e responder adequadamente aos estímulos, ao mesmo tempo em que pode se tornar desproporcionalmente reativa e resultar em comportamento destrutivo, gerando atos violentos. Já vimos que a destrutividade primária que possuímos facilita a autodefesa em momentos de grande perigo, onde a ameaça à vida da espécie necessita de rapidez e definição de resposta. Daí poderíamos inferir que, num ambiente de incerteza e hostilidade, nossas respostas poderiam estar propensas a uma maior freqüência de erros, resultando em violência. Esperar respostas adequadas, num ambiente onde as solicitações são inúmeras e imprecisas, seria pura ingenuidade.


Mitologia, mitomania e poder



A mente humana sempre perguntou "Por quê?" Essa tem sido a pergunta-base para a compreensão do mundo desde tempos muito remotos. O mito é uma alternativa de resposta a essa pergunta no espaço mental que trata dos seres sagrados, divinos ou semidivinos, num tempo em que o mundo era diferente, e diz como, através da ati¬vidade destes seres, as coisas vieram a ser como são. Ele mostra aos humanos aquilo que deve ser feito para manter a Vida em harmonia e as origens das coisas que existem, com simbologia inerente ao grupo que o cria. É uma forma simbólica de estruturar uma narrativa, onde a religiosidade, a magia e o cotidiano se misturam para explicar as origens e os mistérios da tradição. Uma forma de organizar e fundamentar os costumes, as normas e crenças; organizar os indivíduos para as finalidades sociais, para a solidariedade e para a unidade grupal. Um instrumento mágico-ético-moral da esfera mental.

A religiosidade, magia e realidade se fundem num mito e num ritual e são expressões de solidariedade social e crença coletiva. Os seres humanos so¬zinhos nada são. Eles alcançam signi¬ficação e importância somente como membros de um grupo social. Os rituais sagrados e as crenças simbolizam a mente extratemporal da sociedade. Da experiên¬cia ritual surge o contato entre o sagrado e o profano, que alimenta a crença e produz a realidade.

A ênfase religiosa no sobrenatural leva à subordinação dos homens aos deuses e ao poder das pessoas que representam o culto o feiticeiro e o sacerdote. A religião é muito mais centralizada do que a magia a qual é essencialmente mais individua¬lizada. Embora as religiões organizadas sempre usem um pouco de magia nos seus rituais, as igrejas são visceralmente contrárias à magia, uma vez que a atitude de magia é incompa¬tível com a atitude religiosa de submissão.

A religião e a magia são fontes de poder; são meios de influenciar ou controlar o poder sobrenatural, o maior de todos os poderes. A autoridade representativa de que são investidos os executores do sobrenatural (sacerdotes, magos, feiticeiros) é necessária para a evolução da cultura em certos povos. Essa é uma razão especial para manter o poder religioso nas mãos desses representantes nas sociedades equilibradas. Porque, nessas sociedades, o poder é apenas de representação, não de poder real.

Dissemos antes que os estímulos motivadores dos comportamentos numa Cultura são inúmeros, porém o Eixo Cultural poderia ser compreendido como uma fusão de consensos dos membros de um grupo, algo que poderíamos chamar de Tradição do Grupo. Essa tradição estaria representando a síntese de tudo aquilo que esse grupo acredita; sua alma, seus costumes, sua própria “identidade em grupo”. Estaríamos diante daquilo que resultaria num Modelo Cultural. Os mitos, reunidos, são o contexto histórico do modelo cultural que explica a tradição.

Nas comunidades naturais o poder emana da Lei-Tradição (ancestralidade, espiritualidade) e é evocada pelo líder, com freqüência, para ser aprendida pelo grupo, tornando-se consensual. Mas o líder não possui “poder de mando” porque os mitos e seus conteúdos não pertencem aos vivos. O grupo concede aos líderes (chefe, pajé) o “prestígio de representação” e lhes nega a “função de poder” para evitar o “abuso de poder” e o aparecimento da violência. Esse é o princípio da liberdade comunitária: tornar o poder impessoal (tradição) para excluir a vontade pessoal (caráter infrator, coerção, violência).

Os povos das sociedades naturais “descobriram” (intuíram) que o indivíduo é frágil e o grupo é forte. Que não é dado, aos seres humanos, o privilégio de conduzir o destino do conjunto social. “O homem nunca estará preparado e seguro para lidar com grandes doses de poder sobre os demais”, devem ter pensado. Engendraram o poder tradicional para organizar a vida social e delegaram aos membros mais confiáveis, apenas “o prestígio de representação”. Esse “prestígio” pode se esgotar e o lider ser esquecido se, ele próprio, se afastar dos preceitos tradicionais. Voltará a ser um cidadão comum.

Nessas condições, admite-se que os conteúdos psíquicos dos indivíduos dentro de uma sociedade natural sejam guiados por normas oriundas da crença tradicional, ou seja, desprovidas de interferências individuais, propiciando a expressão de comportamentos ativos (construtivos). A utilização generalizada de sentimentos, princípios e valores de caráter comum (solidariedade, generosidade, ética grupal), poderia explicar esse conteúdo construtivo da conduta e da personalidade dos indivíduos nessas comunidades através do conjunto representado por seu modelo cultural, onde os mitos atuam como eixo mental do grupo, ordenando os comportamentos. Portanto, quem manda nos indivíduos são suas crenças e não seus chefes. Cada um se dirige por si (por seu bom-senso) e todos estão sujeitos à tradição. Essas são as sociedades que não necessitam do Estado para sobreviver e conviver. São sociedades sem-Estado.

Mitomania quer dizer: Tendência para a mentira, à fabulação e a simulação. Inventar o que não existe, com diferentes finalidades, sem acreditar nelas. Nos casos patológicos o mitomaníaco (mentiroso) não mais consegue separar verdade de mentira.

Dissemos que agrupamento é uma forma de associação humana que enfraqueceu ou perdeu sua identidade cultural, suas tradições (hábitos e costumes) e substituiu o “consenso grupal” por formas de organização social não-integradas e estimuladas pela competição entre seus membros. O agrupamento humano, forma de associação sem modelo cultural, surgiu com o advento da Civilização, e tem provocado sensíveis alterações na convivência. A forma organizacional dessas associações desestruturou as relações humanas de grupo coletivo, criando aspirações individuais de conteúdo materialista. Os mitos, que representam o eixo mental do grupo natural, no agrupamento civilizado, passaram a não mais existir como eixo ordenador dos comportamentos. Portanto, quem manda nos indivíduos são suas instituições e seus chefes. O Estado, as leis, as religiões e as empresas passaram a controlar o imaginário individual, direcionando-o para a posição de consumo, representada pelos bens materiais; para a busca de “salvação” da alma, dirigida pela religião; pela ascensão de “status” e poder, representada pela fama e pelo controle político-institucional. Essas talvez sejam maneiras de compensar e de mitigar a insegurança individual, em pessoas que não a encontram mais sob forma grupal estruturada.

Diferentes conceitos humanos modificados pelo processo civilizatório dinamitaram a ideologia mitológica e pulverizaram a Tradição. Substituímos essas poderosas forças de coesão social por outros conceitos (Constituição, Justiça, Seguridade, Propriedade, etc), nos quais não acreditamos nem respeitamos. Eles não são verdadeiros para nós – embora os desejemos - porque não correspondem à realidade que assistimos. Eles se originam do artificialismo institucional dirigido pela fragilidade do caráter humano. A “ideologia mitológica” e a “tradição” são representações internas da mente humana. Nas sociedades naturais estão fundamentadas pela crença absoluta na “verdade mítica”, orientadas para a direção sensata do bem estar de todos. A verdade mítica prescinde da existência externa de mecanismos institucionais porque engloba e sintetiza direitos e deveres dos individuos na relação social, expressando-os através de linguagem simplificada (parábola = mito).

Há quem dissocie as parábolas bíblicas dos mitos indígenas, como se fossem linguagens distintas. Há também quem dissocie as palavras de Jesus e dos profetas, das palavras dos líderes indígenas, que cumprindo a tradição são obrigados a exercitar sua preleção diária para o grupo. A Palavra é detentora de grande fascínio e poder entre humanos. Não serve apenas para expressar idéias e sentimentos - muito mais do que isso - possui características indutoras do comportamento, ainda pouco compreendidas por nós. Isso fica claro quando assistimos massas humanas humildes “hipnotizadas” pelas palavras de falsos líderes religiosos, em busca de riqueza e salvação. Os fanatizados se suicidam ou matam.

Nas sociedades naturais, a Palavra-Lei-Tradição (palavras proferidas pelo cacique todo dia no centro da aldeia e pelo pajé nos rituais) é diferente da palavra comum usada por todos. Da mesma forma e por analogia, entre os brancos, o valor da palavra, se torna mais perceptível nas frases: “Homem de palavra”, “Palavra de Deus”, “Para um bom entendedor meia palavra basta”, etc.

Nas sociedades naturais, só o chefe indígena (para lembrar a tradição terrena) e o pajé (para lembrar a tradição espiritual) são detentores do prestígio e poder de uso da Palavra-Lei-Tradição; ao mesmo tempo lhes é negado (e a todos) o uso da Palavra-Ordem-Obediência. O mistério, exótico e apenas aparente, desses costumes nos mostra a sabedoria contida no seu cerne. No primeiro caso, a Palavra-Lei-Tradição representando a coesão, união e harmonia, isto é, a ausência de poder de uns sobre os outros no grupo; em última análise, a ausência da violência, da marginalidade e da miséria pela inexistência de um poder centralizado e coercitivo. No segundo caso, a negação do uso da Palavra-Ordem-Obediência, para não permitir o uso do poder, da violência e da diferença social e antinatural das classes sociais.

O “prestígio de representação” social entre os índios (chefe, pajé ou líder) proíbe o uso do poder na competência (de dar ordens), assegurando assim a liberdade do grupo. A palavra comum é de todos, mas assume conotação sagrada e de prestígio quando empregada por representantes, que apenas podem invocá-la para lembrar e fazer cumprir a Tradição. A Autoridade é a Tradição. Seus líderes são apenas representantes transitórios dessa autoridade tradicional, mas não serão respeitados se derem ordens. A verdadeira Autoridade para êles é filha do “respeito ao outro”, que é filho da Admiração; da verdadeira admiração por quem não precisa usar o poder e a violência da coerção. O bom caráter da Autoridade constrói o Respeito, que alimenta a admiração, que admira o bom caráter (prestígio) da Autoridade. É preciso dizer que o autoritarismo (autoridade violenta e punitiva) destrói a admiração e suprime a autoridade. Todo déspota, pela falta de autoridade que percebe em si mesmo, realimenta a opressão e recebe como resposta, mais cedo ou mais tarde, a reação infratora dos oprimidos.

A mitomania, entre nós, parece ser uma anomalia resultante do que o processo civilizatório criou na mente; uma busca de equilíbrio mental, na desordem social dos dias atuais, que continua camuflando a sintonia real na convivência.

Marketing: um conceito controverso


Riqueza, poder e prestígio costumam associar-se à mentira, hipocrisia e violência. Onde o “ter” e o “consumir” forem estímulos propulsores de comportamento da maioria, certamente teremos instalado o conflito e a reatividade. As expressões “cada um por si e Deus por todos”, “salve-se quem puder...” e “pouca farinha... meu pirão primeiro” definem com cristalino apuro as relações circulantes em nossa sociedade “avançada”. Quando a palavra é acrescida de outros recursos sofisticados como imagem, animação, efeitos especiais e som, a mente se anestesia, diminuindo o juízo crítico.

O mundo virtual criado pelas mídias pode estimular a crença em falsos valores e expectativas desejadas, que podem se tornar uma promessa de realidade. Assim é o mundo virtual dos nossos dias, onde as promessas alimentam os sonhos, que realimentam a alienação. Onde o comportamento alienado, quase sempre deságua na decepção, na insatisfação, na incerteza.
Como felinos, preparamos armadilhas com diversas artimanhas e, escondidos atrás das moitas da mentira e da dissimulação, esperamos nossas vítimas para saciarmos nossa fome de riqueza, prestígio e poder. Somos os mais ferozes dos animais. Enquanto os felinos saciam sua fome para sobreviver, nós atacamos de estômago cheio.

Convencimento e mentira são recursos utilizados pela propaganda enganosa para estimular o consumismo; destruindo verdades e construindo falsidades, através de novas palavras e lógicas pseudocientíficas e místicas (sofismas). Nichos lucrativos podem se apresentar sob diferentes formas: planos de saúde, religiões barulhentas, produtos milagrosos, técnicas de ajuda, etc.

Apesar da precariedade da convivência, ainda possuímos a alternativa de convívio comunitário. Vida comunitária é “eixo cultural”, é projeto de vida em grupo, que promove mudanças ativas na configuração do psiquismo. Depende de estímulos que formem base real voltada para o benefício do todo, sem mentiras entre as partes. Não comporta fraude ou dissimulação intermediando o relacionamento.

Os avanços tecnológicos conquistados pelos homens nos últimos tempos, além da grande utilidade, facilitam a comunicação entre as pessoas e remetem para a máquina os trabalhos mais penosos e monótonos. Porém, sua utilização, a intencionalidade do seu uso, mostra que ainda temos muito que aprender para nos tornarmos realmente felizes.

Não é certo que o progresso científico e tecnológico seja o responsável pelo declínio na convivência. Não há relação direta entre essas coisas! Talvez devamos procurar essa relação nos locais mais profundos da nossa consciência. Podemos usar todo o nosso tempo de vida em busca dos sonhos estimulados pelos valores da sociedade em que vivemos. O tempo nos dirá se eles eram reais ou apenas ilusões.


Higidez e cura


Quais os significados de Saúde e Doença para nós? Se tivermos medo de morrer por doença, violência ou acidente é sinal de que valorizamos a Vida. Melhorar a qualidade de vida não significa apenas acumular bens e usufruir privilégios. É muito mais do que isso! Estamos perdendo o costume de partilhar com outros o que temos, seja isso um bem material ou um conhecimento qualquer. Diria mesmo que a verdadeira “doença mental” reside na incapacidade de cada um, em olhar “o outro” como um cidadão, um parceiro, “um igual”; nossos olhos materialistas o focam como objeto, usuário, contribunte, cliente...!
Em 1971 tomei conhecimento do livro de Ivan Illich – A Expropriação da Saúde – obra que trata das questões da saúde e suas estatísticas. Revela, entre outras coisas, que aproximadamente 95% das doenças conhecidas são autocuráveis e que os 5% restantes necessitam de intervenção médica e de medidas preventivas. Por ser um pesquisador sério e conceituado no meio científico o impacto da obra gerou incômodo nos setores que auferem grande lucro, como a indústria farmacêutica e as clínicas e hospitais “caça-níqueis”.

Numa experiência pessoal feita em um hospital geral, usando método duplo-cego, constatei a veracidade de suas afirmações. Do universo de 100 pacientes, acompanhados durante as diferentes intercorrências clínicas, apenas 5% fizeram uso de medicação específica e 10% usaram suplementos vitamínico-minerais acompanhados de dieta substancialmente proteica. Os outros 85% ficaram curados com o uso de placebo (miolo de pão em forma de comprimidos). Essas experiências mostram, como afirmou Ivan Illich, que nossa verdadeira autodefesa reside nos mecanismos existentes no corpo, - o Sistema Imunológico!

A necessidade de cura rápida, a ansiedade que envolve o período de doença, a omissão ou desinformação dos profissionais e a intensa propaganda da indústria de remédios, protege e preserva interesses comerciais que não conseguiriam êxito, se a maioria das pessoas tivesse acesso fácil a verdades simples e baratas como essa. Ninguém morre só porque ficou doente. A doença é muito mais um treinamento - para que as defesas se exercitem – do que uma sentença de morte. O Sistema Imunológico, que é gratuito, foi desenvolvido há milhões de anos, antes mesmo que o homem existisse na Terra. Sua construção parece ter se iniciado a partir dos seres unicelulares e se aperfeiçoado através da seleção natural.

Os sinais e sintomas são apenas sinalizações dos sistemas orgânicos, um alarme no sentido de avisar que uma ou mais funções necessitam reintegrar-se ao padrão exigido de funcionamento e sincronia. Nada mais! A capacidade que o organismo possui para gerenciar essa reintegração fica demonstrada nos milhões de casos onde, por total falta de recursos ou por experiências com placebos, a estabilidade (cura) se instalou. Nem seria necessário acrescentar que, na antiguidade, apesar de os remédios e as técnicas médicas possuírem eficácia precária, mesmo assim, a cura se instalava sem problemas. As doeças que matam e que não possuem alternativa de cura conhecida se situam em torno de 1%!

Em estudos feitos por equipes médicas e por etnólogos interessados, tem-se descoberto o significado dado pelas sociedades naturais aos mesmos conceitos (saúde e doença). Esses conceitos já foram comentados no capitulo VI (Esquizofrenia nas sociedades naturais?).

O que eles não conseguem compreender é o “porquê” precisamos criar termos como “saúde pública” e “saúde privada”. Saúde é “bem comum”; na lógica deles essa separação é inconcebível. Não separam a religiosidade da magia e da ciência porque as sentem de forma integrada à cultura, onde direitos, deveres e valores são tratados no mesmo plano de igualdade. Um pagé não separa o cerimonial mágico, das beberagens de folhas e raízes que administra, pois o “sente” como elemento agregado ao processo de cura (estímulo psicológico).
Metaforicamente podemos comparar nossa sociedade com uma longa escada. Os que estão nos degraus mais altos sentem medo de descer; os de baixo sonham em subir. Ambos sonham em chegar no topo, mas, se perguntarmos o que pretendem fazer quando atingirem o final, provavelmente não saberão responder. Não percebem que essa escada se apóia numa base construída com a argamassa da sua cultura (?), constituída dos seus sentimentos, princípios e valores. A Vida não é uma escada, mas um caminho plano; onde as pessoas podem caminhar calmamente de mãos dadas e conversando. Essa estrada não tem fim. Quando não podemos mais caminhar, nossos filhos e netos continuam a jornada. Caminhamos para frente, não para o alto, posto que, do alto corremos o risco de cair.

Machismo e feminismo

Uma conversa criadora


Deus e Natureza estavam sentados sob uma frondosa árvore. Haviam concluído os últimos retoques da Criação, quando a Natureza falou: - Você acha que está faltando alguma coisa?

Deus: - Acho que sim...Poderemos criar um animal mais evoluído, mais completo...
Natureza: - Como assim...?
Deus: - Um que possua qualidades especiais, talentos, habilidades...Inteligência!
Natureza: - Com que objetivos?
Deus: - Para administrar o que acabamos de criar.
Natureza: - Para isso teríamos que lhe conceder o livre-arbítrio, concorda? Isso não seria perigoso?
Deus: - Não. Ele estaria sujeito às leis gerais que já criamos. Se não conseguir administrar bem se auto-extinguirá, pois estará preso ao conjunto e terá de preservá-lo para sobreviver.
Natureza: - Pensou no nome que dará a esta nova criatura?
Deus: - Pensei em chamá-lo de “ser humano”, o que acha?
Natureza: - Como seria esse “ser humano”?
Deus: - Um ser completo...Pensante! ...Poderíamos criar apenas um. No final de cada ano ele se dividiria em dois, três, quatro...E assim iria aumentando em número...Até ocupar toda a Terra!
Natureza: - Não seria melhor dividi-lo em duas metades?
Deus: - Como assim..?
Natureza: - Faríamos duas metades semelhantes na forma e diferentes no sexo...Assim como fizemos com os outros animais. Desse modo eles poderiam planejar seus descendentes e não teriam qualquer importância pessoal, separadamente.
Deus: - Mas então teriam que ter nomes diferentes...?
Natureza: - Poderíamos chamar a uma metade de homem e à outra de mulher, o que acha?
Deus: - Não seria arriscado competirem entre si?
Natureza: - Não. Eles estariam sujeitos um ao outro para sobreviver, não são apenas metades? E o livre-arbítrio que lhe concedemos? Não teriam que usá-lo com freqüência?
Deus: - É... Você tem razão...Concordo com a idéia!

Ao se despedirem a Natureza falou: - Senhor, quem governará os homens?
Deus: - É... não pensei nisso...! Bem, qualquer um; menos um petista! Eles inventam um céu que não existe!

Deus e Natureza, após essa última decisão, despediram-se e foram embora por caminhos comuns: um para o lado de dentro, e outro para o lado de fora, da consciência humana.


Aprendendo a conviver numa sociedade civilizada



Cultura e ordenação

Uma verdadeira cultura é aquela que engloba os indivíduos num grupo, sob parâmetros estáveis, não permitindo cisão interna. Pela estratégia central do “bem estar comum”, e através de “deslocamento do poder” para esfera inalcançável pelo homem e distante do plano terreno, esse tipo de estrutura promove a liberdade, estimula a identidade e orienta para a coesão entre os membros. Divulga a tolerância e anula a violência. A obediência á tradição em um grupo bem estruturado socialmente é tão forte que não permite a qualquer indivíduo sequer pensar em desviar-se das normas. Leis não são necessárias porque as regras estão inscritas na mente e manifestas no comportamento. Dinheiro também não é, posto que esse tipo de associação prescinde de moeda e não usa o conceito de “mais valia”. Espiritualmente goza do privilégio de escolher no ambiente seus símbolos e entidades sobrenaturais. Não conhece pecado, logo não sente culpa. Economicamente está situado no interior da fonte de seu sustento, necessitando apenas extrair ou cultivar no território, os produtos ali existentes. Não trabalha excessivamente porque não aprendeu a acumular. Elege a Vida como espaço de convívio e respeito mútuo.

Quem lê o parágrafo anterior pode ter a impressão de que estamos falando de uma utopia ou divagando no campo do idealismo. Engana-se. Falamos de pequenas sociedades ainda existentes na atualidade e, na sua maioria, residentes na floresta ou em áreas protegidas ou reservas. Grupos que ainda preservam suas tradições e temem o contato com a civilização. Chama atenção o grau de integração á natureza com que estão habituados e o respeito quase religioso que dispensam ao ambiente.

Esses grupos são alvo de intensa curiosidade por parte de alguns pesquisadores. Tem seus sentimentos, princípios e valores tão diferenciados dos que costumamos vivenciar que, na maioria das vezes, são confundidos e mal interpretados, como de fossem seres exóticos de outro planeta.

Escolhemos essas sociedades como referência para estudo do comportamento por apresentarem características culturais bem definidas e estáveis e também pelo fato de não termos observado qualquer sinal ou sintoma de alteração mental manifesta ou de tensão reativa relevante (“stress”). Durante os anos em que estivemos próximo delas também não houve quaisquer referencias de alterações mentais mencionadas por pessoas que tiveram contato permanente com elas.

Observar essas sociedades é forma excepcional que permite acompanhar a dinâmica grupal e o comportamento individual simultaneamente, pela dimensão reduzida do corpo social. Formas de governo, economia, religião, estrutura familiar, entre outras, fluem na rotina diária com espantosa simplicidade e eficiência. Seu relativo isolamento da sociedade civilizada permitiu que preservassem seus costumes e tradições e nos mostrassem formas alternativas de organização social. Uma organização social sem classes e sem Estado.

Nessa parte do trabalho vamos expor, de forma resumida, hipóteses, conjecturas e interpretações sobre sentimentos, princípios e valores circulantes em alguns grupos visitados. Algumas são observações extraídas de trabalhos etnográficos de autores reconhecidamente sérios, outras são pessoais ou são descritas por pessoas que tiveram prolongado convívio entre elas. A maioria das conclusões, porém, é desprovida de valor científico pelas regras atuais dessa metodologia, dada á carência de informações nessa área e pelo fato de basear-se apenas em observações. Isso, porém, não implica que não possam ser verdadeiras.



Natureza individual e função da cultura



Os indivíduos que compõem as sociedades indígenas, pelo fato de possuírem a mesma natureza humana que os civilizados, estão sujeitos ás mesma condições de fragilidade, portanto são influenciáveis por hábitos e costumes de outras sociedades e sujeitos a desvios comuns. É provável que seus sentimentos, princípios e valores obedeçam ás mesmas regras de funcionamento, como ocorre com todos os seres humanos. Porém, a estrutura cultural a que estão sujeitos parece exercer um papel preventivo e corretivo desses desvios, funcionando como um eixo ordenador desses sentimentos, princípios e valores individuais, orientando-os para a consensualidade grupal. Essa condição facilitaria o convívio harmonioso no grupo pela configuração do que é “normal” na cultura. Se essa hipótese estiver correta estaremos diante de uma resposta razoável que indica a necessidade de um modelo cultural integrado, indispensável para o estabelecimento de uma organização social estável. Supondo-se que cérebro e mente possuam finalidades convergentes para facilitar a vida individual e permitir a integração com o corpo, da mesma forma a cultura também funcione como função ordenadora, que permite a interação e integração convergente entre indivíduos.

Percebemos a qualidade do caráter individual nas idéias e atos de cada indivíduo, através do seu comportamento. Da mesma forma é possível conhecer o caráter ou índole das diferentes sociedades pelas características do comportamento geral dos seus membros e pela lógica dos resultados (problemas, soluções).

Sentimentos, princípios e valores são moldados pela cultura e, embora operando no plano individual, sofrem influência na interação social e são censurados ou estimulados nessa interação. Um modelo cultural integrado não é necessariamente um engessamento, uma homogeneização, uma padronização de comportamentos. É muito mais um espaço extenso e elástico onde as relações acontecem com liberdade até onde os limites do consenso suportem.

Veremos agora algumas diferenças entre sociedades cuja cultura se mantém preservada e outras que sofreram distorções acentuadas produzindo alterações dos sentimentos, princípios e valores nos indivíduos e, conseqüentemente, do seu comportamento, refletidos para o espaço social.



Senso de ridículo



O senso de ridículo parece exercer um importante papel na manutenção da auto-estima individual e no exercício do cumprimento das normas. Evitando o tempo todo ser ridicularizado pelo grupo, o individuo procura obedecer aos costumes e não se afastar dos valores definidos pelos padrões da cultura.

Nas sociedades naturais:
Em vários grupos indígenas ficar exposto ao ridículo pode “arranhar” o papel social do adulto, seja homem ou mulher. Por exemplo, um guerreiro (homem adulto) se orgulha dessa condição por já ter passado pelos ritos de iniciação (ritual de aprovação do grupo) e gozar do prestígio de adulto. Para mantê-lo não deve comportar-se como criança ou adolescente porque isso o faria voltar a uma condição social anterior e sentir-se inferior aos outros adultos. Desvios desse papel seriam notados e comentados, afetando seu auto-respeito. As vantagens, entre outras, seriam: sentir-se aceito, ter mulher, constituir família e mostrar suas habilidades em diferentes áreas. Isto é, destacar-se individualmente.

Nas sociedades civilizadas:
Em muitas sociedades civilizadas o senso de ridículo se alterou por distorções artificialmente criadas e aceitas como “normais”. Ficar nu em público, por exemplo, é não só uma condição “anormal” mas é tida como infração sujeita a punição. A nudez é aceita quando comercializada a alto preço e veiculada através de mídias sob forma de produto e patrocinada por empresas.

A moda é uma criação civilizada que permite rápida rotatividade no modo de vestir, calçar, falar, comportar-se, num período determinado, e comercializada nesse tempo. No momento em que deixar de gerar lucros, torna-se ridículo seu uso. Porém novos produtos são lançados e copiados por pessoas que se imaginam elegantes e necessitam de “status”.
Velhos se comportam como adolescentes, e adultos como crianças. Ficar velho não significa: maior experiência e sabedoria. Geralmente significa perder espaço social, tornar-se ridiculamente ultrapassado e produtivamente inútil.

Muitas pessoas se expõem ao ridículo por puro exibicionismo, para ganhar dinheiro ou para aparecer na mídia.

Mecanismos de aprovação grupal (ritos de passagem), necessários á consolidação da identidade nas diferentes faixas etárias, encontram-se em desuso e não foram substituídos por outros mecanismos com a mesma função.



Lideranças


Nas sociedades naturais:

Ser líder representativo do grupo significa seguir e divulgar as tradições; ser sábio, generoso e falar com clareza. O privilégio da liderança resulta do bom exemplo, da coragem, da admiração emprestada pelos membros. O líder cuida das tradições e representa o grupo nos cerimoniais e perante outros grupos. Precisa fazer isso toda a sua vida para merecer esse privilégio e não é possuidor de bens materiais diferenciados do resto do grupo. É escolhido por consenso.

Nas sociedades civilizadas:

Ser líder (político) significa, na maioria das vezes, ser eleito em eleições livres (e obrigatórias!), possuir bastante dinheiro para financiar sua campanha, prometer muito, comprar votos, ser esperto (desonesto), saber fraudar e estar imbuído de interesses próprios. Não é necessário que possua destacada sabedoria, competência ou espírito público. É recomendável que esteja vinculado a interesses de empresas ou grupos econômicos que possam usufruir o poder do seu mandato no futuro. Não precisa passar por qualquer teste que possa comprovar sua sanidade mental ou seus traços de caráter. Geralmente entra pobre e sai rico no final do mandato. Possui privilégios que vão desde altos proventos até a imunidade parlamentar. Nos casos em que comete crimes só pode ser preso ou afastado do cargo após um prolongado e complicado processo regimental que nem sempre resulta em perda do mandato. Pode empregar parentes e amigos e aumentar seu próprio salário. Seus eleitores quase sempre não o conhecem e nem acompanham sua vida parlamentar. Nas sociedades civilizadas o líder é quase sempre um aventureiro desconhecido sobre o qual o eleitor tem poucas informações e nenhuma admiração genuína.



Amizade


Nas sociedades naturais:

Ser amigo significa gostar de alguém com lealdade e admiração. O amigo é escolhido pelo sentimento e pelo prazer do contato. Amigos andam sempre juntos, pescam, caçam e se divertem. Em alguns grupos ter vários amigos é sinal de prestígio e facilita as empreitadas, onde certas atividades a executar necessitam de vários braços. Normalmente o amigo é chamado de “cumpadre” (ou equivalente na língua do grupo), termo esse que encerra, ao mesmo tempo, afeto e desejo de proximidade parental.

Nas sociedades civilizadas:

Ser amigo também pode significar a mesma coisa entre civilizados. Porém, na maioria das vezes, ter amigo pode significar uma opção vantajosa, como por exemplo: o amigo possuir bastante dinheiro, dar carona, fazer empréstimos, apresentar pessoas influentes, indicar clientes, facilitar acessos, conseguir empregos e outras vantagens. Enfim, uma opção de uso do outro como fonte de benefícios em proveito próprio. Muitas pessoas se queixam que foram esquecidas pelos amigos tão logo seu dinheiro acabou, seu prestígio diminuiu ou seu poder se esgotou. Oportunismo e parasitismo são comuns nas relações entre civilizados. Nas sociedades civilizadas o verdadeiro amigo é quase sempre uma peça rara encontrada por acaso. Um acidente de percurso. Um caso onde estão presentes: respeito e admiração verdadeira.


Sentimentos


São conteúdos emocionais de grande potencial estimulador para mobilizar comportamentos. A grande maioria dos atos humanos é movida por eles. Funcionam em diferentes intensidades e se manifestam em escalas que podem ir da amizade á paixão; da irritação ao ódio; da crueldade ao afeto. Muitas vezes são incontroláveis e inconscientes, determinando uma trajetória não planejada e, algumas vezes, não desejada. Emprestam sensações de prazer, dor, alegria e tristeza, ou seja, de emoção, ás manifestações. São atributos bem desenvolvidos na espécie humana.

Dissemos anteriormente que: a “sintonia nas relações” é fator importante e responsável pelo equilíbrio físico e mental do indivíduo e do grupo, que o entende como bem estar. Que é o equilíbrio resultante das relações positivas e construtivas entre indivíduos, que beneficiam o próprio indivíduo, a família, o grupo social e o meio ecológico. Um fator de harmonia do meio, determinante para a manutenção do desenvolvimento equilibrado do psiquismo, da estabilidade familiar e do modelo cultural. E que é a verdadeira expressividade, ou seja, a forma fiel e espontânea de unirmos palavra e voz ao sentimento e pensamento de forma aberta, sem constrangimento ou mentira. Um jeito livre de expressão, que não acumula tensão; que conduz a emoção e a idéia para ser compreendida pelas outras pessoas tal como foi criada no psiquismo. Sem camuflagem!

Nas sociedades naturais:

Ser sintônico nas sociedades naturais é o padrão normal. Mentir ou enganar é tão desnecessário, que há grupos que não possuem, na sua língua, palavras que expressem essas ações. Seria mesmo uma incoerência utilizar essas estratégias numa cultura que visa o bem estar geral. Como a palavra tem valor positivo e real, tudo o que é dito é entendido como verdadeiro. O hábito de mesclar sentimento, pensamento e voz para expressar-se (sintonia) é uso de rotina.

Nas sociedades civilizadas:

Com freqüência confundimos o jeito espontâneo e sincero do índio com “ingenuidade” e “pureza”. Achamos que são atrasados porque são bobos e acreditam com facilidade no que dizemos. Nosso uso da palavra possui valor invertido (ou pervertido?) em relação ao deles. Entre nós, acreditar em palavras pode se constituir em prejuízo, decepção ou amargura. Precisamos pensar muito para decodificarmos o que nos dizem. Sentimentos e intenções, camufladas pelas palavras, podem estar presentes e significar o contrário do que ouvimos. Para nos defendermos dos truques e ciladas do convívio civilizado sentimos necessidade de reter e dissimular nossos sentimentos e intenções porque o padrão normal é camuflar, mentir, enganar. O resultado dessa anomalia de conduta é o acúmulo de tensões, a desconfiança, a paranóia; além de termos que nos submeter a uma complicada rede de procedimentos e burocracias, que visam a proteção contra fraudes. Em várias situações nossos sentimentos se tornam confusos ou ambíguos por não termos certeza com qual parâmetro estamos lidando: se com a verdade ou com a mentira. Cérebro e mente exigem respostas exatas e confiáveis para produzir respostas certas.


Princípios


Uma das características que determina a singularidade de cada personalidade se apóia em conteúdos ético-morais. O bom senso é uma produção mental que discerne o que é certo do que é errado no plano individual e o transforma em conduta pessoal. O convívio em grupo nos ensina a usar nossos direitos e deveres de conformidade com os limites normativos da consciência e da cultura. É esse um elo de ligação essencial entre dimensão mental e cultura. Ética e moralidade são conteúdos individuais e culturais interagindo simultaneamente e produzindo fatos e aprendizagens.

Nas sociedades naturais:

Ser uma pessoa boa e confiável é seguir as regras da tradição. Os hábitos individuais são tolerados desde que não se oponham ao consenso. Usar de condições vantajosas para se sobrepor aos objetivos gerais, passa a se constituir em delito e desrespeito á tradição. A moralidade e a ética são propriedade de uso do grupo. Por norma a conduta individual deve refletir o desejo do grupo.

Nas sociedades civilizadas:

Basta citarmos o acúmulo de recursos existentes nas sociedades civilizadas para compreendermos o que aconteceu com a Ética e com a Moralidade entre nós. Se começarmos pelos organismos e convenções internacionais, passarmos pelas Constituições de cada nação, e chegarmos a um simples estatuto escolar ficaremos escandalizados com a montanha de acordos, convenções, regras, normas, decretos e leis. É tão grande a necessidade de escrever no papel o que desejamos que aconteça, que instituições como Polícia e Justiça se desgastam e se corrompem e não conseguem cumprir suas funções. Os mecanismos institucionais nunca conseguirão controlar o comportamento reativo - de natureza infratora - do homem civilizado. Porque esse comportamento decorre dos mesmos princípios distorcidos que regem sua consciência coletiva, constituindo um padrão ético-moral hipócrita. Comportamento é resultado de aprendizagem, que é instância interna da mente, não regulável por leis.


Valores


Os valores individuais ou os valores de uma cultura, assim como os sentimentos e princípios, são atributos que caracterizam cada personalidade e cada cultura. Apoiados que estão em conteúdos ético-morais dos indivíduos, refletem-se para o meio social. Dissemos antes que o modo de vida de uma pessoa em seu grupo social é determinado pela cultura do grupo, que forma os hábitos e costumes circulantes (sentimentos, princípios e valores), que determinam os comportamentos, que originam a qualidade da convivência, que promovem o bem-estar ou mal-estar, que facilitam o equilíbrio ou o desequilíbrio psíquico e orgânico de cada um, e que promove a união (harmonia) ou reatividade (conflito) entre os membros no grupo.

Chamamos de modelo cultural de um grupo ao conjunto de sentimentos, princípios e valores priorizados pelos membros do grupo social. Esse conjunto, na convivência, resulta na formação de hábitos e costumes que, pelo uso continuado, cria as normas ou regras de convívio tradicional de cada grupo. Outros elementos da aprendizagem individual estão contidos nos Valores de cada grupo ou pessoas. Enquanto alguns se interessam mais por valores materiais - dinheiro, objetos, patrimônio - outros visam objetivos espirituais- sabedoria, conhecimento místico, artístico, etc.

Nas sociedades naturais:

O valor fundamental está centrado na consciência coletiva de bem estar. O foco dos interesses gerais está voltado para a figura humana. O inconsciente do não-civilizado parece estar moldado a manter a coerência entre o discurso e a prática diária.

Nas sociedades civilizadas:

O valor fundamental está centrado na consciência individual de bem estar. O foco dos interesses gerais está voltado para a quantidade de poder que um indivíduo possa adquirir através do dinheiro, da fama ou da função de poder político-institucional que consiga deter. O inconsciente do civilizado parece estar fadado a manter a incoerência entre o discurso e a prática diária.



Concluindo


Ora, se o meio social é o terreno das relações entre os indivíduos, a qualidade dessas relações é que vai determinar o aparecimento dos comportamentos ativos e reativos. Com isso, o meio social sofre alterações significativas para melhor ou para pior, configurando e reproduzindo os sentimentos, princípios e valores circulantes no modelo cultural. A qualidade desses conteúdos circulantes no meio ambiente social fecham o ciclo, estimulam comportamento ativos e reativos, que influenciam e sofrem influência nas situações de contato pessoal. As distorções inerentes ao processo civilizatório podem ter provocado mudanças nos sentimentos, princípios e valores humanos com as disputas por prestígio, bens materiais e poder.

Os valores de um grupo social ou de seus membros, variam segundo uma diversidade de interesses circulantes, hábitos e costumes que, reunidos, emprestam um sentido comum e determinam as características da estrutura cultural do grupo. Todas essas situações de interesse e diferenças da vida em grupo, estão impressas no psiquismo de cada indivíduo, ao mesmo tempo em que estão atuando ativamente através do seu comportamento. Essa complexa rede de relacionamentos contendo as identidades, princípios, sentimentos, valores, hábitos e costumes, resulta na formação da consciência grupal, isto é, na síntese do seu Modelo Cultural.

Se nos fosse concedido o direito e o poder para analisar o que acontece na atualidade com as sociedades civilizadas sob o ponto de vista de sua “sanidade mental”, diríamos que ela se encontra gravemente enferma. Delírios de grandeza, alucinações produtivas, dissociação das funções integradoras e a esperança ilusória de reintegrar-se por intermédio de soluções onde a figura humana continue não ocupando o centro e a razão da Vida, permitem a continuidade de toda essa alienação.

Há pessoas que se orgulham em morar nas grandes cidades, cujo trânsito é um exercício masoquista diário; onde a insegurança é a sensação comum; onde o anonimato é a regra. Outras empregam o seu tempo amealhando bens e prestígio. Outras ainda acreditam que podem alcançar o êxito (?) e que as injustiças, a miséria e a fome são questões dos governos.

Quando acreditarmos que somos apenas minúsculas peças de um gigantesco quebra-cabeças que nunca acaba de se montar e muda a todo instante; e quando todos perceberem que são donos apenas dos seus “bens internos” - sentimentos, princípios e valores - e do seu livre-arbítrio, teremos descoberto uma nova pista para reconquistar a liberdade. Somos tão donos desses atributos pessoais que os levamos conosco após a morte. Somos e seremos sempre meros usufrutuários dos bens materiais enquanto vivermos. Nunca proprietários! Pois a morte nos ensina que o conceito de “propriedade” é uma frágil ilusão. Cada experiência afetiva pessoal é intransferível e única. Sentir não é ter, é só sentir. Quando sentimos uma alegria não nos tornamos proprietários dela, só a usufruímos. Nossos atributos pessoais morrem junto conosco, nossos bens materiais serão distribuídos entre os vivos.
A consciência coletiva é imortal.



Aprendizagem subliminar

É provável que algumas aprendizagens se processem através de mecanismos ainda obscuros para nós. O que chamamos de intuição, percepção profunda, sexto sentido, ou qualquer outra expressão que queiramos usar, pode ser o resultado de processos onde raciocínio e discernimento não se constituam partes importantes dessa aprendizagem. Um outro mecanismo simples de tentativa e erro ou simplesmente a convicção ou crença pessoal pode comandar o encaminhamento dessa questão. O sentimento de culpa advindo de crença religiosa é forte fator de mobilização para nos fazer enveredar pelo caminho da “salvação da alma”. Impregnados por esse sentimento somos capazes de rezar, nos automutilar e até de atuar construtivamente ajudando outras pessoas. Porém nossa consciência poderá se escravizar na crença de que somos pecadores e nossos atos e pensamentos permanecerão dependentes dessa condição. Não seremos capazes, com facilidade, de escapar dessa fixação de idéia e não nos sentiremos com direito para criar uma condição autônoma de pensar e sentir com liberdade.

Muitas organizações religiosas do mundo civilizado usam de meios subliminares de aprisionamento do juízo crítico das pessoas, sobretudo quando elas são presas do sentimento de culpa ou de condições de fragilidade de outra natureza. Ganham-se clientes ou adeptos via estratégias de entretenimento, coação ou medo. Não conheço pessoas que foram para o céu, para o inferno ou purgatório. Essas estratégias de dissimulação e atemorização são extremamente eficazes, mas carecem de fundamento real. Qualquer pessoa que defenda esse pressuposto estará sendo ou crédula demais ou prepotente, pois não terá condições de ter tido essa experiência após a morte e ter retornado á vida para contá-la.

Da mesma forma que nas religiões, existem as pessoas fixadas na ideologia científica. São as que querem provar tudo através da metodologia científica. Como se essa fosse a única e a mais correta das vias para se alcançar respostas adequadas em todos os casos de dúvida. É compreensível que a natureza humana, talvez pela sua imcompletude, procure as verdades, freqüentemente por vias extremistas. Há ainda as pessoas que se agasalham entre as duas vertentes buscando, em ambas, substrato lógico para suas dúvidas. Essas possuem uma tendência mágico-utilitária tentando extrair dessa fusão, algo de esotérico e de científico, uma forma de apaziguar suas incertezas.

Olhando sem amarras para o mundo civilizado vejo-o como um gigantesco balcão comercial, como se fora um hipermercado de proporções oceânicas. Sua suntuosidade abriga produtos de várias qualidades, mas seus rótulos, bem planejados, parecem convincentes. Nós, os crédulos, vamos ás compras com o bolso quase vazio, porém com a cabeça repleta de estímulos subliminares. Não somos pessoas, somos consumidores vorazes de tudo o que possa preencher nosso “vazio” existencial. Temos que ficar sozinhos procurando nas prateleiras da vida àquilo que possa nos aliviar; seja o que for: religiões, verdades científicas, filosofias, comida, conforto, etc. Saímos tristes na maioria das vezes por não termos encontrado os itens essenciais para uma boa cesta básica: afeto, solidariedade, harmonia, paz e justiça. Esses produtos são raros nesses lugares, mas, se formos para dentro de nós mesmos, talvez os encontremos.

Uma das condições mais perversas no convívio social é a ilusão. Ela se veste com as roupagens da mentira, da hipocrisia, da dissimulação, com as quais já nos acostumamos. Se tentarmos vislumbrá-la e dissecá-la dentro das aspirações que movem a manada humana, poderemos vacilar e perguntar: por que todos seguem a mesma direção? Estarei certo se segui-los ou deverei procurar outro caminho?

Para sobreviver na selva temos que aprender a distinguir os predadores dos conviventes. Se estamos em constante estado de alerta é porque a selva não é suficientemente segura. Ou porque essa sobrevivência prolongada na selva alterou a nossa mente e nos deixou com a sensação de eterno perigo iminente. Existe alguma outra selva onde possamos viver em paz?


O FUTURO



A verdade e a sabedoria não afloram á superfície da mente assim como as sementes não brotam quando as cuspimos no solo para aproveitar a polpa da fruta. Para chegarmos ao último dia de um ano, é necessário percorrer os trezentos e sessenta e quatro dias anteriores. Da mesma forma os arqueólogos têm que cavar fundo para encontrar os objetos das suas pesquisas. Quando se convive com sociedades naturais também encontramos dificuldades em compreender seus hábitos, costumes e suas formas de organização política, econômica e religiosa. Quais as sabedorias ou verdades que se escondem por trás do modo de conviver nessas sociedades?

Sabemos que não é possível o retorno para formas naturais primitivas de organização social. Sabemos também que desejar isso não passaria de uma divagação romântica. Existiria uma proposta viável que conseguisse reunir os elementos positivos existentes nas sociedades naturais e as condições construtivas oriundas da sociedade civilizada? Talvez sim... !

Certamente teríamos que retornar à questão do Modelo Cultural. Ele talvez seja um plano indispensável que resume o conjunto “organismo-cérebro-mente-sociedade”. Uma espécie de espaço-síntese dessas dimensões. É possível acreditar que os homens há milênios, tenham buscado uma melhor disposição da organização social apenas por instinto? Se algum dia, alguém quiser tentar alternativas eficazes, certamente terá que seguir algumas regras indispensáveis:

• Neutralizar todo tipo de poder individual da organização social humana
• Criar um “espaço abstrato” regulador do imaginário, onde o poder se deposite no inconsciente grupal.
• Delegar poderes de representação (apenas de representação) para líderes confiáveis.
• Outras questões inerentes á organização do grupo poderiam ser discutidas e aprovadas por consenso, dirigidas para o bem estar coletivo.

É fácil chegar ao consenso na nossa sociedade? A grande mudança seria substituir comportamentos reativos por comportamentos ativos. Essa é uma condição fundamental, mas só se torna possível quando um grupo humano se sente como um organismo (integração), com identidade (autonomia) e com objetivos (função). Um dos grandes esforços humanos durante todo o seu percurso tem sido a busca pela paz, pela solidariedade, pelo desenvolvimento.

A base de sustentação das sociedades não se assenta nos interesses individuais. Quando isso acontece, as diferenças surgem, as injustiças se instalam, as tensões aumentam e o todo se torna instável. As violências são os sintomas e sinais desse processo de desintegração em andamento. Criam-se fórmulas as mais diversas para conter ou diminuir a expansão da violência, mas, os resultados ou são precários ou ineficazes. Tendem a aumentar, a proporção em que medidas cada vez mais punitivas são adotadas.

Fiz questão de citar o comportamento humano desde os primórdios da civilização para demonstrar que há muitos milênios as sociedades vêm tentando organizar-se através de diferentes formas sem, no entanto, conseguir seus objetivos. A existência de classes hierarquizada e de instituições é, a meu ver, o ponto crítico da questão. Elas determinam a posição do poder e da diferença nas mãos de seres humanos, geralmente despreparados para desempenhar essa função, que é incompatível com a fragilidade humana.

A destrutividade, como já dissemos, é inerente a todo animal. É usada como ferramenta de sobrevivência e autodefesa. Porém, no homem ela se junta á inteligência e aprendizagem e permanece latente até que os desequilíbrios na convivência a despertem. A agressividade, capacidade que visa buscar equilíbrio adaptativo, se exacerba quando se esgotam os limites suportáveis, transformando-se em comportamento violento. A violência é uma forma de convivência ilógica, irracional, desesperada, destruidora. Sintoma de crise social!

Em que se sustenta nosso bem estar? Ás vezes estamos alegres e comunicativos, outras vezes de mau humor e fechados. Muitas das vezes não sabemos de onde isso se origina. Se estivermos “em equilibrio” é possível que devamos esse “estado” a uma base de compensação. Isto é, algo que acreditamos ser ou ter. Se isso é posto em confronto, ficamos desorientados e podemos nos tornar violentos.

O que fazer, então? Inventar novos modelos de organização? Sugerir mudanças no comportamento dos indivíduos? Como implementar uma nova Ordem Social?

De uma coisa temos certeza: aumentar recursos do Estado, construir cadeias e presídios, criar mais leis, baixar decretos e fundar novas religiões para domar e conter a violência não se mostraram medidas satisfatórias desde eras remotas. A educação das massas é outro recurso ilusório quando orientada para essa finalidade. A escolaridade é apenas acervo intelectual não interfere eficazmente nos sentimentos, princípios e valores; não melhora o caráter.

Quando falamos, no início deste trabalho, que a Natureza e seus Mecanismos controlam os fenômenos gerais e que Interação, Integração e Função se constituem no eixo ordenador dos resultados, estamos afirmando nossa crença de que não é dado ao homem o privilégio de criar modelos antinaturais para o convívio. Essa capacidade extrapola a condição humana e o limita ao papel de simples criatura.

É como dizer: “Viver eu quero, conviver é preciso!”. Essa frase resume e reduz as aspirações humanas ao mesmo tempo. Olhe para trás e veja o que já foi feito. Se os resultados fossem bons seríamos hoje uma sociedade feliz, sem problemas. Mas ainda temos todo o tempo que o futuro nos oferece. Qual será nossa próxima tentativa?







SUGESTÕES DE LEITURA


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ÍNDICE


A
abstêmio, 109
alterações do comportamento, 115, 138, 142
Antropologia, 161
associal, 107
autoritarismo, 147
B
bode expiatório, 106
C
centro receptor-processador-transmissor, 137
cérebro, 136, 137, 141
Ch
chantagem, 115, 138
C
cipó, 54
comando ordem-obediência, 132
Comportamento Ativo, 28
conhecimento intuitivo, 130
crimes hediondos, 105
D
drogadição, 105, 108, 109
drogadito, 108
E
emoções, 141
Etnologia, 130
F
fantasias, 131
festas de iniciação, 105, 106
G
grupo étnico, 105
H
heterossintonia, 137
Heterossintonia, 137
hipocrisia, 115, 132, 138
homossintonia, 136
I
identidade, 108, 109, 156
igualitária, 129
inconsciente, 107, 141
infrator, 105, 147
Inteligência Emocional, 137
J
juizo critico, 105
L
livre-arbítrio, 157
M
magnata, 109, 130
mais-valia, 129
mateiro, 50
mente, 53, 142
mimetismo, 138
mimetismo psicossocial, 138
miraculosos, 109
miragens, 109
mito, 108, 131
mitos, 51, 109, 130
moralista, 106, 108
P
pajé, 49, 53, 55, 56, 147
personalidade, 108
prepúcio, 54
princípios, 28, 29, 47, 115, 131, 138, 141, 156, 157
programação anômala, 115, 137
programas básicos, 115, 136, 137
Psicanálise, 163, 164
Psiquiatria, 165, 166
psiquismo, 28, 47, 137, 138, 141, 156
R
religião, 107, 109
religiosidade, 105, 130
representações mentais, 138
ritos, 105, 109
S
sentimentos, 28, 47, 50, 141, 156, 157
sinalização de deslocamento, 138
sinalização de relação, 138
sinalização física, 138
sinalizações, 138
software, 141
T
tradição, 51, 53, 54, 106, 147
Tradição, 147
tuxaua, 48, 49
U
usufrutuários, 157
V
valores, 28, 29, 47, 105, 106, 107, 109, 115, 131, 138, 141, 156, 157
Valores, 156
voracidade, 107
Y
yanomami, 50
Yanomami, 52

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